A linguagem que nos define

A ausência de obras disruptivas na documenta 14 é fato. A ruptura era o mito das vanguardas

Daniela Bousso
No Landesmuseum, o documentário Two Meetings and a Funeral (2017), de Naeem Mohaiemem (Foto: Michael Nast)

Alguns dizem que a documenta 14 não vale a pena. Quem foi até lá em busca da essência do espetáculo – para Guy Debord, o espetáculo é o reino da visão, é exterioridade – ficou decepcionado. A mostra cria uma ontologia formal da miséria do planeta, mas é verdade que precisamos reativar o olhar perceptivo em nós e desacelerar, para embarcar em uma aventura intelectual e permear um mundo sensível. É na produção audiovisual que a documenta 14 oferece obras interessantes. Em espaços deslocados do raio que circunda a Friedrichplatz, há um número razoável de artistas e obras contemporâneas que apontam paradigmas de linguagem do século 21.

Desde 1955, a cada cinco anos, a documenta de Kassel concentrou importantes obras de ruptura em suas mostras. As gerações que a visitaram nos anos 1960 e 1970 voltavam se sentindo transformadas. Nas primeiras edições, as mostras concentraram-se em exposições. A partir de 1997 – com a documenta 10, sob curadoria de Catherine David –, transformou-se em projeto, abarcando publicações, atividades e mesas de reflexões que envolveram arquitetos, antropólogos, filósofos, educadores, escritores e artistas.

Com 160 artistas distribuídos entre Atenas e Kassel, a documenta 14 traz a marca dos agenciamentos, articulações e programas de fomento à arte que envolveram o circuito internacional entre os anos 1990 e os anos 2000. Em perspectiva experimental, assemelha-se mais a uma grande residência artística do que a uma exposição internacional desse porte. Ao colocar-nos diante de um mundo desarticulado e em franca disruptura, o curador Adam Szymczyk pretendeu dar uma resposta em tempo real às crises mundiais e da Europa, e incluiu a Grécia no roteiro.

No museu Fridericianum, o vídeo de dois canais I Soldier (2005), de Köken Ergun (Foto: Reprodução)

 

seLecT expandida: Confira o trabalho I Soldier (2015), do turco Köken Ergun em bit.ly/soldier-ergun

Com a ideia de trazer à luz uma obscuridade relativa, Szymczyk evocou um espectro que envolveu a ativação de diferentes partes da história, desde a Grécia clássica até as passagens por Goethe e pelo criador da documenta, Arnold Bode. A construção de uma estrutura não linear intencionou “fazer justiça a coisas invisíveis”, nas palavras do curador-ativista.

Entre os temas abordados estão as relações entre ecologia e capitalismo, a violência colonial e a de gênero, questões de posse e desapropriação, o poder do colonizador sobre o colonizado, “a dominação e o espetáculo como máscaras visíveis do capital, que remontam ao século 18 com o realismo e ao século 19 com as vanguardas históricas”, afirma Adam Szymczyk.

Segundo ele, esses movimentos, juntamente com o mito da maquinaria moderna, teriam gerado forças artísticas progressivas, mas também instituições repressivas, como a sociedade de controle que reproduziu o medo das prisões e campos de concentração. Entre os modos de resistência a opor, Szymczyk propõe deseducar para reaprender; e escrever e publicar como ato político, daí os três volumes da revista South – que ele próprio editou –, além dos catálogos da mostra.

No Palais Bellevue, o vídeo A Sombra (2017), de Regina Galindo (Foto: Eide Feldon)

 

Fruição comprometida
Se, de um lado, o enunciado e a reflexão proposta pela documenta 14 são dignos de nota, o que vimos em Kassel, do ponto de vista da organização de uma mostra internacional desta monta, é lamentável. Com orçamento de 37 milhões de euros, a mostra oscila entre obras sofríveis e, felizmente, obras que refletem paradigmas de linguagem da arte contemporânea.

Hoje, a documenta ainda gera expectativas por ser um índice para o meio artístico e os espectadores, que se deslocam por continentes para se atualizar e refletir sobre valores e conteúdos propagados pelo evento. Os que seguem a mostra ainda nutrem a expectativa de se verem confrontados com obras mobilizadoras, mas a documenta 14 extrapola ao exaurir o público com o excesso e a repetição de um mesmo discurso, em tom monocórdico. A ausência de um design expográfico que dê conta de facilitar informações sobre as obras soma-se à péssima sinalização. Mapas que não são claros, longas distâncias e artistas distribuídos em mais de 30 espaços da cidade potencializam a decepção de nos depararmos em grande parte do tempo com obras datadas.

