Literatura expandida: uma possibilidade?

Uma internet refundada com a pandemia propõe diferentes formas de comportamento com a produção literária

Marcela Vieira

N° Edição: 48

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: A Revista, Destaque

Frame do vídeo Marcha dos 100 Mil (2020), de André Vallias (Foto: Cortesia do artista)

A ciência transforma suas linguagens, a poesia inventa suas línguas. Tanto em uma quanto na outra, não é o caso de explorar, mas de avançar em direção à totalidade, ao irrealizável; não é necessário dizer onde ambas se encontrarão – nem se elas precisam desse encontro.
Édouard Glissant, Poéticas da Relação

Tudo Está Dito (1974), de Augusto de Campos (Foto: Cortesia do artista)

Talvez haja uma dificuldade hoje, em agosto de 2020, quando convivemos com a pandemia da Covid-19, para se imaginarem alternativas ao isolamento urbano que não estejam diretamente associadas à internet. Ambos os fenômenos, pandemia e internet, parecem ter se adaptado um ao outro, tornando instantâneos noticiários e acontecimentos ao redor do mundo e instaurando mudanças não apenas provisórias, mas permanentes, no que concerne aos modos de leitura, escrita e comunicação.

 Afeita às adversidades históricas e por natureza sensível ao seu entorno, a produção literária sempre encontrou os próprios meios de responder à sua época. A pandemia, se não intercede se impondo como temática a um poeta ou prosador, ameaça consolidar sua presença indiretamente, com reações de angústia e desconforto desencadeadas pela noção de finitude. Por outro lado, a concentração para a leitura e para a escrita mostra-se cada vez mais intermitente, desafiada a disputar com os atrativos das telas dos dispositivos, onde tudo – cultura, informação e afetos – tende a convergir de forma aparentemente naturalizada. Durante os próximos anos, acompanharemos as reações da prosa e da poesia à atualidade, e nos caberá julgar a produção literária de um período ou, quem sabe, de uma geração.

Nesse ínterim, as atualizações da tecnologia operam-se em lances vertiginosos em direção a uma totalidade que de certo modo ecoa teorias já defendidas, por exemplo, por Walter Benjamin em seus célebres A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica e O Narrador. Se muitas das questões de Benjamin nesses textos foram apontadas como marcos decisivos e incontornáveis para as vanguardas artísticas do século XX, algo que não passou despercebido à sua própria escrita foi a possibilidade de hipertexto, experimentada em seu Passagens, onde tudo poderia “caber” em uma mesma página: texto, imagem, citação. Quem bem observa essa noção “premonitória” na obra Benjamin é a crítica literária Marjorie Perloff ainda em 2013, quando a internet, muito diferente de como a conhecemos em 2020, já se firmava como local comum de criação, elaboração, exibição e distribuição de textos.

Noções de espaço, tempo cronológico e psicológico foram exploradas e praticamente refundadas por autores modernos, inspirando processos irreversíveis na prosa posterior a Virginia Woolf, James Joyce, Willian Faulkner e Samuel Beckett, apenas para citar alguns. Hoje, em vez de se verem ameaçadas pela profusão midiática, tanto a iniciativa literária quanto a imagem e sua reprodutibilidade estão passíveis a novos contornos e ambientes, muitas vezes compartilhando a mesma rede de circulação. Multiplicaram-se, com isso, as possibilidades de técnicas de escrita e, com ela, a capacidade de leitura. Reformulou-se o papel do narrador, a quem não mais cabe executar a faculdade de “intercambiar experiências”, pois a experiência e a forma de contá-la estão sendo modificadas pela simultaneidade sem limites proporcionada por computadores e celulares.

As transformações que aqui nos interessam, no entanto, estão em pleno curso ou por vir, pois se relacionam diretamente com uma fragmentação ainda mais profunda da temporalidade e da espacialidade que já vinham sendo implementadas com a tecnologia ao longo de todo este século, mas que agora se encontram alteradas com a adaptação de praticamente todas as atividades da vida para as telas. Existem nuances e diferentes formas de comportamento da produção literária na internet atual, e quando dizemos atual nos referimos a esta internet de certo modo refundada com a pandemia. 

