Maioridade da mulher

Exposição devolve importância histórica a artistas que, em seu tempo, foram estigmatizadas por questões de gênero e poder

Paula Alzugaray

Publicado em: 29/02/2016

Categoria: A Revista, Review

(Foto: Divulgação)

Na literatura de Marcel Proust, as mulheres são retratadas como manipuladoras, ardilosas e perspicazes. Por trás do verniz do recato e da domesticidade, elas foram os obstáculos que o herói teve de superar, as lições que ele teve de aprender. A perdada inocência do protagonista de Em Buscado Tempo Perdido corresponde ao que, na pós-modernidade, o filósofo francês Jean-François Lyotard chamaria de esclarecimento (Aufklärung), citando Kant: a saída da menoridade. Porém, na mesma França e nos mesmos anos em que Proust desvendava convenções de gênero e sexualidade, os pressupostos disseminados socialmente determinavam que as mulheres eram, por natureza, mais sensíveis, dóceis e detalhistas.

No campo da arte, eram tachadas de “amadoras” ou estigmatizadas dentro da noção de “arte feminina”. “Acreditava-se que eram menos capacitadas para a invenção, ou seja, propensas para gêneros menores, como as naturezas-mortas, as pinturas de gênero e, especialmente, as pinturas de flores, e menos capacitadas para as grandes obras, como a pintura de história ou a escultura monumental”, afirmam as curadoras Ana Paula Simioni e Elaine Dias, que realizaram, em setembro de 2015, na Pinacoteca de São Paulo, uma exposição sobre a inserção da mulher no sistema artístico brasileiro.

Agora, o catálogo de Mulheres Artistas: As Pioneiras vêm mostrar que, à sombra do estigma de dóceis raparigas, as mulheres da virada do século 19 para o 20 acederam às práticas de ensino, se afirmaram como profissionais e realizaram obras de importância histórica. As cerca de 50 obras selecionadas, realizadas entre 1880 e 1930, atestam isso. O catálogo documenta trabalhos de artistas até hoje excluídas da historiografia da arte, mas também de pintoras reconhecidas em seu tempo, como Abigail de Andrade, primeiro prêmio na Exposição Geral de Belas-Artes, em 1884, e as damas do Modernismo Tarsila do Amaral e Anita Malfatti. “As dificuldades em obter reconhecimento eram semelhantes no Brasil e na França, mas em alguns campos, como a escultura, as brasileiras tiveram mais chance de se profissionalizar, até porque o campo aqui era menos competitivo. Julieta de França e Nicolina Vaz de Assis são exemplos disso”, afirmam as curadoras.

Mulheres Artistas: As Pioneiras (1880 -1930), Pinacoteca do Estado de São Paulo, R$ 50

 

 

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