Lenha na fogueira

Guilherme Kujawski

Publicado em: 05/12/2013

Categoria: cultura digital, Reportagem

Aplicativo de encontros amorosos vira febre entre tímidos (e entre os não tão tímidos assim…)

Daisy_head

Legenda: Margarida, um avatar bastante recorrente na rede do Tinder

No filme Agentes do Destino (The Adjustment Bureau, 2011) uma força tarefa de “anjos” vive entre os humanos com a missão de garantir que a vida das pessoas proceda exatamente conforme o chamado “Plano”, um documento altamente complexo elaborado por um personagem oculto chamado apenas de “Presidente” (obviamente, Deus). Assim, relacionamentos amorosos que por ventura acontecessem puramente por sorte ou acaso, ou seja, à margem da lei divina e fora da causalidade do projeto, seriam terminantemente desestimulados, quando não proibidos. Nem é necessário dizer que o roteirista colocou como protagonistas dois apaixonados condenados a viver separados e que tentam “reescrever” a sua história oficial.

Assim, ao fazer uso do Tinder, popular aplicativo de relacionamentos para smartphones, os pretendentes se comportam como os dois personagens do filme que tentam driblar o destino. Numa primeira visada, nada de excepcional nessa nova tecnologia, que usa geolocalizadores e funciona como uma “camada externa” do Facebook, espécie de lounge para coqueterias da famosa rede social. Mas, com o tempo, vai-se percebendo que se trata não de um aplicativo de relacionamentos qualquer, mas de um jogo em que cada “match” (ou seja, quando dois enamorados se gostam mutuamente) tem o mesmo significado que os pontos adquiridos, por exemplo, no Candy Crush. Com a diferença de que os pontos, no caso do Tinder, contam para a auto-estima.

Uma análise rápida sobre os tipos humanos que circulam nesse “jogo” se faz necessária (tipos do gênero feminino, dada a opção sexual deste que vos escreve). Barbies humanas vigoram, com seus traços alinhados, plumas e paetês. Geralmente aparecem em bandos ou beijando golfinhos (ora, não deveriam ser botos?). O juízo de valor do caçador é ativado automaticamente, e a negação de garotas off-Vogue se dá com drásticas mudanças de página (virar a página para a direita significa “ela não me interessou”). A naturalização da atitude de escolher um par passa a ter o mesmo peso ontológico que a escolha de um enxoval.

É possível construir narrativas com as diversas máscaras, elaborar histórias de vidas que vão passando em segundos diante dos olhos. Aos poucos, o gosto circunspecto da primeira fase é substituído por outro método de juízo de valor – esse um pouco mais democrático. Se no primeiro momento é construída uma linha gradativa que vai de Monica Vitti a Miley Cyrus, no segundo o ávido estende as funcionalidades de sua fita métrica rigorosa. De qualquer forma, percebe-se que o caminho do meio dessa medição é o mesmo de alguém perdido no deserto (ou seja, a morte é certa, tanto voltando como avançando). E as imagens substitutas que por ventura surgem (de Margarida a retratos de infância) só reforçam essa sensação.

A partir desse ponto, e quase que inconscientemente (um inconsciente formado por textos do Xico Sá, diga-se), começa-se a considerar com mais carinho as belezas subversivas, personas bergmanianas usadas por mulheres que não podem se identificar completamente, ou não são exatamente colegiais ou maduras, ou não são eminentemente caucasianas, são nitidamente estranhas ou não são convencionalmente atraentes. Entram dentro dessa esfera tipologias fora da caixa, como Suicide Girls, mulheres Kuikuro, mulheres-mariposa, mulheres-hamadríades, mulheres-dragão e discípulas de Aleister Crowley.

Dessa maneira, a atenção dirigida a fêmeas que só se renderiam por meio de métodos ilegais, como o infame “Boa noite, Cinderela”, se volta a um tipo de mulher universal. É como se todos os rostos das meninas fossem dispostos num telão de 287 megapixels, da mesma maneira como foram dispostos os rostos de perfis no Facebook no The Faces of Facebook, um projeto que visualiza mais de 1,2 bilhões de usuários no Facebook em uma página (sobre esse projeto, leia o ensaio Presente mais que absoluto, de Giselle Beiguelman, na nova edição da revista seLecT). Mas, pensando bem, é como se os rostos do Tinder fossem misturados ao barro primordial que serviu de matéria prima para a modelagem da Vênus de Willendorf, a pré-histórica dona das divinas tetas. Ao cabo e ao final, o incauto cansa-se do jogo (como se cansaria de qualquer outro) e se retira, preferindo não continuar apagando o fogo de sua abstinência com gasolina.

Como complemento, não deixe de ler a reportagem Azaração ao alcance de um dedo, de Luciana Pareja Norbiato, na seLecT #15 – que já está nas bancas!

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