O que temos visto é uma nova leva de escritores que encontraram em redes sociais um contexto estimulante para a circulação das próprias produções ou referências por meio de canais a priori destinados à reprodução da imagem. As editoras, por sua vez, veem-se impelidas a apostar no formato digital como alternativa às vendas; também aproveitam para reativar sites, convidando autores para escreverem em blogs, e recorrem a lives de entrevistas com seus autores, onde, em geral, se fala sobre o texto. Explora-se, enfim, um dos benefícios impulsionados pelo virtual e que correspondem ao alcance ilimitado das fronteiras geográficas.

Mas essas são iniciativas que enfatizam uma estrutura tradicional interessada no contraste entre resultado final e procedimento, em relações bem definidas entre leitor e autor. Não que nossa intenção seja desprestigiar a importância do livro, este que nos serve de âncora, instrução e companhia em momentos diversos, entre eles este de grande vulnerabilidade que atravessamos. Mas tratar o texto como imagem, postá-lo, divulgá-lo, falar sobre ele, pode ainda ser insuficiente visto o que poderia ser explorado da potência plástica da língua. É, pois, curioso que tão raras inciativas se valham da oportunidade do advento virtual, não enquanto temática ou meio de difusão, mas apropriando-se de ferramentas da tecnologia que permitam levar a cabo, por exemplo, aparatos poéticos mallarmaicos ou práticas concretistas deles derivados, como as dos irmãos Campos e Décio Pignattari, todos interessados em experimentações dos recursos poéticos em seus variados níveis, desde as escolhas tipográficas até a invenção de um novo espaço na página tão física, limitada e definida.

Algumas iniciativas, contudo, valem ser mencionadas por estarem saindo do livro para experimentar alhures competências ainda pouco exploradas entre texto e internet. Em termos de produção nacional, à qual aqui nos restringimos, é interessante observar o percurso da poeta Marília Garcia, e específicas publicações suas, como Paris Não Tem Centro, em que ela explora uma elasticidade da linguagem que parece querer responder, ou melhor, investigar, as prováveis relações entre palavra escrita e outros estímulos visuais, fundando aproximações que compõem seu estilo poético tão particular. Também tradutora e editora, suas escolhas denotam referências que muito dizem sobre sua própria prática poética, como a exemplar tradução que apresentou para o livro Traffic, de Kenneth Goldsmith, de 2007, onde o autor “simplesmente” transcreve o que é emitido ao longo de 24 horas de uma rádio em Nova York. Por sua vez, Marília Garcia e Leonardo Gandolffi, tradutores de Trânsito para a editora Luna Parque, repetem a iniciativa do autor e registram parte da emissão de uma rádio de São Paulo. A façanha dessa tradução não cansa de surpreender, pois, ao abrir mão de traduzir o original ao pé da letra, ambos os tradutores parecem não somente ter compreendido o gesto de Goldsmith, que também é um gesto duchampiano, mas se juntado a ele para uma composição semelhante de reapropriação não só da matéria, mas também do ato narrativo. A referência a Kenneth Goldsmith, diga-se de passagem, não pode parecer fortuita no que toca esse assunto a que nos propomos.

Em março de 2019, Marília Garcia lê em público, no IMS, um poema que foi publicado na edição número 31 da revista Serrote. O texto aborda explanações da palavra “eco” e, para a leitura, Marília preparou uma série de imagens que permitiam desenvolver o eixo temático de forma a complementá-lo, criando uma espécie de sobrevida do texto, em oportunidade que só poderia ser realizada “ao vivo” e “além” da página. Recentemente, Marília reapresentou, em leitura pelo zoom, um texto seu a convite do programa de residência artística para o Pivô, então coordenado pelas curadoras do site de arte aarea. O formato, que buscava interseccionar imagem e texto numa dinâmica narrativa e de edição de imagens controlada pela própria escritora, foi chamado de “leitura performática”, e se adaptou perfeitamente ao ambiente artístico e também ao virtual, contribuindo com novidades estéticas em ambos os contextos. Consultada sobre sua produção durante a pandemia, Marília mencionou um poema recente publicado no jornal O Globo. Para elaborá-lo, Marília valeu-se da participação de amigos, aos quais pediu para enviarem, via Whatsapp, imagens pessoais que serviram como mote afetivo propulsor do poema.

