A melhor cidade é a que existe

O curador do Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza fala das relações entre Patrimônio Cultural e planejamento urbano, do Circuito Histórico da Herança Africana no Rio de Janeiro e adianta alguns destaques do pavilhão brasileiro

Giselle Beiguelman

O arquiteto Washington Fajardo, 43, presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade e um dos expoentes do projeto Porto Maravilha, é o curador do Pavilhão do Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza, que inaugura em 25 de maio. Nesta entrevista concedida com exclusividade à seLecT, Fajardo reconhece as conquistas e as fragilidades da revitalização do patrimônio cultural da área do Porto do Rio. Eloquente e articulado, ele frisa: “A melhor cidade é a cidade que existe. É nela que estão as soluções para os nossos problemas. Os grandes centros urbanos têm potencial para muito mais que habitações sociais. Eles têm potencial para que possamos estar juntos no espaço público”.

Qual o projeto do Brasil para a Bienal de Arquitetura de Veneza?
O pavilhão se chama Juntos e está organizado a partir do cruzamento de três dimensões: Encruzilhadas, Ecos e Juntos. A primeira parte, Encruzilhadas, é um espaço dedicado a um tipo de arquitetura que tinha uma curiosidade genuína sobre a dimensão da cultura popular brasileira. Para tanto, vou falar de duas casas. A Casa da Flor, um bem cultural do Rio, e a Casa do Jardim dos Cristais, projetada por Lina Bo Bardi, no Morumbi, em São Paulo.

A primeira, a Casa da Flor, é do século 19 e é uma arquitetura onírica feita por um senhor local, um operário, filho de escravos, Gabriel Joaquim da Silva, que um dia tem um sonho de uma casa e passa a vida inteira construindo essa casa. Já a segunda é uma casa projetada por uma arquiteta, no século 20. Mas essas casas compartilham a mesma textura, a mesma palheta de cor, a mesma materialidade. E é muito interessante comparar duas casas em lugares diferentes, com histórias radicalmente diferentes. Do ponto de vista expográfico, será uma sala cheia de fios, onde o visitante terá de procurar um caminho até encontrar essas casas e, logo depois, ao lado, está a sala dos Ecos. Nessa sala, o que está em pauta são os centros urbanos das cidades brasileiras. Trata de ressonâncias, reverberações, onde estamos sempre tentando resolver o problema dos centros urbanos com abordagens da modernidade. Apesar das lutas de reformas urbanas, da Constituição, do estatuto das cidades, esses centros históricos urbanos estão relegados ao acaso, com muitas propriedades abandonadas, a despeito de serem ainda o símbolo e o centro de nossa vitalidade política. Nós recorremos a eles para fazer valer nossas vontades coletivas, mas esse capital simbólico não reverbera na ocupação do espaço público.

Quais são os projetos apresentados nesse eixo?
Quero mostrar nesse bloco as fraturas sobre os grandes centros urbanos: o estudo da Lina Bo Bardi para o Centro de Salvador e o corredor cultural no Rio de Janeiro, mas também a intervenção no Sambódromo de Oscar Niemeyer. Isso criou, ao mesmo tempo, lugar para a distribuição de um grande conteúdo cultural, realizou a espetacularização do carnaval e do samba, estabeleceu um contato com a cultura negra, mas também desarticulou totalmente o bairro do Catumbi, como se pode ver no trabalho de Carlos Nelson Ferreira dos Santos, Quando A Rua Vira Casa. Nesse setor, o foco é também a cultura negra. Porque esses centros urbanos eram ocupados pela presença dos escravos, que dominavam e tinham a utilização e o controle da definição do próprio espaço público no País. Acontece que essas populações são afastadas dos centros urbanos e, em cidades como o Rio, vivemos neles um alto grau de potência e, ao mesmo tempo, um sinal de fracasso. O Porto do Rio é emblemático disso. Lá ocorre uma grande transformação e há uma especial atenção nossa voltada para a proteção dessa cultura negra que é originária e está até hoje presente ali. Temos um potencial de realizar uma ideia de América, ou seja, um amálgama de diferentes sociedades no Brasil, entretanto, não falamos abertamente sobre racismo, sobre inclusão e, como arquiteto, penso que não falamos sobre isso no espaço público. A busca de defesa de inclusão e dos direitos dos negros é ainda uma luta voltada para o acesso às dimensões privadas do espaço. Por que no espaço público não temos a representação da cultura negra? Essa é a pergunta que começamos a fazer aqui no Patrimônio Cultural do Rio, em função do Porto Maravilha, e quero levar para o Pavilhão.

