Machismo no meio artístico

Em entrevista a seLecT, coletivo feminista da Espanha revela a presença do machismo na arte

Ana Abril

Publicado em: 21/06/2016

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Protesto realizado pelos Colectivo ZAS, Colectivo Abertura Vaginal, a campanha ¿Quién coño es? e o coletivo artístico Cluedo - no hay asesino, no Palácio de Velazquez (Foto: Edu Granados)

A inauguração da Switch House, o novo anexo da Tate Modern, em Londres, no dia 17/6 (sexta-feira), esteve acompanhado de protesto feminista, organizado pelos coletivos WHEREISANAMENDIETA e Sisters Uncut. O motivo do ato foi a inclusão do artista minimalista Carl Andre e a exclusão da artista cubana Ana Mendieta no novo espaço.

Como se não bastasse a prevalência de artistas homens na Switch House, assim como no espaço tradicional da Tate Modern, o que por si só já representa uma cultura machista, a história entre Mendieta e Andre é mais complicada e está cercada de polêmica.

Manifestantes se dirigem à Tate Modern (Foto: Charlotte Bell)

Manifestantes se dirigem à Tate Modern (Foto: Charlotte Bell)

Ambos estavam casados há oito meses e moravam juntos no 34º andar de um prédio em Manhattan. No dia 8/9 de 1985, um baque quebrou o silêncio da noite: era o corpo de Ana Mendieta caindo da janela. Momentos antes da tragédia, vizinhos asseguraram ter ouvido gritos em uma discussão e a voz suplicante de Mendieta. A versão de Andre, o único que se encontrava no apartamento com a artista, alega que ela se jogou da janela após a discussão. Inicialmente, o marido de Mendieta foi detido como suspeito de assassinato, mas depois do julgamento, realizado dois anos depois da morte da artista, foi absolvido por falta de provas.

As reivindicações a favor da artista cubana no Tate Modern não são isoladas. Em novembro de 2015, vários coletivos de artistas feministas espanhóis realizaram uma performance de protesto contra a exposição de Andre no Palácio de Velázquez, pertencente ao Museu Reina Sofía. Enquanto visitantes andavam entre as esculturas minimalistas, um grupo de mulheres entrou no espaço e, tirando as jaquetas, mostrou camisas brancas manchadas com sangue. Com o olhar perdido e sem nenhuma fala, as mulheres distribuíram flyers onde se lia “¿Quién coño es Ana Mendieta?” (expressão espanhola que, fazendo referência ao órgão genital feminino, pergunta sobre a identidade da artista). Depois, entoaram uma canção, questionando o lugar de Mendieta nos museus e pedindo esclarecimentos sobre sua morte. No final do ato, as performers foram à entrada do museu e se jogaram no chão, emulando a precipitação ao vazio da artista.

Para falar sobre o machismo na arte, seLecT entrevistou o Colectivo Abertura Vaginal (AV), um dos participantes da performance realizada em Madri. Segundo o coletivo, a indignação com o caso Mendieta é uma representação de outros casos onde “a palavra dos sujeitos masculinos famosos é tida como verdade absoluta, permitindo que eles atuem com impunidade, enquanto as mulheres são desacreditadas com base ao estereótipo de sujeito com ‘instabilidade mental’ ou ‘loucura’, como aconteceu com Ana Mendieta”.

Desde o primeiro momento da morte de Mendieta, o mundo da arte colocou-se em peso ao lado de Andre, defendendo sua inocência. Nesse sentido, a arte também jogou do lado dos homens, ao se voltar contra a própria artista, em favor da descriminalização de Andre.

Ao longo de sua vida, Mendieta produziu obras que abordavam o feminismo, a violência e a morte. Na série Silueta (1973-1980), ela trabalhou a relação entre o corpo feminino e a natureza, usando materiais como barro, areia e até sangue. Essas obras serviram como justificativa das ideias suicidas da artista e de sua fraqueza mental.

Trabalhos da série Silueta, de Ana Mendieta (Foto: Tumblr/Reprodução)

Trabalhos da série Silueta, de Ana Mendieta (Foto: Tumblr/Reprodução)

“O olhar e a subjetividade das obras realizadas por mulheres enriquecem qualquer âmbito artístico e são mais do que necessárias”, defende o Coletivo AV.  Ao ser questionado sobre se os homens não gostam da arte feminina, o coletivo diz que a resposta se encontra mais perto do medo que o homem branco sente de perder ou compartilhar os espaços de poder. Curiosamente, foi outro artista branco norte-americano, Frank Stella, quem desembolsou uma importante quantia de dinheiro para tirar a Andre da prisão, dias depois da morte da sua ex-esposa.

Nas palavras da própria artista cubana, Andre se comparava com o casal formado por Diego Rivera e Frida Kahlo. “Você imagina alguém com um ego maior?”, disse Mendieta para uma amiga, referindo-se ao marido. Diego Rivera é considerado o maior pintor mexicano do século XX, enquanto sua esposa Frida Kahlo, também mexicana, era uma pintora reconhecida internacionalmente por seu talento e ideias feministas. Em declarações à polícia, Andre disse: “Sou um artista muito famoso e ela não era. Talvez isso tenha acabado com ela, e nesse sentido, eu a matei”.

A história de Mendieta é tida como um exemplo do machismo no mundo artístico, mas não é o único. O papel inicial da mulher no mundo da arte foi o de musa, e essa apelação continuou ao longo da história e existiu em todas as áreas. Desde a musa primitiva Calíope até a mais contemporânea Gala Dalí, passando pela cinematográfica Brigitte Bardot. Enquanto isso, o papel do homem é o do gênio: Rafael, Salvador Dalí, Roger Vadim. “O homem branco de classe média-alta e heterossexual é o que sustenta o poder em todos os âmbitos, inclusive o artístico. É ele quem escolhe as obras que são expostas e que determina quem é ou não um gênio, dando legitimidade a certas obras e descartando outras. Aliás, a palavra gênio está vinculada a essa perspectiva puramente masculina”, afirma AV.

A arte, segundo elas, é uma ferramenta para desestabilizar e detectar vazios e abusos que impossibilitam o acesso das mulheres a determinados espaços ou posto de poder.

Já foram realizados protestos na Tate Modern, no Reina Sofía e no Guggenheim de Nova York, organizado pela Women´s Action Coalition (WAC) e pelo coletivo Guerrilla Girls, em 1992. E continuarão acontecendo, garante o grupo: “Não hesitaremos em denunciar com mais ações outras exposições ou eventos. Pode ser reconhecendo e homenageando mulheres artistas ou denunciado figura públicas e instituições que ataquem as mulheres ou questões de sua liberdade”.

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