Linguagens reinventadas

Paula Alzugaray

Publicado em: 24/10/2011

Categoria: Editorial, seLecT#02

seLecT #02 elege o portunhol como signo das hibridações, como celebração da mistura, da colagem, das multilínguas, das reinvenções, dos diálogos. 

Cuadro1

Faz quase cem anos que Xul Solar inventou o neocriollo, ou criol, idioma que tem por base o espanhol e o português, mas que incorpora também o inglês, o francês, o alemão, o latim e o grego. Emblema utópico da unificação dos povos do mundo – a partir de bases latinas –, o neocriollo era, mais que uma parábola da modernidade, uma atitude visionária que anunciava o que estava por vir. Um dia, as crianças poderiam inventar novas linguagens, com regras próprias, quando trocassem mensagens de texto pelo celular ou entrassem em chats na internet. 

O criol de Xul Solar – e, por que não, também os jogos de linguagem de Borges, Rosa, Augusto e Haroldo de Campos – vem desaguar no portunhol selvagem de Douglas Diegues, e na lengua izquierda de Bernardo Oyarzún. O idioma de Oyarzún, artista chileno contemplado no portfólio desta segunda edição de seLecT, nasce da articulação de línguas nativas americanas e europeias vinculadas com a colonização da América. “É uma forma de contar a história da América por meio do choque de línguas, cujo resultado conhecido para as nativas é a atrofia de seu pensamento e fala”, diz o artista para a jornalista Juliana Monachesi.

seLecT #02 elege o portunhol como signo das hibridações, como celebração da mistura, da colagem, das multilínguas, das reinvenções, dos diálogos. Celebramos também os viajantes que, afinal, são os grandes responsáveis pela relativização de nossas certezas. Isso conta a reportagem “Artistas viajantes abrem trilhas”, de Angélica de Moraes. Celebramos os roteiros do Sul e a mais longa linha de ônibus da América do Sul: SP-Lima, em 5.917 quilômetros, ao som de tantos idiomas amazônicos quanto o tupi-guarani, o mbyá, o kaiowá, o pai tavytera, o chiripá, o omagua, o ñengatú, o muinane, o miraña etc. etc.

Si, en seLecT habla-se portunhol, guaranhol, lengua izquierda e variações. O Brasil reinventa o portunhol em cada quilômetro de sua fronteira, assim como a América reinventou o spanglish, quando o furacão Irene passou por NYC, em agosto. No dia seguinte ao pronunciamento do prefeito Mike Bloomberg em broken espanhol, o Twitter mostrou a popularidade absoluta do “spãnish”. O então recém-criado domínio @ElBloombito conquistou 15 mil seguidores em três dias. No fechamento desta edição, em 16 de setembro, já tinha chegado a 22.621. Comprovando a força da hibridação, o @ElBloombito foi considerado pelo The New York Observer “the best thing about hurricane Irene”.

Paula Alzugaray

Diretora de Redação

P S. Contam lendas da internet que a última sexta-feira de outubro é o portunhol day. Uni-vos!

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