Liza Essers: “Ativar a rede para descentralizar o mercado”

Galerista sul-africana defende plataforma on-line colaborativa para romper desequilíbrio histórico na estrutura do mundo da arte e aumentar consciência sobre o Sul Global

Publicado em: 09/03/2021

Categoria: Destaque, Entrevista

Liza Essers (Foto: Cortesia Goodman Gallery / Anthea Pokroy)

A sul-africana Liza Essers, diretora da Goodman Gallery, com filiais em Johanesburgo e Cape Town, tem uma história de pioneirismo. Em 2005, aos 31 anos, foi co-produtora executiva do longa-metragem Tsotsi, dirigido por Gavin Hood, o primeiro filme africano a ganhar um Oscar (Melhor Filme Estrangeiro, 2006). Aos 34, comprou a Goodman Gallery, que estava entre as duas mais poderosas galerias da África do Sul, fundada em 1966 por uma galerista mulher, e desde então uma plataforma para exibição de artistas negros, mesmo sob o Apartheid.

Como jovem galerista, Essers herdou uma formação de artistas sul-africanos consagrados, como William Kentridge, e assumiu como meta corrigir a escassez de mulheres no portfólio da Goodman, trazendo para a linha de frente artistas africanas e internacionais como Grada Kilomba, Kapwani Kiwanga, Shirin Neshat e Candice Breitz. O espírito colaborativo que imprimiu à gestão deu vazão a parcerias institucionais de destaque na cena local, como a estabelecida com o CCA Lagos (Centre for Contemporary Art Lagos). 

Um ano após o início da pandemia da Covid-19, Liza Essers lança a plataforma SOUTH SOUTH, que se autodefine como uma comunidade on-line, dedicada à arte do Sul Global e sua diáspora. Em entrevista à seLecT, ela conta porque essa iniciativa só foi possível depois que “uma mudança sísmica alterou as percepções das pessoas, não apenas em resposta à pandemia, mas também devido à turbulência política que suscitou uma nova consciência do viés das perspectivas ocidentais”. 

seLecT: Parafraseando a pergunta que deu título a uma das mesas do Think Thank do primeiro evento de vendas da plataforma: a quem isso tudo se destina?

Liza Essers (Cortesia Goodman Gallery e Anthea Pokroy)

Liza Essers: SOUTH SOUTH é holístico em suas ambições. Nosso objetivo é cultivar uma ecologia das artes já rica e dar a ela o apoio e os recursos necessários para ajudá-la a crescer, beneficiando todo o ecossistema artístico de artistas, galerias, curadores, organizações sem fins lucrativos, colecionadores e também para estudantes e a arte educação. Além disso, na tentativa de resolver um desequilíbrio histórico na estrutura do mundo da arte e aumentar a consciência mundial da arte de todo o Sul Global e sua diáspora, SOUTH SOUTH apresenta a colecionadores e públicos um fulcro rico de produção artística que de outra forma não teriam acesso. 

Qual a diferença para uma feira de arte tradicional?
Uma feira de arte, tradicionalmente, é um evento físico de uma semana, enquanto SOUTH SOUTH é algo muito diferente: é uma plataforma durante todo o ano, um fórum para artistas, galerias, colecionadores e curadores se reunirem e um espaço para novos sistemas de valores compartilhados e centrados na comunidade, na colaboração e no intercâmbio. O evento inaugural, SOUTH SOUTH VEZA, um evento de venda híbrida que abrange OVRs (Online viewing rooms) de mais de 50 galerias, com um leilão ao vivo, uma exposição com curadoria e programas de palestras e filmes, é apenas o primeiro de uma variedade de eventos e iniciativas que irão ativar nossa já forte rede para ajudar a descentralizar o mercado de arte, destacando o trabalho de galerias que operam fora dos centros dominantes. Nenhuma outra plataforma conduzida por pares existe com a mesma profundidade de pesquisa, arquivo, editorial e ambição.

