Meme como crítica institucional

Perfis de Instagram viralizam imagens que fazem uso do humor para mandar uma mensagem ácida sobre o modo de funcionamento do circuito cultural

Luana Rosiello

N° Edição: 54

Publicado em: 11/07/2022

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Meme veiculado pelo perfil @newmemeseum, de autoria de Gustavo von Ha [Foto: Reprodução do Instagram]

O meme, conceito cunhado pelo zoólogo e escritor Richard Dawkins, em 1976, no livre The Selfish Gene (O Gene Egoísta), é uma das formas contemporâneas de comunicação direta com o outro. Tal como um vírus, essas imagens são uma unidade de informação com grande capacidade de se multiplicar, propagando ideias de indivíduo para indivíduo, renovando-se em novos trends a cada dia. Longe de estarem restritos à cultura pop, são estratégias de posicionamento político e, aos poucos, vão sendo cooptados pela publicidade.

Esses arquivos da web narram a história do cotidiano, enfatizando a livre circulação de expressões sociais; são uma espécie de jornalismo em tempo real baseado em imagens. Nada escapa aos memes: a política nacional e internacional, o cotidiano das redes, o sistema da arte ou qualquer outra coisa pautada no tribunal da internet. A relação entre arte e meme estabelece uma circulação irrestrita entre informação, entretenimento e público, beneficiada pelo longo alcance dos posts e a simplicidade da mensagem, o que determina o engajamento. É assim que perfis de Instagram arriscam críticas sagazes ao mundo da arte, instituições e seus agentes, viralizando imagens que satirizam o sistema, fazendo uso do humor para lançar uma mensagem ácida e certeira sobre o funcionamento do circuito cultural.

Meme do perfil @newmemeseum [Foto: Reprodução do Instagram]

NO PRINCÍPIO ERA A RISADA
@newmemeseum é um desses perfis. Criado em julho de 2020, partiu de uma ação despretensiosa de compartilhar imagens para, hoje, ultrapassar a marca dos 200 mil seguidores. Administrado por um coletivo anônimo, o objetivo inicial da conta era hospedar memes. “Apesar de sermos consumidores desse tipo de linguagem, não tínhamos familiaridade com a sua elaboração. Conforme as coisas foram andando, começamos a criar conteúdos baseados em nossas experiências pessoais e nas questões observadas no cenário da arte brasileira”, conta o coletivo à seLecT. No meio artsy, os memes publicados que trazem assuntos como o sexismo nas instituições brasileiras, a predominância de pessoas brancas em altos cargos na arte, a cadeia produtiva “artista-curador-galerista”, entre outras discussões, viralizam com frequência, reunindo estudantes, artistas, educadores, jornalistas, curadores, galeristas, produtores culturais e diretores em torno da mesma causa: rir (para não chorar) das hipocrisias do sistema.

Meme do perfil @newmemeseum [Foto: Reprodução do Instagram]

“Talvez uma motivação – ou curiosidade – fosse saber se mais alguém já havia passado por experiências semelhantes às nossas. Trabalhar com arte pode ser algo muito solitário. E esse perfil de memes nos deixa mais próximos de outras pessoas que partilham das mesmas inquietações”, continuam. A criação dos memes parte de vídeos e imagens que o coletivo encontra ou daquilo que os seguidores enviam e, a partir de uma seleção, os posts são elaborados. “Vemos os memes como uma linguagem contingencial. É mais intuitivo do que amparado em critérios fixos.” O New Memeseum coloca em debate a reescrita da história da arte e a forma como as novas narrativas são, e serão, apresentadas. A prática de postagens diárias revela que os memes são um meio de informar e, por isso, podem ser muito complexos – cheios de possibilidades inventivas e de nuances, jogando luz, por meio do humor, nos problemas e tensões negligenciados do sistema.