Sacudir as instituições e “dar ao receptor a tarefa de realizar a metade do trabalho” não é exatamente “um meio de ação ou participação entre o visitante e o artista”, como quer o curador. Quando o trabalho do visitante é usar metade do seu tempo em busca de informações, a qualidade da fruição da mostra está comprometida. Sacudir instituições não é exatamente abrir mão do que a expografia contemporânea pode fazer por uma mostra, mas exibir obras que realmente toquem o coração do espectador, seja pela sua eficiência visual, seja pela intensidade de sua poética, ou seu conteúdo inovador.

No Palais Bellevue, a videoinstalção de Roee Rosen The Dust Channel (2016) (Foto: Eide Feldon)

 

O melhor da d14
No museu Fridericianum, ocupado pela coleção do Museu de Arte Moderna de Atenas, podemos contar nos dedos as obras de maior interesse, tais como The Raft (2004), de Bill Viola, Wall Piece (2000), de Gary Hill, exibida no espaço redondo do MIS em SP em 2010, e o vídeo I Soldier (2005), do turco Köken Ergun, radicado em Berlim e Nova York. Filmado em tempo real, I Soldier registra a comemoração anual de 19 de maio na Turquia, que remonta à guerra da independência contra os Aliados (1919). Em foco, jovens de ensino secundário treinados a integrar performances, coreografadas no maior estádio da cidade, imitando as cerimônias do realismo social da Rússia. Em dois canais, o vídeo conjuga atletismo e marcha militar em ritmo de hip-hop, exaltando a disciplina turca e o nacionalismo, colocado acima de cada ser. Um poema que exalta a pátria, lido por um soldado que o declama a plenos pulmões, constela o discurso que oscila entre a associação a crenças religiosas e sentimentos populistas, via antagonismo vida e morte. Questões de gênero transparecem no foco sobre os soldados, por meio de um corpo performático e mutante, característico da obra de Ergun.

O Palais Bellevue abriga obras que abordam memória de conflitos, traumas de guerra e relações de dominação a que imigrantes são submetidos. O vídeo A Sombra (2017), da guatemalteca Regina Galindo, revela o horror promovido pelo poder da indústria armamentista e mostra a aflição de uma jovem que corre, exausta, para fugir da perseguição de um tanque de guerra.

A videoinstalação do israelense Roee Rosen é a obra-prima do lugar. Em The Dust Channel (2016), as relações de dominação entre patrões e serviçais imigrantes são tratadas com humor por meio do hibridismo das linguagens da arte atual: música, performance e tratamento cromático em tons chapados dão ritmo pop ao roteiro de uma opereta, com música acurada de rara beleza. Estão em jogo as polarizações entre sensualidade e pornografia, cotidiano e poesia. A forma ficcional confere efeito ambíguo à obra, na qual corpos em ação traduzem uma sígnica emocional, de sintaxe ao mesmo tempo sensorial e ácida.

No Ottoneum Museum, a videoinstalação Preah Kunlong (2017), de Khvay Samnang (Foto: Eide Feldon)

 

No Ottoneum Museum, Khvay Samnang, nascido no Camboja, em 1982, apresenta a videoinstalação Preah Kunlong (2017), onde a linguagem da dança é central. A obra trata da comunidade Chong e da sua relação com a terra. Infiltrado na comunidade por um ano não consecutivo, o artista trabalhou com eles a resistência a políticas territoriais e o senso de pertencimento. O aprendizado a respeito das crenças e mitos do povo indígena Chong – que vive na última grande floresta no Vale Areng – baseado em experiências ancestrais e histórias orais, traz a presença espiritual de animais que habitam na floresta, por meio de máscaras e artefatos. Confeccionados com cipós da selva, estão incorporados na performance do coreógrafo e bailarino Nget Rady, que colabora com Samnang há muitos anos.

