Lugar de fala

Em debate, a legitimidade de artistas para tratar de temas e assuntos que não lhes pertencem

Luana Fortes
Still do filme Terremoto Santo (2017) da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (Foto: Divulgação)

Podemos falar sobre tudo ou somente sobre o que nos é permitido falar? Esta é uma das perguntas que a pesquisadora Djamila Ribeiro faz em seu livro O Que É Lugar de Fala?, lançado pela Editora Letramento no fim de 2017. Derivada de discussões feministas, a expressão “lugar de fala” busca questionar a legitimidade que é conferida a grupos localizados no poder e romper com o regime de autorizações vigentes. O questionamento faz-se necessário, pois não existe equilíbrio entre a autoridade atribuída, por exemplo, a homens brancos cis e mulheres transexuais negras.

Indagar se um homem pode falar sobre feminismo causa dissenso. Alguns dizem que o importante é defender o feminismo, independentemente de quem o defende. Outros (e outras) acham que nenhum homem está em boa posição para discorrer sobre o tema. Ele pode teorizar sobre o assunto, mas não representará a mulher. “Há pessoas que dizem que o importante é a causa, ou uma possível ‘voz de ninguém’ como se não fôssemos corporificados, marcados ou deslegitimados pela norma colonizadora. Mas, comumente, só fala na voz de ninguém quem sempre teve voz e nunca precisou reivindicar sua humanidade”, escreve Ribeiro.

Trazendo o debate para a esfera da arte, pode um artista falar sobre tudo? A resposta talvez esteja em metodologias. Para efeito de transparência, é necessário deixar claro o lugar de onde se fala. Um artigo jornalístico também não deve ser poupado da discussão, por isso esclareço de onde falo eu. Sou mulher, branca, cis, lésbica, formada em universidade particular, embora essa intersecionalidade não determine inteiramente meu lugar de fala. Quando uma pessoa fala sobre um contexto ao qual não pertence, ela escapa de seu lugar de fala.

  • Fotografia da série Maldicidade, (1970-2010) de Miguel Rio Branco (Foto: Divulgação)
  • Fotografia da série Maldicidade, (1970-2010) de Miguel Rio Branco (Foto: Divulgação)
  • Fotografia da série Maldicidade, (1970-2010) de Miguel Rio Branco (Foto: Divulgação)

Agenciar a si mesmo
A produção de Miguel Rio Branco é terreno fértil para a reflexão. O artista, filho de diplomata brasileiro, nascido na Espanha, apontou sua câmera para o bairro Maciel, em Salvador, no fim dos anos 1970, e registrou o dia a dia de prostitutas da região durante seis meses. O trabalho tem sido exibido com frequência. Além de estar exposto permanentemente na galeria do artista em Inhotim, foi revisitado na mostra Nada Levarei Qundo Morrer, no Masp, em 2017. “Acho que o trabalho é meio atemporal. Você pode encontrar lugares no mundo com situações parecidas até hoje”, diz Rio Branco à seLecT.

O artista posiciona-se criticamente diante de situações que julga “decadentes” e muitas vezes registra pessoas em contextos diferentes do seu. No entanto, a partir de mecanismos de edição, fusão e justaposição de imagens, seus trabalhos mixam lugares específicos para aterrissar em situações gerais de um mundo globalizado. “O trabalho do Miguel não atua na esfera da denúncia no sentido clássico da fotografia documental humanista, que tende a denunciar a violência ou a precariedade de um endereço específico”, afirma para a seLecT Paulo Miyada, curador de recente individual do artista no Oi Futuro, no Rio de Janeiro.

No caso de Maciel, houve uma negociação entre o artista e as pessoas retratadas. Elas permitiam que fossem ouvidas, filmadas e fotografadas, e recebiam retratos fotográficos em troca. O trabalho deixa claro que não é possível desconsiderar a capacidade de elas falarem por si mesmas. Enquanto na série existem diversos signos de destruição e morte, a contraposição é sempre feita pela presença vívida de suas personagens. “O que tem de vivo no trabalho dele são sempre as pessoas. De um jeito meio bruto, meio incontrolado. Às vezes violento, às vezes ameaçador, às vezes chocante”, diz Miyada.

