Mãos à obra

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 05/03/2014

Categoria: Reportagem

Inovar no atendimento e na capacitação do público e dos funcionários, inclusive da segurança e limpeza, é prioridade no setor educativo de alguns dos melhores museus do País

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Legenda: Professores em visita ao Museu de Arte do Rio (foto: Divulgação/MAR)

Todo museu brasileiro que se preze tem hoje um setor educativo. Mas nem sempre foi assim. Essa realidade começou a mudar em 1990, quando o Committee on Education (EdCom) publicou, nos EUA , um documento sobre os padrões para o trabalho educativo em museus (Statement on Professional Standards for Museum Education). Ele determinava que a um museu já não bastava exibir a produção artística. Diante das questões cada vez mais específicas da arte contemporânea, era necessário não só cativar o público, mas muni-lo da compreensão de seu papel dentro do processo artístico.

No Brasil, a importação do modelo educacional norte-americano, inspirado principalmente no MoMA de Nova York, aconteceu em 1995, com a chegada de Milú Villela à presidência do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Ela implementou um setor educativo que incluía a recepção do público por mediadores treinados, atividades de formação e capacitação de orientadores para instituições correlatas e outras necessidades. Milú antecipou-se a um movimento inevitável e, com mais ou menos agilidade, as instituições brasileiras foram se adequando à nova realidade.

O novo milênio chegou, os questionamentos produzidos pela arte seguem imprevisíveis, mas o modelo pedagógico vigente continua o mesmo. Talvez os esforços particulares de três instituições, no sentido de inovar o atendimento e a capacitação dos públicos mais diversos, venham a ser o disparador de uma nova concepção de relacionamento com os visitantes. São elas o Instituto Inhotim, o Museu de Arte do Rio (MAR) e o complexo do Instituto Cultural Dragão do Mar.

Inhotim: conhecimento aberto e não seriado

Com um cenário por si só rico em possibilidades de interação, o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), tem um programa educativo que quer “convergir os pensamentos em educação e buscar a transversalidade”. Palavras de María Eugenia Salcedo, gerente de coordenação pedagógica que tem a tarefa de integrar as ações de mediação dos diversos setores da instituição: arte e educação, núcleo ambiental, educação patrimonial e inclusão e cidadania. Dentre esses universos há até programas de formação dos funcionários, pois “mesmo o pessoal da segurança e da limpeza pode informar os espectadores”.

As visitas mediadas com alunos do ensino fundamental da rede pública de Belo Horizonte ganharam um novo contorno por um convênio, desde 2008, com a prefeitura. Foi nele que surgiu o programa Escola Integrada, no qual os estudantes de 6 a 15 anos passam um dia inteiro em seus jardins. “É uma oportunidade para usar até mesmo a hora do almoço como um tema na visita. Dá para falar, por exemplo, de sustentabilidade ligando consumo à alimentação.”

A interlocução com o contexto é uma iniciativa do Laboratório Inhotim. Nele, cerca de 20 jovens de 12 a 17 anos, moradores de Brumadinho e adjacências, participam de cursos e atividades ao longo do ano, e podem voltar como bolsistas pela parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) por mais dois anos. Já a Rede Educativa Inhotim é um catalisador de reflexões e realizações de professores, alunos, pesquisadores e público sobre as iniciativas da área pedagógica da instituição. Ainda em sua versão de testes é a única plataforma do gênero no Brasil.

Programas como o Jovens Agentes Ambientais, o Derivar e o Descentralizando o Acesso (que atendeu 400 professores e 8 mil alunos das cidades de Brumadinho, Mário Campos, Igarapé, Ibirité, São Joaquim de Bicas, Bonfim e Betim) são outras das iniciativas. Sem contar o Inhotim Escola, que foi lançado em março de 2013 com um seminário sobre Natureza, Tempo e Poesia e prevê cursos, mostras e mesas-redondas. “O Inhotim Escola quer constituir uma plataforma de ações de formação, mas para isso não pretendemos fazer uso de uma estrutura de ensino escolar, baseada num entendimento de disciplina como campo fechado de conhecimento ou de disciplina como padrão de comportamento. Esta Escola quer ser um lugar de convivência, de troca, de compartilhamento”, diz a curadora Julia Rebouças. O projeto deverá ganhar sede em 2016 em dois casarões na Praça da Liberdade, em BH, ampliando o atendimento do museu além de suas fronteiras.

MAR: a boa vizinhança

Situado na zona portuária do Rio de Janeiro, o Museu de Arte do Rio tem uma vocação pedagógica desde a sua gênese. “O MAR é uma escola com um museu ao lado ou um museu com uma escola ao lado? Essa pergunta, feita pelo nosso diretor cultural, Paulo Herkenhoff, não é para ser respondida, mas para que possamos compreender seus desafios, as inúmeras possibilidades de relação entre arte e educação, que, no MAR, são duas forças de igual potência”, define Janaina Melo, gerente de educação da instituição. “A conexão entre os dois prédios e o acesso ao espaço expositivo pelo edifício dedicado à educação informam de imediato que, para acessar as exposições, é necessário passar pela educação. Esse é um dos pontos de partida para todas as estratégias de mediação do MAR”, continua ela.

É por meio da Escola do Olhar que o museu oferece cursos de curta, média e longa duração, privilegiando não só artes visuais e outras áreas de expressão como cinema, mas também a história da antiga capital do País. Além de atender e capacitar professores de escolas e universidades, o museu tem o projeto Vizinhos do MAR, que traz uma programação específica para os moradores da região. O público das imediações pode associar-se gratuitamente ao museu mediante a apresentação do comprovante de residência. Para diversificar a oferta de conteúdos e cursos, o MAR também faz parcerias com universidades (MAR na Academia) e recebe seus professores. É assim com o Universidade das Quebradas, coordenado por Heloísa Buarque de Hollanda e promovido pela Faculdade de Letras da UFRJ.

Dragão do Mar: PRODUZIR ARTE

Fundado em 1999 por Paulo Linhares, então Secretário de Cultura do Estado do Ceará, o Instituto Dragão do Mar, em Fortaleza, que tem como principais equipamentos o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Porto Iracema das Artes e o Museu de Arte Contemporânea, viu ao longo da última década sua vocação de centro de produção cultural se diluir no papel de difusor de programação pronta. Com a atual gestão de Linhares como presidente da instituição, ela voltou ao velho passo. “Retomei a ideia de que o Centro não é só um lugar para exibir, mas para produzir”, diz. Para isso, foi dado um novo gás ao Porto Iracema das Artes, braço do Instituto responsável por oferecer cursos gratuitos para a população não só em artes visuais, mas em audiovisual para tevê e cinema, teatro, música e dança. Nomes como Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, no cinema, Eder Chiodetto, na fotografia, e Arrigo Barnabé, na música, são alguns dos curadores, professores e palestrantes de cursos de duração diferenciada, de olho na capacitação profissional de seus ingressantes.

O Dragão do Mar está fazendo parcerias para criar intercâmbios e ampliar a atuação educativa em âmbito nacional. Quando entrevistado por seLecT, Linhares estava no Rio de Janeiro, prestes a se reunir com Paulo Herkenhoff, no MAR, para discutir interações entre as duas instituições que comandam. Sinal de que um movimento de renovação da função pedagógica e de mediação dos museus está em curso.

* Reportagem publicada originalmente na edição impressa #16

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