Nesse sentido, neste caso migrando da estaticidade física da página, o escritor João Paulo Cuenca parece ousar, embrenhando-se em meandros virtuais condizentes aos nossos tempos. “Mas hoje não há mais longe. Nada é longe. Não há mais fora”, diz em um dos versos em Diário da Quarentena, exibido no site do IMS, em programação prevista para exibir trabalhos produzidos no período da quarentena para as telas. Nesses vídeos, Cuenca diagrama e manipula texto som e imagem, ora refletindo sobre sensações derivadas da clausura desses primeiros meses de pandemia, ora resgatando as memórias de um tempo que já se revela remoto. Forma e conteúdo, neste caso, atuam juntos para explorar recursos aptos a serem continuamente redescobertos, num caminho que, ao que tudo indica, parece não se esgotar. 

 Em sua mais nova empreitada, Cuenca colocou no ar um site, onde o leitor pode acompanhar o processo de criação de seu novo livro, Nada É Mais Antigo Que o Passado Recente, que já traz no título a impressão dessa temporalidade derivada do isolamento e das redes. Com um plano de assinatura mensal oferecido no site, o leitor dispõe-se a receber diariamente, por WhatsApp, mensagens, links e fotografias compartilhadas pelo autor. Apropriando-se desse canal de comunicação e fazendo uso dos próprios recursos responsáveis por também concentrar as possibilidades de dispersão, Cuenca parece estar jogando com as armas atuais e, consequentemente, arriscando a própria narrativa ao assumir a aventura por um processo ruidoso que envolve excessiva troca social. 

André Vallias, poeta e pesquisador das mídias digitais, uma das maiores referências a respeito do assunto no Brasil, tem no ar, desde o início dos anos 2000, um site que merece a visita pelo alto nível do material do qual é repositório, armazenando poesias autorais e de outros poetas, mas também indicando outras produções de Vallias enquanto designer, poeta, e editor de iniciativas digitais, vide a pioneira Revista Errática. Perguntado sobre sua produção atual, o poeta indica o material que tem disponibilizado em seu canal Vimeo, com felizes incursões pelo experimentalismo da edição audiovisual. Em conversa por telefone, Vallias, que desde os anos 1990 faz uso dos recursos digitais disponibilizados à época, aponta para a drástica mudança da internet nesses 30 anos, como, por exemplo, o modo de navegação. Hoje, a descoberta de novos sites, blogs, páginas pessoais ou de notícias, dificilmente acontece à revelia da mediação de redes sociais. 

Diante desse fato, não podemos perder de vista uma idiossincrasia cada vez mais flagrante do uso das redes: capacitada a romper fronteiras territoriais (60% da população do mundo está conectada às redes, conforme pesquisa atualizada da ONU), a internet tende a ser cooptada por espécies de “feudos” representados por grandes conglomerados. Como sabemos, mídias sociais, tais como Facebook, Twitter, Instagram YouTube etc., são capazes de definir tendências e ditar comportamentos, pondo em contradição a suposta inesgotabilidade de recursos da internet. Expostas a esta corrida movida a interesses particulares e privados, teme-se que certas línguas, encerradas em seus territórios linguísticos, estejam fadadas ao desaparecimento, real ou simbólico, uma vez que a totalidade babélica talvez se confirme como um empreendimento quimérico também nas redes. O assunto é amplo e levanta discussões políticas, econômicas e sociais que retomam posicionamentos de principal importância e que caberiam ser tratados em outro espaço dedicado ao tema. Por ora, ao que aqui nos propomos, permanecemos com a curiosidade: se tanto a ciência quanto a poesia, como defende Édouard Glissant em citação aqui retomada como epígrafe, estão aptas a eterna reinvenção de seus recursos – e, portanto, de sua própria definição –, como pode se dar o encontro entre ambas? Ele precisa de fato ocorrer? A esta pergunta cabe aos poetas responderem. Enquanto isso, aguardamos ansiosos pelas tentativas.

1 Walter Benjamin, Obras Escolhidas: Magia, técnica, arte e política, São Paulo, Brasiliense, 1985.
2 Belo Horizonte, UFMG, 2006.
3
O Gênio Não Original, Belo Horizonte, UFMG, 2013.
4
Walter Benjamin, Obras Escolhidas: Magia, técnica, arte e política, op. cit., p. 198.}
5
Kenneth Goldsmith é fundador da noção da escrita não criativa, que comprova a dissolvição da figura autoral a partir de experimentos como, por exemplo, o ato de copiar-colar proporcionados pelo digital. Ver: Uncreative Writing, Nova York, Columbia University Press, 2011.

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