Esta é claramente uma resposta aos tempos em que vivemos. Tal plataforma seria possível em um mundo pré-pandêmico?
Boa pergunta! Eu não acho que teria sido possível conceber SOUTH SOUTH em tal escala em um mundo pré-pandêmico, quando havia tantas outras distrações e demandas, em termos de viagens, e de tentar manter todas as bolas no ar. Você está absolutamente certa de que SOUTH SOUTH atende a uma necessidade urgente. Antes da pandemia, cerca de 70% da receita de muitas galerias do Sul Global vinha de feiras, e o fato de não poder viajar tornou muitas delas muito vulneráveis. No entanto, de certa forma, a pandemia também aproximou o mundo, tornando a inovação necessária e possível. Com a crise, também há oportunidade. É quando a inovação se torna necessária e possível.

No ano passado, assistiu-se a uma mudança sísmica nas percepções das pessoas, não apenas em resposta à pandemia, mas também devido à turbulência política que suscitou uma nova consciência do viés das perspectivas ocidentais. Possivelmente, mais do que nunca, a conscientização pública está aproximando as pessoas em solidariedade e criou uma oportunidade para uma reavaliação profunda de onde e como a cultura é produzida e valorizada.

Por que você escolheu o formato de leilão para abrir o evento?
O uso da tecnologia de leilão é para inovar o modelo OVR e trazer uma atividade mais direta no mercado on-line para vendas no mercado primário e construir um fórum dinâmico, que é adaptado às necessidades das galerias primárias. Estamos empenhados em aumentar a visibilidade da arte do Sul Global, por isso a venda ao vivo foi aberta a todos e dá acesso a públicos e colecionadores de todo o mundo.

Que balanço que você faz dos resultados de vendas?
O leilão do SOUTH SOUTH é feito sob medida para as necessidades das galerias e artistas, enquanto realiza os fundos tão necessários para os parceiros sem fins lucrativos. Nosso objetivo é criar um evento de vendas que seja responsável pela carreira de um artista – de uma forma que as vendas no mercado primário de casas de leilão não o são – e por isso não publicamos os resultados.

O leilão tem sido uma forma de impulsionar as vendas, criar um ímpeto e recriar a energia de um vernissage em uma feira. Aferimos seu sucesso a partir do número de obras e colecionadores registrados da África, Ásia, Austrália, Europa, América Latina e América do Norte. O resultado foi que as galerias puderam desenvolver novos relacionamentos com os compradores e licitantes alternativos por seu trabalho, e as galerias que normalmente não vendiam nas feiras Frieze e Basel puderam, por meio desse modelo inovador, fazer vendas antes da abertura dos OVRs.

Por que as plataformas de vendas digitais têm potencial para criar um mercado mais inclusivo?
Pelo simples fato de serem mais acessíveis – tanto para expositores como para público. Por exemplo, na VEZA podemos convocar mais de 50 galerias que vieram de mais de 30 cidades de todo o mundo e apoiar galerias mais jovens que não teriam os meios para expor em uma feira tradicional.

Por exemplo?
Muitas das galerias de SOUTH SOUTH já expuseram nas principais feiras. A principal diferença agora é que elas não podem viajar devido a restrições da Covid-19 e ao aumento dos custos associados (e incerteza de voos etc). A Marfa, de Beirute, está lidando com a questão adicional da explosão das docas;  a Housing, de Nova York, está focada na ajuda mútua e no apoio a ações de protesto; e OH Gallery, de Dakar, Senegal, é um empreendimento muito novo!

As plataformas de vendas digitais têm potencial para ser mais democráticas geograficamente. Por muito tempo, o Sul Global foi “regionalizado” pelo mercado de arte e pelo mundo da arte. Ao criar uma plataforma on-line que é inovadora e inclusiva, e que é alimentada por colaboração e comunidade, existe finalmente a possibilidade de romper as hierarquias existentes.

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