FOLCLORE DIGITAL
A mesma lógica estende-se para o perfil @freeze_magazine, nome paródia da revista e feira de arte britânica Frieze, administrado pelo artista visual independente e curador europeu Cem A. Algo entre um projeto de arte e uma plataforma, a conta foi iniciada em setembro de 2019 pela vontade do artista, também despretensiosa, de fazer memes. “Estava frustrado com as desigualdades do mundo da arte e tentando conseguir um emprego. Agora trabalho como assistente de curadoria e exponho de forma independente como artista, ironicamente, graças às oportunidades que a conta do Instagram criou”, revela em entrevista à seLecT. Os posts, que intencionam melhorar o sistema de dentro, em vez de rejeitá-lo, caracterizam-se como uma “zombaria amigável” sobre a alienação no mundo da arte por meio de uma lente hiper-reflexiva e autodepreciativa. Cem está envolvido na criação de todas as imagens publicadas na conta, colaborando com amigos, colegas artistas, pesquisadores e organizações de memes.

Meme do perfil de Instagram Freeze Magazine [Foto: Reprodução do Instagram]

Em 2021, a Freeze Magazine lançou, em colaboração com a Meme Studies Research Network, rede de pesquisa internacional e interdisciplinar sobre as redes digitais, um zine intitulado The Meme Kit, sobre arte e cultura contemporânea. Também realizou projetos como o Freeze Dating, um serviço de namoro baseado no seu gosto por memes e, mais recentemente, uma mostra intitulada The Party, na galeria Weserhalle, em Berlim, em que Cem A. desconstrói Wojak – trollface, criada em 2009 para representar emoções de melancolia, tristeza ou solidão – e explora suas experiências profissionais nos últimos dois anos por meio de uma narrativa semificcional. “Vejo o meme como arte, mesmo sendo difícil descrever a relação dele para além disso. Memes podem ser vistos como uma obra, performance ou exposição e interessa-me que causem essa confusão”, conclui. O potencial crítico e informacional do meme é cada vez mais disseminado nesses perfis de redes sociais, criando uma espécie de folclore digital que faz parte do nosso dia a dia: um simples acesso ao Twitter, Instagram ou Facebook nos faz refletir criticamente sobre situações sociopolíticas atuais.

MEMETERAPIA
O nome @jerrygogosian, mistura de duas personalidades poderosas na indústria artística – o crítico Jerry Saltz e o galerista Larry Gogosian –, também faz parte do grupo de perfis que usam o meme como ferramenta para criticar o trabalho no sistema da arte. Com autoria assinada pela artista e curadora estadunidense Hilde Lynn Helphenstein, o perfil de acesso privado está ativo desde 2018 e já possui mais de 100 mil seguidores. A artista iniciou a conta no Instagram como uma ”medida terapêutica”, buscando rir dos hábitos e das situações típicos do meio de arte. As postagens são mais direcionadas ao universo europeu e estadunidense, mas as críticas são tão boas quanto. Um dos assuntos recorrentes de Gogosian é como a vida e o trabalho não são separados na rotina do funcionário da cultura. Além do expediente, desenvolvimento de exposições, produção de obras e textos, o tempo que sobra é usado para investir em mais conhecimento e repertório; o estilo de vida torna-se capital social e as relações viram parte de uma rede de contatos – o networking.

Meme do perfil de Instagram Jerry Gogosian [Foto: Reprodução do Instagram]

Para Helphenstein, que vivenciou várias etapas da cadeia produtiva da arte antes de se tornar galerista, o meme é uma maneira de transmitir rapidamente ideias culturais de uma forma quase descartável. Ao acessar a imagem, o espectador seria capturado “em um nível visceral”, ocasionando risadas pela identificação com o assunto abordado. Um se baseia no outro e, eventualmente, você fica com uma linguagem codificada. “Nesse sentido, não estou criando arte, mas falando em expressões taquigráficas relacionáveis que só fazem sentido dentro da tribo da arte”, conta Helphenstein em entrevista à Sleek Magazine.O meme pressupõe uma relação entre imagem e palavra, envolvendo política e sociedade no universo da arte. A cibercultura procura novas maneiras de se relacionar e, nesse contexto, uma produção simbólica baseada em mecanismos de difusão da informação que levam à viralização, convertendo a imagem em um dos territórios de disputa mais importantes da atualidade: as redes sociais e seus agentes são determinantes no processo de informação.

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