Memória e contramemória

Alinhada a esforços de reconstrução de narrativas históricas, #seLecT40 dedica-se à condição plural da história da arte

Paula Alzugaray
Over My Dead Body (2013), de Nona Faustine

As artistas brasileiras Nelly Gutmacher, Maria do Carmo Secco, Yolanda Freyre e Wilma Martins, a artista mexicana Maria Eugenia Chellet e a escultora colombiana Feliza Bursztyn, presentes na exposição Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960-1983; e a brasileira Lucia Nogueira, o guatemalteco Aníbal López e o paraguaio Feliciano Centurión, expostos na 33a Bienal de São Paulo, são nomes pouco ou nada conhecidos do público da arte que hoje vêm à tona graças a pesquisas curatoriais interessadas em iluminar capítulos omissos da história da arte. Atenta aos esforços de reconstrução de narrativas históricas não eurocêntricas e aos olhares voltados para o Sul global, a edição de 7º aniversário da seLecT dedica-se à condição plural da história da arte.

A capa traz, como imagem ícone da edição, uma fotoperformance da artista radical Nona Faustine. Nascida no Brooklyn nova-iorquino, seu trabalho é crítico ao colonialismo, à omissão de artistas afro-americanos na arte e aos padrões hegemônicos da cultura ocidental. Em Over My Dead Body (Sobre o Meu Cadáver) (2013) Faustine sobe a escadaria do Tweed Courthouse, antigo Fórum de Justiça de Nova York, construído sobre o maior cemitério de descendentes africanos que existiu durante o período colonial dos Estados Unidos. A descoberta tardia das ossadas, em 1991, é um evidente sintoma da injustiça sofrida pelos povos africanos. O fato é confrontado pela artista, que ao subir as escadas nua, segurando um par de correntes, toma as rédeas de sua história. Nona Faustine está em exposição na mostra Histórias Afro-Atlânticas, em São Paulo, e participa da seLecT #40 em um portfólio que tem texto crítico da brasileira residente em Nova York Claudia Calirman.

A desconstrução da história da arte ocidental, branca e masculina, é um projeto compartilhado pela curadoria da 10a Bienal de Berlim, assinada pela sul-africana Gabi Ngcobo, abordada nesta edição em crítica de Daniela Labra. O projeto Impulso Historiográfico, de Giselle Beiguelman, também promove uma original ação de contramemória ao se apropriar do texto An Archival Impulse (Impulso Arquivístico, 2004), do critico norte-americano Hal Foster. Beiguelman parafraseia Foster, reescrevendo seu artigo, por vezes questionando-o e contradizendo-o, situando-o no contexto do Sul global.

Chamamos atenção ainda para o fato de que, enquanto esta edição estiver circulando, nos meses de setembro, outubro e novembro de 2018, o Brasil estará imerso nos calores de um processo eleitoral crítico. Daí a importância crucial que artistas como Gilvan Barreto, Clara Ianni e Dora Longo Bahia se impõem, mostrando os perigos de uma história que se repete ciclicamente, reincidindo em violência, censura e infração aos direitos humanos. Ou de duas exposições-ensaios que estarão em cartaz no Instituto Tomie Ohtake e no Paço das Artes, em São Paulo, que se propõem a iluminar períodos obscurantistas da história política brasileira. Sublinhar os vestígios, os custos e as reminiscências da ditadura, antes de eleições que têm como candidato um militar da reserva que diz a altos brados que vai armar a população e militarizar as escolas é um ato de responsabilidade pública da maior importância.

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