Linguagem fraturada

Kiki Mazzucchelli

Publicado em: 13/11/2014

Categoria: Crítica, Review

Panorâmica permite entendimento profundo de pesquisa e produção de Rivane Neuenschwander

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Legenda: Mal-entendido (2000), de Rivane Neuenschwander em São Paulo (foto: Vicente de Mello)

A individual de Rivane Neuenschwander no MAM-SP, que reúne trabalhos produzidos nos últimos 15 anos e obras inéditas, é uma ocasião a ser celebrada. Afinal, embora seja uma das artistas mais influentes de sua geração e siga participando regularmente de exposições coletivas no Brasil, esta é a primeira vez em mais de dez anos que uma instituição do País realiza uma mostra panorâmica de sua obra. É, ainda, a primeira no eixo Rio-São Paulo: as duas anteriores aconteceram no Museu da Pampulha, em Belo Horizonte (2002), e no MAMAM, no Recife (2003). Nesse ínterim, foi protagonista de uma importante retrospectiva de meio de carreira, organizada pelo New Museum de Nova York e pelo Museu de Arte Moderna da Irlanda, que itinerou para cinco cidades nos EUA e Irlanda entre 2010 e 2012. A mostra em São Paulo é, portanto, altamente oportuna para que o público brasileiro tenha acesso a um conjunto significativo de obras que permite um entendimento mais profundo de sua pesquisa e produção.

Como sugere o título da exposição, Mal-entendidos, o eixo central da obra de Rivane é a linguagem e o papel fundamental que esta desempenha nas relações humanas. Mal-entendido, no singular, é também título de um trabalho no qual um ovo encontra-se parcialmente submerso num copo d’água, de modo que sua metade inferior parece ampliada, devido à ilusão causada pela refração. A escolha desse título em particular não é nada aleatória, pois da imagem fraturada de um mesmo objeto, observado simultaneamente de duas maneiras distintas, é possível depreender um questionamento dos sistemas de representação – especificamente dirigido aos meandros da linguagem – como força motriz de grande parte da obra da artista. Não se trata, contudo, de uma especulação puramente teórica: seus trabalhos resultam sobretudo de uma observação aguda do entrelaçamento cotidiano entre linguagem e vida, donde emergem as situações em que o discurso não obedece mais à objetividade da lógica cartesiana.

É algo que está implícito, por exemplo, em obras como Palavras Cruzadas (2001). A instalação cria uma espécie de labirinto de caixas de madeira espalhadas pelo chão repletas de laranjas entalhadas com as letras do alfabeto, jogo que pode ou não ser ativado pelo espectador. Aqui, além de poder ser manipulado livremente dentro da grade formada pelas caixas, expandindo as possibilidades de comunicação do “jogador”, o caractere corresponde a uma superfície que também remete ao aroma e ao sabor, e que é sobretudo instável – ainda que simbolicamente, já que as laranjas utilizadas são desidratadas –, pois seu fim inevitável é a putrefação.

A exposição conta ainda com diversos trabalhos inéditos, como o filme Erotisme (2014), que explora um alfabeto manual usado pelos surdos-mudos para falar de sexualidade, e a série de pinturas A Aturdida (2014), que guarda os rastros de lesmas sobre reproduções de labirintos (sem entrada ou saída) retirados de revistas de passatempo infantis. Em toda a obra de Rivane Neuenschwander, a generosidade, bem como seu caráter eminentemente político, está justamente em não oferecer respostas prontas, mas em nos colocar numa posição em que somos levados a tomar consciência de nossas ações.

Rivane Neuenschwander: Mal-entendidos >> até 14/12, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Parque do Ibirapuera, Portão 3

*Review publicado originalmente na edição #20

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