Lisboa em foco

ARCOLisboa movimenta a cidade no fim de semana, atraindo visitantes europeus para a feira e outras mostras

Monica Tinoco

Publicado em: 23/05/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Mercado de Arte

Sofrimento, Desespero e Ascese (1997), de Julião Sarmento (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

O Museu Coleção Berardo, localizado no Centro Cultural Belém, além de abrigar um conjunto de obras notáveis da produção ocidental da arte do século 20 – do início do modernismo, passando pelas primeiras vanguardas, até o minimalismo – apresenta a primeira exposição retrospectiva, após a sua morte, em maio de 2021, do conceituado artista português Julião Sarmento. Com curadoria da francesa Catherine David (primeira mulher a fazer a curadoria da Documenta de Kassel, em 1997), a mostra, intitulada Abstrato, Branco, Tóxico e Volátil, reúne um conjunto de obras que marcaram a carreira do artista, iniciada nos anos 1970 e consagrada em suas participações na Documenta de Kassel de 1982 e 1987, e a representação nacional de Portugal na 46ª Bienal de Veneza, em 1997.

  • Le Suplice, de Constantin Brancusi (1907)(Foto: Beto Sanovicz/seLecT)
  • Painting of light (2013), de Hans-Peter Feldmann (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)
  • MaID VII, Philadelphia (série Somnyama Ngonyama) (2018), de Zanele Muholi (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

Nas proximidades do Museu Berardo, do outro lado da linha de comboio, às margens do rio Tejo, o MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia) – no edifício que abrigava anteriormente a usina de eletricidade de Lisboa – recebe obras da Coleção Antoine de Galbert. Intitulada Traverser la Nuit (Atravessar a Noite, em tradução livre) e com curadoria de Noelig Le Roux, a seleção de 120 trabalhos de nomes importantes de diversos momentos da história da arte do século 20 e 21, passando por Brancusi, Hans-Peter Feldmann, até Zanele Muholi, sugere a ideia de um percurso noturno, do crepúsculo até o amanhecer, propondo ao visitante a expansão do imaginário, do sonho e das visões de futuro.

Campo Rosa, de Giorgio Griffa (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

IRANIANOS ABORDAM A LIBERDADE
De volta à Cordoaria Nacional, ao longo do extenso corredor de estandes que se estendem na seção Programa Geral da ARCOLisboa, chama a atenção a sofisticada seleção de pinturas e desenhos de Claude Viallat, em diálogo com as pinturas de Giorgio Griffa (artista italiano que participou da última Bienal de São Paulo), apresentados pela galeria Rafael Pérez Hernando, de Madrid.

Claude Viallat (2021)(Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

No setor Opening, a Delgosha Gallery, de Teerã, propõe um diálogo entre a artista Niaz Babatabar e Mostafá Sarabi, dois jovens artistas iranianos. Por meio da representação da natureza, os pintores procuram escapar da rigidez dos costumes e falar de liberdade.

  • Niaz Babatabar (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)
  • Mostafá Sarabi (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

Epheas Maposa, jovem artista do Zimbabwe, representado pela galeria francesa 31Project, é uma das grandes novidades apresentadas no setor África em Foco. Com apenas 27 anos, autodidata, Maposa começou a carreira desenhando nas ruas da cidade de Harare, capital do país, onde realizou sua primeira exposição individual, na National Gallery of Zimbabwe, em 2014. Os trabalhos apresentam uma figuração bem delineada, meio humana, meio animal, com cromaticidade forte e influências surrealistas e barrocas.

Epheas Maposa (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

IDENTIDADES AFRICANAS
Os corredores da ARCOLisboa permaneceram cheios durante todo o fim de semana. Muitas galerias do setor Programa Geral e África em Foco tiveram todas as obras vendidas. O setor Opening seguiu despertando a curiosidade dos visitantes, e os galeristas ficaram satisfeitos com os resultados.