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E o que acontece quando tudo se junta?
A terceira dimensão, Juntos, que faz a amarração entre as duas primeiras, são os ativistas culturais que trabalham para a proteção de bens culturais, para a criação de espaço para os valores culturais e que, nessa busca, acabam por criar arquitetura. São 15 trabalhos. Nesse bloco, quero falar de pessoas. Não se trata de depreciar a figura do arquiteto, mas de fazer uma reflexão sobre nosso papel na sociedade. Quero destacar a arquitetura que é feita lentamente, com muito tempo, dos projetos que levam 20 anos para serem concluídos. Não quero falar de nada que é feito em cinco anos. Destaco o caso da Dione. Ela é uma dançarina que se dedicou ao Jongo da Serrinha, em Madureira, no Rio de Janeiro, por mais de 15 anos. Isso implica também a recuperação não só do Jongo e do saber fazer o Jongo, mas de reconstituição de toda uma trama social. Em um dado momento, ela consegue conquistar uma arquitetura, um edifício. Tem também o programa Vivenda, que é um negócio social, iniciado por um empreendedor de São Paulo. Eles vendem kits de reforma e atuam em favelas. Esse projeto é muito interessante porque mostra a necessidade de falar do parque de habitação informal que existe hoje. Falamos tanto, e muito equivocadamente no Minha Casa Minha Vida como alternativa para solucionar o déficit habitacional, mas, hoje, o parque de habitações informais é quatro vezes superior ao déficit habitacional! Temos mais de 25 milhões de habitações precárias e informais que necessitam de melhorias. Precisamos falar dessas melhorias habitacionais, e é interessantíssimo esse caso do Vivenda. Especialmente porque isso é um negócio. É um business social. Não envolve recursos públicos, eles trabalham com microcrédito, assumem compromissos de fazer obras que duram uma semana e oferecem kits: kit cozinha, kit banheiro, kit sala, kit ventilação, e trazem qualidade de fato para essas casas. O impacto é muito interessante, porque você vê as pessoas conquistando qualidade nas suas casas. Não é uma solução fordista, mas sim um caminho para trabalhar com os problemas. Outro caso é o do Jardim Edite, também em São Paulo, projeto do MMBB e de Elisabete França, porque é muito importante falar dos formuladores de políticas urbanas.

Quais outros projetos de formuladores de políticas urbanas estarão em pauta na Bienal?
Temos um caso autorreferencial, que é o corredor cultural do Rio e o circuito da herança africana, com a proposta de formular uma política de urbanização que colocasse em circulação esses valores culturais de matriz africana e que esses códigos pudessem ter rebatimento no espaço público. Como quando se anda na Liberdade, em São Paulo, e se reconhece a presença oriental na cidade.

O Circuito Histórico Arqueológico de Celebração da Herança Africana é um projeto seu, não é?
É um projeto do Patrimônio Cultural Municipal. O primeiro plano da prefeitura do Rio para a revitalização do Porto data de 1979. E muitas das ações que estamos fazendo têm suas técnicas básicas assentadas na gestão anterior. O grande diferencial do que estamos fazendo é, em termos de gestão, dar continuidade a um projeto anterior, e sua metodologia. Ela envolveu um grupo de trabalho formado pela Secretaria de Cultura e pela Secretaria de Habitação, entre outras, com seus corpos técnicos, e muitas audiências públicas. Apontamos, desde o início, o potencial arqueológico, o potencial de memória da existência da cultura negra e fizemos a defesa do orçamento para essas intervenções. Essa é a dimensão pragmática que aprendi no trabalho: a diferença entre o discurso e a realidade é o orçamento. Com isso, mobilizamos R$ 110 milhões para o Patrimônio Cultural da área do Porto. É até hoje o maior investimento por metro quadrado em patrimônio cultural na história do País. Isso foi uma conquista nossa. Mas que atendia, sobretudo, a duas reivindicações da comunidade: o clamor por melhorias e a exigência do resguardo de seu direito de não ser “zoologificada”. Isso nos permitiu obter muitos recursos e deveria ter servido à habitação popular. E essa é a grande fragilidade do projeto.

Qual foi o impacto desse processo do ponto de vista do mercado imobiliário?
Houve, sim, valorização das terras e das propriedades na região portuária. Mas temos de considerar algumas questões. Essa área é a de menor densidade demográfica da cidade. Tem 5 milhões de metros quadrados e apenas 28 mil habitantes. É uma área de muitas ociosidades. Essas ociosidades jogavam o valor da terra lá embaixo. Isso cria uma falsa ilusão de acesso. Porque esse suposto acesso está ligado a um processo de degradação do território. Houve, de fato, valorização de quase 100% em toda região central, entre 2010 e 2011. E isso está vinculado ao início dessa operação. Isso, somado às Olimpíadas, levou o Rio de Janeiro, até 2014, a números, em termos de mercado imobiliário, um tanto irreais. Mas hoje eles já começam a se normalizar. Por abrigar a Olimpíada e ter tido um papel de destaque na Copa do Mundo, o Rio tornou-se o barômetro de toda a pressão imobiliária. É nesse sentido que se revela a fragilidade do tema habitacional.

Que outras cidades serão abordadas no Pavilhão do Brasil, além do Rio?
Projetos propriamente ditos serão apresentados apenas no setor Juntos. Nos outros, serão referências. Nele, vamos mostrar a Escola Mangue do Recife, um projeto da comunidade com o escritório O Norte; Vila Flores, um trabalho de Patrimônio Cultural muito interessante em Porto Alegre, feito por um coletivo de São Paulo, o Goma Oficina, que rompe com o fetiche da restauração, trabalhando em um imóvel ocupado. E o projeto Piseagrama, de Belo Horizonte, que é também uma revista. De São Paulo, levaremos a casa para uma empregada doméstica, dona Dalva Borges Ramos, na zona leste de São Paulo, projetada pelo escritório Terra e Tuma (ganhador de prêmios como o da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura, AsBEA) e representante do Brasil em bienais no Equador e na Holanda. Em síntese, é uma seleção que privilegiou os projetos que tratam a arquitetura como mídia, os seja sobre o próprio processo de educação para a arquitetura.

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