No Landesmuseum Two Meetings and a Funeral (2017), de Naeem Mohaiemem, é um documentário sobre o Movimento Não Alinhados (1950-1990) – organizado a partir de linhas socialistas – que congregou países do Sul Global, cujo objetivo era intervir de forma independente sobre os poderes da Guerra Fria. Construída a partir de uma competente pesquisa, a obra resulta em um grande arquivo – sem interatividade, uma pena – onde personagens como Muammar Kaddafi e Fidel Castro discursam utopias, no momento em que soberania territorial e não agressão mútua permeavam as propostas da coalizão.

Na Grimmwelt House, a videoinstalação Lost and Found (2017), da americana radicada em Londres Susan Hiller, apresenta a problemática de documentos e linguagens desaparecidos no mundo. A projeção não difunde imagens. Em vez de uma narrativa roteirizada, ouvem-se vozes de pessoas mortas, coletadas de arquivos. Uma linha verde oscila cada vez que as vozes entrecortadas são interrompidas. Aqui, a tecnologia assume feições simbólicas e associativas, por devolver à vida mundos que foram extintos por culturas hegemônicas e por abrir espaço para as linguagens que esses mundos esmagados descrevem.

Na Grimmwelt House, a videoinstalação Lost and Found (2017), de Susan Hiller (Foto: Liz Eve)

 

O Parque Ballhaus aloja a melhor obra da documenta. O longa-metragem Le Fort des Fous (2017), da argelina Narimane Mari, é uma ficção que parte de gravações deixadas por franceses no Norte da África durante “expedições científicas” do período colonial. Em meio a um universo onírico e surrealizante, o filme mostra o treinamento de adolescentes que se tornarão colonizadores; em um segundo momento, um grupo de jovens nômades tenta formar uma sociedade utópica que questiona o papel do imperialismo. Desenvolvido em três atos, seu imaginário remonta ao de uma ópera. Estrutura elíptica e roteiro desconstruído propiciam uma narrativa histórica que enfatiza a dimensão poética e fantástica no convívio dos personagens. O caráter epopeico conferido à obra é intencional, desde a construção dos episódios que lembram as séries televisivas até a locação, cuja beleza e amplitude geográfica privilegiam o desenvolvimento cênico.

Rumos da arte
As obras comentadas representam os rumos que a arte tem tomado há mais de uma década: atuação em grupos e coletivos, alusão a questões políticas e comunitárias, valorização de culturas e documentos em desaparecimento, recusa à hegemonia cultural, ecologia versus capitalismo, reverberação do surrealismo como último estertor das vanguardas históricas, memória das guerras, negação dos rumos do mundo atual.

No campo da linguagem, parece que meios como a pintura, a escultura, o desenho e objetos manufaturados sofrem com a pujança da performance e da dança, da sonoridade, do vídeo e do filme. Se é a linguagem que nos define, aí temos mudanças sutis: operações com narrativas desconstruídas tomam o lugar de roteiros lineares. A eliminação de um referente em cena ocorre em razão da abertura de espaços imaginários, que ativam processos de subjetivação no receptor. Hibridação dos meios e referência às séries de tevê, inclusão do gênero operístico e vozes de depoimentos aparecem como foco central dos roteiros e da atividade dramatúrgica. Em pauta a coleta de materiais de arquivos visuais e sonoros, ainda que a interatividade não seja disponibilizada ao espectador.

No Parque Ballhaus, o longa-metragem Le Fort des Fous (2017), de Narimane Mari (Foto: Eide Feldon)

 

A ausência de obras de ruptura no terreno das artes é um fato. Talvez porque agora não seja tempo de romper, mas de informar a pletora de mundos e linguagens que nos rodeiam e pelos quais passamos ao léu. Porque a ruptura era, por excelência, o mito das vanguardas e já vão longe as utopias que as impulsionaram. A linguagem do mundo ocidental está cansada; muda paulatinamente ao ritmo das commodities, mas sem romper.

Aqueles que já se sentiram transformados diante de uma obra conhecem a delícia da experiência e acreditam no poder de transformação da arte. Vale indagar se isso ainda é possível hoje. A documenta de Kassel é uma lenda que constelou o mito das vanguardas, como afirmou Enrique Vila-Matas em Não Há Lugar Para a Lógica em Kassel (2015). Só não vale a melancolia. Mais vale lembrar que, no dizer de Jacques Ranciére, em The Emancipated Spectator, “a melancolia alimenta a sua própria impotência, num mundo no qual a interpretação crítica do sistema se tornou um elemento do próprio sistema”.

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