Loucos, residentes e outros artistas

O paradoxo do nome residência artística: uma reflexão sobre os fluxos e experiências proporcionadas por esse tipo de proposta

Guilherme Gutman
Residência São João, em São José do Vale do Rio Preto, Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

As residências artísticas trazem um paradoxo interessante no próprio nome, e tudo que diz respeito ao nome importa realmente. Um nome próprio, por exemplo, é único porque implica o modo como cada sujeito experimenta as pessoas e ainda o mundo; o nome próprio é aquele que mais te interpela – se, na rua, um desconhecido chama o seu nome, você olha de forma quase obrigatória. De algum modo, sempre diz respeito a você. O nome próprio é um traço estrutural que delineia aquilo que somos.

Uma residência artística, cada uma delas com seu “nome próprio”, também carrega esse elemento delineador do eu ou, ao menos, funciona como uma espécie de cidadela, em cujo porto cada residente pode ancorar. É também um lugar que permite o estabelecimento de laços e o desembarque de trabalhos. Uma residência abre a possibilidade da construção de uma forma de vida, de um “jeito”, de um “cada um” na teia de todos.

Nesse modelo de experiência artística reside-se como quem pousa por tempo breve, até o momento de se deslocar mais uma vez. Residir é “morar por um tempo” – é passagem. Naturalmente, são laços muito importantes, porque estabilizados nessa rede que se forma, porém não são laços de permanência.

Talvez haja uma diferença entre “passar” e “atravessar” a experiência, dependendo da intensidade que cada um obtém na jornada. Passar é como alguém que viaja de trem e, sem sair de seu assento, vê a paisagem pela janela. Já o atravessamento é diferente, ele supõe outra intensidade, outra entrega, supõe que o residente palmilhe o terreno, experimente as pessoas, o lugar, os trabalhos e, quem sabe, saia transformado por aquilo que pôde vivenciar.

Sei contar da experiência na Fazenda São João – uma residência artística proposta pela EAV – Parque Lage, então sob a direção de Lisette Lagnado. Nela mergulhei por uma semana, em um conjunto tão diverso de ações que algo tinha de acontecer; e aconteceu, sob as luzes da soberba hospitalidade de Antônio Sobral.

Ali houve a formação dessa teia de professores/provocadores e de residentes, todos atentos a um fluxo específico das coisas. Estivemos mergulhados em um cotidiano novo, onde o trabalho, as conversas e os pensamentos se amalgamavam naquilo que se vivia. Trabalhou-se muito, mas, agora, já a uma certa distância da experiência, vejo que a troca, que permitiu a constituição da teia, foi o elemento mais poderoso desse encontro. A experiência foi fabulosa porque possibilitou que se pudesse fazer dessa teia uma espécie de trilho, sobre o qual foi possível deslizar.

Contudo, nem sempre é possível permanecer no trilho. Penso, sobretudo, na loucura, cuja experiência, em seu momento de crise, pode ter como imagem um caminho que se desmancha e onde já não se pode mais seguir como antes. Não só porque não há mais caminho, mas também porque o eu – antes compacto – se pulveriza, se estranha e, de modo trágico, permanece em estado de derrisão.

Esse tipo de experiência não é estrangeira à arte. Muito ao contrário, em alguns a arte e a loucura se entrelaçaram de modo dramático e magnífico. No Brasil, temos o exemplo maior de Arthur Bispo do Rosário, mas penso agora em outro louco, negro e nordestino, como Bispo, que também foi parar no Rio de Janeiro, para explodir a sua loucura pela cidade: Manuel Messias.

Messias foi um grande gravador, deixou enormes xilogravuras, nas quais, cavando os seus delírios e alucinações na madeira, obtinha – pela materialização de sua angústia em obra – algum sentido de estabilização. Messias encontrava na arte uma maneira de seguir absolutamente singular. Não era um trilho estável, era outro suporte, mas que lhe permitia caminhar de novo. A criação espantosa que nasceu com a loucura não foi sem custos. A vida e a arte fora dos trilhos são radicalidades cruas.

Em uma residência há trilhos. Mas o fluxo que ali se cria faz deles trilhos soltos, capazes de enlaçar a estabilidade de um lugar afim ao disruptivo da criação em arte.

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