  • Still do filme Terremoto Santo (2017) da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (Foto: Divulgação)
  • Still do filme Terremoto Santo (2017) da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (Foto: Divulgação)
  • Still do filme Terremoto Santo (2017) da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (Foto: Divulgação)

Trabalhando com outros
A dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca foi acusada de não ser transparente com as pessoas que participam do filme Terremoto Santo (2017), exibido pela primeira vez na exposição Corpo a Corpo, na abertura do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, e logo após no festival Janela Internacional de Cinema do Recife. O trabalho mostra cantores de música gospel da Zona da Mata de Pernambuco que encenam suas próprias composições em (quase) videoclipes. A obra trata de artistas da igreja evangélica pentecostal Assembleia de Deus. Muitos enxergaram uma chacota aos Levitas (como se denominam os fiéis). No entanto, a intenção dos artistas estava longe de ser essa.

“A gente trabalha com outros, sim. Mas é um outro que queremos conhecer de perto. E a nossa forma de conhecê-lo é entender que ele é artista também”, diz Bárbara Wagner à seLecT. “Ele tem uma expressão estética e política que trata do lugar de onde ele fala e que constrói sua própria representação muito bem”, continua. Por isso, por trás dos trabalhos da dupla existe sempre uma grande equipe de coautores, que faz com que cada filme seja construído com outras pessoas e não sobre elas. “Essas pessoas são sujeito. Elas não são objeto de análise”, ressalta a artista.

Em uma discussão pelo Facebook, os participantes do filme foram convidados para se pronunciar sobre esse assunto. Não houve um comentário que contrariasse o discurso dos artistas. “Em nenhum momento Bárbara mandou fazermos algo que aos nossos olhos estivesse errado. Muito pelo contrário. Ela me respeitou com diferentes maneiras de ser e ganhou meu respeito e carinho”, escreveu Joalysson Anderson, um dos participantes.

  • O trabalho Homens Grávidos (2017), de Anaísa Franco, exibido na exposição Homeostase @ The Wrong, no CCSP, até 31/1/2018 (Foto: Cortesia da Artista)
  • O trabalho Homens Grávidos (2017), de Anaísa Franco, exibido na exposição Homeostase @ The Wrong, no CCSP, até 31/1/2018 (Foto: Cortesia da Artista)

Homens grávidos
No trabalho da artista mineira Anaísa Franco, a voz do outro é parte constituinte de suas obras. Anaísa já realizou dois trabalhos que tratam de gênero, abrigando a história de outras pessoas. O primeiro, Devenir (2013), foi realizado durante residência artística na Cité des Arts, em Paris. Lá, a artista entrou em contato com centenas de pessoas transgênero e convidou-as para gravar depoimentos em um estúdio. Em Devenir, esses relatos vêm acompanhados de um pequeno espelho interativo que modifica a feição da pessoa que o estiver fitando, deixando-a mais “masculina” ou mais “feminina”.

Mais recentemente, Anaísa Franco decidiu abordar histórias de homens transexuais que mantiveram o útero e engravidaram. O projeto Homens Grávidos (2017) consiste em uma escultura feita de madeira que reproduz o corpo de um homem em gestação. Em sua barriga, um vídeo mistura referências da ciência com depoimentos gravados por 12 homens em gestação de diferentes países. A artista entrou em contato com eles pela internet e pediu permissão para usar os vídeos que muitas vezes eles mesmos haviam gravado, diante do ímpeto de contar suas histórias ainda pouco comuns. O que ela fez, portanto, foi escutar e compartilhar esses relatos. O trabalho foi exibido na mostra Homeostase @ The Wrong, no Centro Cultural São Paulo, até o começo deste ano. Dois seguranças do espaço perguntaram curiosos: “Homem grávido? Como assim?! Nos explique”. A artista achou a reação engraçada e conversou com os dois. “Se você não estuda, se você não pesquisa sobre o assunto, se você não quer saber, você não sabe que existe”, diz à seLecT.

Trabalhos como esse encurtam as distâncias entre pessoas de diferentes contextos. Não é pouco num mundo gerido por redes sociais em que iguais têm conversado cada vez mais apenas com seus iguais. 

seLecT expandida: assista aos vídeos de Anaísa Franco em bit.ly/anaisa-franco

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