Mementos de uma elaboração do mundo

Exposição ressalta o caráter processual e coletivo da obra de Héctor Zamora

Luciana Pareja Norbiato
Em Modelo Econômico (2010), Zamora cria composição geométrica com tabuleiros usados por camelôs (Foto: Cortesia CCBB)

Quem espera encontrar, no CCBB São Paulo, as intervenções colossais que caracterizam boa parte da obra de Héctor Zamora vai se decepcionar. Dos enormes barcos de madeira que o artista fez demolir no Palais de Tokyo (Ordre et Progrés, 2016) ou de Inconstância Material (2012), performance em que tijolos eram atirados por trabalhadores da construção civil numa coreografia ruidosa, figuram apenas registros em vídeo. É o caso também de Ruptura, performance encenada na abertura, com participantes rasgando folhas de livros negros. Dela, além do vídeo, restam os livros numa mesa no térreo, rodeados pela gravação do farfalhar do papel pelo manuseio. Das 24 obras da exibição, realizadas entre 2000 e 2016, a maioria é de registros de ações passadas, como imagens conservadas na memória. Como então a mostra se pretende um recorte abrangente da produção do artista mexicano, que por quase dez anos morou no Brasil? O paradoxo é a grande virtude do recorte feito por Jacopo Crivelli Visconti, pois transpõe para a seleção e museografia o cerne da poética do artista.

Praia Recanto das Crianças (2006), de Héctor Zamora (Foto: Cortesia CCBB)

Praia Recanto das Crianças (2006), de Héctor Zamora (Foto: Cortesia CCBB)

Graças à montagem econômica, o espectador é obrigado a investigar o espaço pelo qual transita. As obras estão em pontos estratégicos e imprevistos dos quatro andares do edifício, convertendo em vantagem a conformação espacial ardilosa. Deve-se procurar, percorrer, parar e prestar atenção para captar o sentido total dos mementos espalhados. De quebra, cria-se um diálogo poderoso com a arquitetura local, ponto caro a Zamora.

A obra revela-se por recordações que se insinuam pelo prédio. Ele usa a mesma estratégia de Sciame di Dirigibile (Enxame de Dirigíveis), criada para a Bienal de Veneza de 2009. Com cartazes, pinturas de artistas de rua, um dirigível incrustado entre dois prédios e o sobrevoo de vários deles pela cidade italiana, o artista tentava enxertar uma lenda urbana que ganhasse vida própria, sem sua autoria. Foi mais bem-sucedido em Every Belgian is Born with a Brick in the Stomach (2008), um piquenique na cidade belga de Genk para a população local construir palavras e formas com tijolos. Sem que Zamora propusesse, o evento tornou-se anual: os moradores encontram-se para reconfigurar as intervenções. Se a organização construtiva (ou neoclássica, nos moldes do CCBB), assim como a toda a civilização, só se constrói pela ilusão de grandeza que conferimos a processos coloquiais, é possível a todos nós, coletivamente, atribuir grandeza às lembranças que queremos fixar na História. Héctor Zamora empresta suas memórias para trazer à tona esse processo de elaboração do mundo.

Serviço
Héctor Zamora – Dinâmica Não Linear
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Álvares Penteado, 112
Até 2/1/2017

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