Mariane Ibrahim: “O Brasil é fundamental para minha pesquisa”

Galerista que se consolidou no mercado internacional com a representação de artistas da diáspora africana inaugura individual do paraibano Sergio Lucena

Nina Rahe

Publicado em: 12/03/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Entrevista

Galerista Mariane Ibrahim (Foto: Sofia Giner. Cortesia Mariane Ibrahim)

Mariane Ibrahim abriu as portas de sua galeria em Seattle no ano de 2012 e, por algum tempo, disse que ficava sozinha, rodeada de arte, à espera de visitantes que não vinham e do telefone que não chegava a tocar. Menos de dez anos depois, com a transferência de sua sede para Chicago, em 2019, e com a previsão de abertura de uma filial em Paris ainda neste ano, ela colhe os frutos de uma ascensão meteórica no cenário artístico internacional, construindo sua reputação a partir de uma lista de artistas contemporâneos da diáspora africana, como a pintora senegalesa Soly Cissé, a franco-senegalesa Delphine Diallo e o ganês Amoako Boafo – o último, escolhido pela revista Time como uma das 100 lideranças emergentes que estão definindo o futuro.
A galerista, que nasceu na Somália e cresceu na França antes de se mudar para os Estados Unidos, tem entre os artistas representados um brasileiro, o paraibano Sergio Lucena. “Tenho quarenta anos de atividade como pintor, quase a totalidade disso à margem do sistema de arte, de maneira que meu percurso nunca obedeceu a uma expectativa previsível”, diz Lucena, cuja segunda individual na Mariane Ibrahim Gallery abre nesta sexta-feira, 12/3. Para a mostra, com curadoria da própria galerista, o foco está em sua produção recente, com obras que partem, nas palavras do artista, da “beleza azul do nosso planeta”. Segundo ele, não é de hoje que se observa uma renovação no cenário das artes, com novas visões da realidade que denunciam a inviabilidade do modelo predominante. “Essa renovação não poderia vir do sistema estabelecido, é nas margens que está sendo forjada a mudança dos paradigmas, e a Mariane está atenta a isso”, diz.

Big Blue,(2020), de Sergio Lucena (Foto: Marcio Fischer/Cortesia Mariane Ibrahim Gallery)

Em entrevista, a galerista fala sobre seu encontro com a obra de Lucena, as mudanças acarretadas por conta da pandemia e, também, sobre como o Brasil, “país com a maior diáspora africana no mundo e o último a abolir a escravidão nas Américas”, sempre foi fundamental para sua pesquisa.

Antes da pandemia, você tinha planos para as exposições de Clotilde Jiménez e Amoako Boafo e também para feiras de arte como ARCOmadrid e The Armory Show. Como os planos se adaptaram à necessidade de isolamento e quais são os projetos para 2021?
Tivemos a sorte de continuar nosso programa de exposições, embora atrasado, em 2020. A galeria mudou o cronograma, mas conseguiu manter as mostras de Clotilde Jimenez e Amoako Boafo, ambas as primeiras exposições dos artistas com a galeria. Nossos planos mudaram além do normal, com as feiras de arte, é claro, não acontecendo no momento. Mas, para nosso programa e equipe, temos utilizado esse tempo com nossos artistas para aprofundar o significado e o processo de cada obra, especialmente as obras criadas em 2020. Esta foi uma grande bênção, como pudemos documentar as obras em grande detalhe.

Deep Blue,(2020), de Sergio Lucena (Foto: Marcio Fischer/Cortesia Mariane Ibrahim Gallery)

De que forma o Brasil faz parte da sua pesquisa e como você acompanha a arte contemporânea brasileira?
Como o Brasil é o país com a maior diáspora africana no mundo e o último a abolir a escravidão nas Américas, o país sempre foi fundamental para minha pesquisa. Há bastante tempo represento o Sérgio Lucena e fiquei encantada com o país também pela sua bela prática. Já estive no Brasil algumas vezes e pretendo voltar assim que for seguro viajar! Uma exposição que tinha em mente há algum tempo finalmente se concretizou no ano passado, no início de 2020, pouco antes da pandemia. Apresentamos a coletiva intitulada The Discovery of What It Means To Be Brazilian, com curadoria de Hélio Menezes. O título foi uma homenagem ao famoso ensaio de James Baldwin (1959), The Discovery of What It Means To Be an American, reunindo trabalhos recentes dos artistas negros contemporâneos Jaime Lauriano, No Martins, Aline Motta, Éder Oliveira e Tiago Sant’Ana. A exposição refletiu as visões de Baldwin sobre raça, armadilhas de identidade e a necessidade de nos libertarmos dos mitos para revelar quem realmente somos. Esta mostra foi inovadora e muito importante para mim em um nível pessoal. Construímos uma forte conexão com os artistas incluídos na exposição.

Você abordou curadores de arte africanos para apresentar seu programa e conectar a arte africana a uma cena artística global. Quando se trata de artistas brasileiros e de Sergio Lucena, em particular, como você vê sua inserção no mercado internacional?
A galeria sempre teve como foco a exposição internacional e o alcance global. Nossa presença em Seattle, cujo cenário artístico era bastante pequeno, encorajou e de certa forma exigiu que a galeria participasse de feiras de arte internacionais como uma forma de interagir com coleções e curadores. Sempre valorizei a exposição internacional, pois sou da França, e, no final das contas, entendo a importância do trabalho de nossos artistas também ser mostrado fora dos Estados Unidos, principalmente daqueles que estão mais emergentes. Isso também permite que nossos artistas experimentem novas culturas fora dos Estados Unidos (para aqueles que estão baseados aqui).

O artista Sergio Lucena (Foto: Marcio Fischer/Cortesia Mariane Ibrahim Gallery)

Você poderia comentar como conheceu a obra de Sergio Lucena e como suas obras se enquadram no âmbito dos artistas que a galeria vem desenvolvendo?
O trabalho de Sergio foi apresentado a mim por um associado próximo na primeira vez que fui ao Brasil. Assim que entrei em seu estúdio, fiquei encantada com a beleza e a vasta paleta de cores que seu trabalho tinha a oferecer. Foi uma conexão imediata e a partir daquele momento eu soube que ele se encaixaria perfeitamente no programa, a energia estava lá. Neste momento, a galeria está exibindo principalmente trabalhos figurativos, e as grandes obras abstratas e transitórias de Sergio são um elogio incrível a isso, com foco na evocação da emoção e do pensamento espiritual.

Quais são as projeções da galeria para 2021?
Em 2021 apresentaremos exposições individuais dos artistas representados pela galeria. As principais e mais esperadas exposições incluem nossas primeiras individuais com ruby ​​onyinyechi amanze, Jerrell Gibbs e Peter Uka.

 

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