Mapas da noite nômade

Pesquisa histórica e ação artística integram-se em projeto sobre artistas e estrangeiros fichados pelo Dops de Pernambuco nos anos 1930

Paula Alzugaray
Carmen Silvia Brown Munefeld, conhecida como A Vênus de Bronze, nascida na Noruega e naturalizada chilena, foi fichada ao obter visto de permanência no Brasil, em 1945 (Foto: Cortesia Clarice Hoffmann)

Conhecida no mundo artístico como Anita Palmero, a atriz e cantora Ana Palmero Chaves nasceu em Ronda, na Espanha, em 1902. Com passagens em teatros de Tucumán e Buenos Aires e nas grandes rádios argentinas, chegou ao Brasil em 1941 e apresentou-se no Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Curitiba, Poços de Caldas e Recife. Em 1944, protagonizou um incidente no bar do Grande Hotel, na capital pernambucana. Na ocasião, Anita e uma amiga conversavam alegremente com oficiais americanos, bebiam e “soltavam gargalhadas escandalosas, perturbando o silêncio no ambiente”. À reprimenda de um interventor que se encontrava no ambiente “replicaram desabusadamente”. No dia seguinte, Anita foi chamada à delegacia, onde foi aberto pelo Dops/PE o prontuário individual 9301.

A história de Anita Palmero está contada em verbete publicado no site O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos. Contemplado na edição 2013-2014 do Rumos Itaú Cultural, o projeto de Clarice Hoffmann foi motivado pela existência de um conjunto de fichas produzidas pela Delegacia de Ordem Política e Social de Pernambuco (Dops/PE), entre 1934 e 1958, com registros da passagem pelo estado de indivíduos vistos e nomeados como artistas. “Artistas no conceito da polícia, que fique claro. Há pugilistas, ilusionistas, contorcionistas, quiromantes, cartomantes, transformistas”, diz Hoffmann. Eram categorizados como “artistas” aqueles que escapavam aos padrões morais de comportamento ou representavam uma ameaça ao regime político do Estado Novo. Daí o preconceito às mulheres que trabalhavam à noite, em locais de frequência masculina – portanto, associadas à prostituição ou ao tráfico de informações e à espionagem política. São fichadas dezenas de dançarinas de cassinos e cabarés, por exemplo.

Das 413 fichas encontradas, 60% são de mulheres e 40% de estrangeiros. Mulheres eram suspeitas de antemão. “E incomodava ao Estado que os artistas fossem nômades. Um Estado totalitário prefere o sedentarismo: quer saber onde as pessoas estão, como localizá-las”, afirma o historiador Durval Muniz de Albuquerque Junior, que integra o grupo de trabalho formado por Hoffmann. Também na equipe, as curadoras Clarissa Diniz e Gleyce Heitor lançaram uma convocatória a projetos artísticos interessados em tangenciar e ativar as histórias que vieram à tona no arquivo. Os trabalhos selecionados de Marie Carangi, Juliana Borzino e Irma Brown viraram obras virtuais, no site do projeto. O resultado é uma valiosa documentação da vida e da obra de artistas que movimentaram uma época, mas que desapareceram e jamais seriam lembrados.

Serviço
O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos
Clarice Hoffmann
obscurofichario.com.br

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