O núcleo África em Foco foi destaque em termos de estandes mais concorridos. O da Smac Gallery, por exemplo, chamou a atenção do público com seu projeto solo, uma instalação de pequenas pinturas coloridas, agrupadas duas a duas. Intitulada Mix & Match Diptychs (2022), a obra é da artista, nascida no México e que vive na África do Sul, Georgina Gratrix. Cada par de pinturas apresenta a representação de um pássaro ou ave de espécies que habitam o continente africano, ao lado de um texto ou frase curta que exalta alguma se suas características ou qualidades. Os pares podem ser misturados e combinados de acordo com a escolha do comprador.

  • Mix & Match Diptychs (2022), de Georgina Gratrix (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)
  • Mix & Match Diptychs (2022), de Georgina Gratrix (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)
  • Mix & Match Diptychs (2022), de Georgina Gratrix (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

Georgina Maxim, representada pela galeria francesa 31Project, é professora e fundadora de um espaço cultural que promove exposições e programas de residências em Harare, Zimbabwe. Sua prática artística está focada na desconstrução e recomposição, a partir de tecidos e roupas de segunda mão que ela recorta, costura e borda. A artista apresentou uma instalação na 58ª Bienal de Veneza, no pavilhão do seu país, e realizou uma residência no Instituto Goethe de Salvador.

  • Georgina Maxim (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)
  • Georgina Maxim (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

O pintor e gravador Aviwe Plaatjie, de Cabo Verde, se descreve como observador da sua comunidade e do cotidiano. Suas pinturas focam os detalhes e a intimidade, em representações de cenas domésticas em que as referências da globalização são enfatizadas.

Aviwe Plaatjie (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

Os trabalhos da angolana Keyezua, selecionados pela galeria portuguesa Movart, fazem uma homenagem ao cabelo negro como representação de sua identidade, buscando quebrar os estigmas e preconceitos ainda existentes na sociedade portuguesa. 

Keyezua (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

A mesma galeria traz também algumas imagens da série Dispidida, do artista cabo-verdiano Fidel Évora. O artista tem forte influência da arte urbana lisboeta, e a série fala sobre as suas emoções quando do ataque a Alcindo Monteiro, um jovem de Cabo Verde brutalmente assassinado no Bairro Alto em Lisboa por um grupo neonazista em 1995.

Dispidida, de Fidel Évora (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

BALANÇO GERAL
Os debates, palestras e conversas promovidos durante o período da feira tiveram pouca divulgação e aconteceram em espaços contíguos ao espaço principal de exposições, com acesso gratuito, porém com problemas de sinalização. Não havia nenhuma placa que orientasse o visitante ou despertasse nele o interesse em participar das atividades. Muitas conversas foram agendadas para o mesmo horário, em locais diferentes, fato que contribuiu para diminuir o público.

No programa Millennium Art Talks, a curadora portuguesa Filipa Oliveira conduziu uma conversa com os curadores Luís Silva, Margarida Mendes e Bernardo Mosqueira. No setor Artslibris, dedicado às edições e aos livros de artista, a brasileira Desapê coordenou um diálogo entre os autores Theodore Ereira Guyer, Renata Siqueira Bueno, Ivinne Villamil e Ivar Rocha.

Filipa Oliveira, Luís Silva, Margarida Mendes e Bernardo Mosqueira (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

Apesar dos problemas com a sinalização, o espaço da feira ficou bastante agradável, a indicação de limitação do número de artistas por metro quadrado sugerido pela organização do evento tornou a visita mais focada, o número reduzido de expositores (em relação às outras feiras europeias) atraiu os colecionadores, que se sentiram mais à vontade para conhecer as poéticas individuais de cada artista. Todos estes fatores garantiram à ARCOLisboa personalidade própria, como uma feira de charme e também de inovação, atraindo o mercado e tornando os negócios mais efetivos.

Com balanço geral muito positivo, os participantes demonstraram entusiasmo em regressar para a próxima edição da ARCOLisboa, em 2023.

Vista geral da feira (Foto: Beto Sanovicz/seLecT)

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