Mãe Só Há Uma

O mais recente filme de Anna Muylaert destaca-se pela narrativa fragmentada, escolha visual arriscada e uma direção de atores impecável

Ana Abril
Fotograma de Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert (Foto: Divulgação)

A diretora paulistana Anna Muylaert deixou de trabalhar o cotidiano da sociedade brasileira, representada em Que Horas Ela Volta?, para se dirigir à originalidade, principal caraterística de seu novo longa Mãe Só Há Uma. Ela começa no âmbito visual, com planos fechados de câmera na mão, e se reafirma na temática.

O filme é uma livre interpretação do Caso Pedrinho, um adolescente que foi roubado da maternidade por quem ele achava que era sua mãe biológica. A realidade se revela quando a mulher que o criou é presa. A ficção de Muylaert converte Pedrinho em Pierre, um adolescente do século XXI. Ele é um jovem músico andrógino que está experimentando com sua sexualidade e com os limites da concepção tradicional de gênero. Essa experimentação alcança o ponto mais radical quando o rapaz vai viver com sua família biológica. Dessa forma, ele sobe um degrau na pirâmide social, se muda a uma bela casa de classe media alta e começa a ser chamado de Felipe.

O mais interessante do longa é a abordagem de um tema tão atual, como a quebra das fronteiras de gênero. A história, porém, teria sido melhor contada caso as mudanças dos pontos de vista narrativos fossem mais fluidas e interligadas. Outro ponto forte do longa é a variedade temática: adolescência, gênero, sexualidade, normas sociais, perda e amor. Contudo, isso também se converte no calcanhar de Aquiles do filme, pois a multiplicidade de temas provoca quebras na história.

Pierre, como o arquétipo do adolescente rebelde, demonstra sérias dificuldades em se expressar até chegar a uma situação limite e explodir. O personagem interpretado por Naomi Nero reflete dor em cada expressão, fazendo dos silêncios grandes momentos. Matheus Nachtergaele brilha no pequeno papel de pai biológico de Pierre, com uma atuação realista e representativa da figura paterna antiquada. As duas mães do protagonista são interpretadas pela mesma atriz, Danni Defussi. Esse fato não deixa de ser uma curiosidade e um ponto favorável para a visagista do filme, mas não possui a relevância interpretativa esperada. Por último, destaca-se o papel da irmã de Pierre (Lais Dias), que também foi roubada quando bebê, e do irmão biológico (Daniel Botelho), cujas histórias e dramas também têm o potencial de envolver o espectador em algumas partes do filme.

Mãe Só Há Uma foi exibido na Berlinale 2016 e ganhou o prêmio de Melhor filme Queer pelo júri especial da revista alemã Männer. Uma história única, difícil de ser contada, que Anna Muylaert resolve com uma narrativa fragmentada, escolha visual arriscada e uma direção de atores impecável.

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