Lugar de fala indígena

Índios Huni Kuin se utilizam da escrita, do desenho, da editoração e do audiovisual para transmitir conhecimentos de sua tradição oral

Paula Alzugaray

Publicado em: 16/12/2017

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

Desenho de Menegildo Paulino Kaxinawá Isaka (Foto: Pepe Schettino)

Depois de séculos de lutas pela demarcação e libertação de suas terras do modelo extrativista da seringa e de batalhas inglórias contra as doenças do homem branco, as tribos amazônicas Huni Kui finalmente iniciam uma relação de diálogo construtivo com não-indígenas. A exposição “Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva do Povo Huni Kui do Rio Jordão”, em cartaz no Itaú Cultural, é o resultado de um trabalho colaborativo entre indígenas, a editora Anna Dantes e o artista Ernesto Neto.

O projeto, de autoria de pajés Huni Kuin, foi contemplado pelo edital Rumos 2013-2014, e é composto por um livro distribuído nas escolas indígenas, um filme, uma exposição e a construção de uma Kupixawa-escola (maloca) na aldeia. A iniciativa surgiu da necessidade de documentar o conhecimento Huni Kuin a respeito do cultivo e uso de plantas medicinais em parques que eles mantém na floresta. Nestes parques, os pajés ensinam a medicina indígena para seus filhos, netos e parentes. Em um deles, o Pajé Agostinho Manduca Mateus Ika Muru (1944-2011) criou um centro de memória e informação dos conhecimentos de seus antepassados sobre variedades de espécies botânicas, pescaria, caça, etc. “Antes do contato com os brancos, nós tínhamos nossas doenças próprias”, diz o pajé em um vídeo documental produzido na aldeia São Joaquim, no rio Jordão. “Agora nós estamos começando a dar valor ao nosso conhecimento e no futuro vamos fazer um laboratório indígena”.

Desenho do Pajé Lauro Sales Iasã, da Aldeia Bari (Foto: Divulgação)

 

A exposição se organiza como um livro aberto. Apresenta páginas de cadernos que foram distribuídos nas 35 aldeias dos rios Jordão e Tarauacá, no Acre, e registram as pesquisas com plantas e rituais de cura desenvolvidas ao longo dos últimos 4 anos. Apresenta ainda duas salas de vídeo e uma sala ritualística com um pintura de jibóia no chão sobre a qual estão 35 bancos, um para cada aldeia dos rios Jordão e Tarauacá. Ao redor do círculo, 13 pinturas representam os mitos Huni Kuin.

Para os povos da floresta, o projeto representa uma importante fase de comunicação dos conhecimentos resgatados de sua tradição oral. Para o público da arte contemporânea, uma instrutiva oportunidade de conhecer um pouco mais da cultura ancestral dos povos brasileiros, que vem servindo de fonte para o trabalho do escultor carioca Ernesto Neto. Cabe lembrar que os Huni Kuin foram conclamados a participar do trabalho que Neto apresentou na 57ª Bienal de Veneza.

  • Menegildo Paulino Kaxinawa Isaka e Shane Huni Kuin pintam painel da exposição durante processo de montagem (Foto: André Seiti)
  • Yube Inu Dua Buse/História do Cipó, pintura de Tatulino Macário Kaxinawá Ixã, da Aldeia Flor da Mata (Foto: Pepe Schettino)

 

Para o Itaú Cultural, a exposição “Una Shubu Hiwea” é um momento de “troca de pele”. Se a tradução da floresta virgem e da Samaúma, a árvore sagrada dos Huni Kuin, era até então exclusividade do olhar estrangeiro dos naturalistas europeus no século 19 – reunidos na coleção Brasiliana do Itaú –, hoje a pena, o lápis, o papel e a responsabilidade dessa representação são passados, por direito, para seus habitantes naturais, que falam em sua língua nativa.

Serviço
Una Shubu Hiwea – Livro Escola Viva do Povo Huni Kuin do Rio Jordão
Até 13/2/2018
Itaú Cultural
Av. Paulista, 149
itaucultural.org.br

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