Linguagem inclusiva: hackeando a norma padrão sexista

Autor propõe desconstrução de uso sexista e racista da língua portuguesa, como o que envolveu em polêmica o curador da Bienal de São Paulo

André Fischer

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: Destaque, Opinião

O objetivo de quem usa linguagem inclusiva é falar e escrever escolhendo palavras que demonstrem respeito a todas as pessoas, sem privilegiar umas em detrimento de outras (Foto: Octavian Dan)

Homens podem ser feministas? Sinceramente, acho, devem. Da mesma maneira que pessoas brancas com um mínimo de consciência devem ser antirracistas.

Antes mesmo de passar à ação é preciso rever o que falamos e escrevemos evitando palavras e expressões racistas como “denegrir” ou que reforçam preconceitos raciais, como associar termos “negro” e “preto” a algo nocivo. Em polêmica recente, o uso da expressão “a coisa está preta” pelo curador da 34ª Bienal de São Paulo, Jacopo Crivelli Visconti, para justificar a escolha do título Faz Escuro Mas Eu Canto, não passou batido pela opinião pública. Embora o curador tenha emitido nota de desculpas pelo cunho racista de sua fala, o fato reforça o debate em torno do racismo estrutural não apenas na linguagem, mas nos mecanismos das instituições artísticas.

Mas se já estamos mais alertas para discursos e manifestações racistas, sequer nos damos conta do profundo machismo presente na linguagem do cotidiano. Reproduzimos hostilidades múltiplas vezes por dia, simplesmente ao falar e escrever da maneira como fomos alfabetizados. Sim, o português corrente é um instrumento de opressão e invisibilização de mulheres, pessoas trans e não-binárias.

“Assim como todas as línguas latinas,
a marcação binária de gênero é base
do português e está estável há muitos
séculos”

Muitos dos nossos valores foram estabelecidos tendo como referência um sistema patriarcal, inegavelmente construído a partir dos interesses dos homens. A comunicação e a linguagem são a tradução mais óbvia e explícita dessa realidade. Assim como todas as línguas latinas, a marcação binária de gênero é base do português, está estável há muitos séculos e praticamente todas as palavras estão no masculino ou no feminino. E é fato que o masculino escolhido para ser usado como genérico serve também para ocultar o feminino. Até a própria construção de frases e uso trivial de determinadas palavras reforça e perpetua estereótipos do que um dia foram considerados “papéis adequados” para mulheres e homens na sociedade. 

Vejamos alguns exemplos básicos
A forma como agradecemos e damos boas vindas. Poucos são os idiomas que fazem uma distinção de gênero na forma de demonstrar gratidão e a nossa forma padrão é no masculino. Em cada “obrigado” sinalizado, está implícito um homem agradecendo em nome de todas as pessoas. O “bem-vindo” está acolhendo uma pessoa do gênero masculino.

A palavra “homem” é usada correntemente para se referir a toda a humanidade. “O homem foi à lua” evidencia a intenção de que não foi uma conquista de toda humanidade.

Há vários termos em que são conferidos aspectos positivos ou superiores no masculino e negativos ou inferiores no feminino (mundano x mundana, governante x governanta).

Além do decantado masculino genérico que nos faz dizer “os políticos” e “os professores”, apagando a existência de mulheres na política e na educação. Sem contar que sempre empregamos “eles”, pronomes e advérbios no masculino como “todos”, “muitos” e “os seus” para nos referirmos a pessoas em geral.

Enfatizamos o tempo todo identidades de gênero binárias, inclusive ao usar dispensáveis artigos definidos para nos referirmos a alguém (a Paula, o André).

Uma questão de cidadania
É para desconstruir o uso sexista da língua que reforça relações assimétricas de gênero, que tem sido proposto o uso de linguagem inclusiva. O objetivo é falar e escrever sem privilegiar pessoas em detrimento de outras. A busca por substituir marcadores de gênero no discurso é um processo que explicita respeito e empatia. Assim como as técnicas de linguagem simples, que procura dar acesso universal à compreensão das informações contidas em textos, a linguagem inclusiva também é uma questão de cidadania. Ela é distinta, mas não exclui o conceito de linguagem neutra, que envida solucionar a exclusão de pessoas trans, não-binárias e gênero fluido causada pelo binarismo dos pronomes pessoais. 

Para isso, não basta usar X ou @. Na verdade, nem são recursos inclusivos pois criam problemas de leitura para deficientes visuais que utilizam programas leitores de texto, pessoas com dislexia, alfabetismo elementar, ou que não tenham sido informadas sobre o significado desse código.

Você já deve ter ouvido “amigues” e “sejam todes bem-vindes”, onde “e” aparece fazendo o papel de gênero neutro. Uma maneira simpática de saudar pessoas e fazê-las se sentirem incluídas, mas que não se sustenta nem por um parágrafo. Não existem regras previstas para pronomes, artigos e adjetivos e sequer há unanimidade entre os grupos que a advogam – alguns chamariam a terceira pessoa do singular neutra de “ile” outros de “ilu”. Ainda que faça sentido como afirmação identitária, está muito longe de ser usado em larga escala a ponto de se tornar uma realidade.

O feminino tomado como genérico e a versão feminina de palavras no masculino como “corpa” e “gênera” podem sublinhar uma intenção ou tonificar a fala. Contudo, deve ser levado em consideração que, dependendo de quem lê ou ouve, pode gerar uma dissonância cognitiva e reduzir a sintonia com a mensagem que está sendo transmitida. 

“O caminho mais rápido e direto
para escrever e falar de maneira
mais  inclusiva é
hackear a própria
norma padrão da língua portuguesa”

O caminho mais rápido e direto para escrever e falar de maneira mais inclusiva é hackear a própria norma padrão da língua portuguesa. Encontrar construções alternativas existentes dentro da gramática vigente para dizer e redigir amenizando marcadores de gênero, mas mantendo o mesmo significado. Faz parte desse processo sair da zona de conforto cognitivo, ampliar a percepção sobre como e o que comunicamos e empenhar-se um pouco para acessar um vocabulário mais amplo que o corriqueiro. 

No mundo hispanoblante é vigorosa a discussão sobre “lenguaje inclusivo” e já foram publicados vários artigos e propostas de reforma. Por aqui, ainda há poucas referências. Para contribuir com essa discussão, publiquei em junho com download gratuito o Manual Prático de Linguagem Inclusiva, onde apresento técnicas simples e estratégias semânticas em uma leitura de 20 minutos. 

Download gratuito em www.tecidas.com.br

André Fischer é fundador e diretor do Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade e do Centro Cultural da Diversidade de São Paulo. Foi colunista da Folha de S.Paulo e MTV, redator e apresentador de programas na CBN e Canal Brasil, editor de revistas e autor de seis livros, entre eles Crônicas Sobre a Nova Ordem Sexual e Manual Prático de Linguagem Inclusiva.

Os textos de opinião não refletem necessariamente o posicionamento da revista e são de responsabilidade integral dos autores. 

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