Memorial às vítimas de Brumadinho reverencia dores

O projeto de Gustavo Penna deve honrar as perdas acarretadas pelo rompimento da barragem da Vale, um dos piores crimes ambientais do Brasil

Nina Rahe

Publicado em: 29/05/2020

Categoria: Da Hora, Destaque

Vista aérea do projeto arquitetônico de Gustavo Penna para o memorial

O arquiteto Gustavo Penna já chegou a dizer que o Museu de Congonhas, localizado junto ao Santuário Bom Jesus de Matozinhos, foi o projeto mais desafiador de sua carreira. A declaração do arquiteto sobre o museu, inaugurado em 2015, foi antes dele assumir o plano arquitetônico para a construção do Memorial em homenagem às vítimas do rompimento da Barragem da Vale em Brumadinho. A proposta do seu escritório, o GPA&A, foi a escolhida pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão Brumadinho (Avabrum) entre as quatro que foram apresentadas.

“O Museu de Congonhas tinha a missão de reverenciar Aleijadinho, esse artista que criou uma estética e que eu admiro e reverencio. Já o Memorial possui um caráter penitente, porque estou lidando com algo que aconteceu no meu tempo e com dores que são constitutivas de quem sou. Esse tipo de desafio que não é tão comum na arquitetura”, diz Penna, que considera o dia em que apresentou o projeto aos familiares das vítimas como um dos dias mais agudos de sua vida. “As vítimas precisam de um espaço que reverencie a memória. É um compromisso com as suas perdas. O que aconteceu foi brutal, máquinas que foram projetadas para aguentar situações extremamente abrasivas viraram ferro contorcido. Foi uma onda de pesos colossais”.

Do ponto em que estará o memorial, em um sítio adquirido pela Vale – que também será responsável por viabilizar a construção do espaço –, os visitantes poderão ver o trajeto por onde essa onda de lama passou arrastando tudo e todos que estavam no caminho.

Para não esquecer
De acordo com Josiane Melo, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem, o memorial é uma exigência dos familiares para que o crime não seja esquecido –os valores do projeto, que ainda está em sua fase conceitual, não foram definidos. “Pedimos o apoio do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, para que a Vale assumisse essa responsabilidade, mas deixamos muito claro que a empresa não teria qualquer interferência no projeto e na história que queríamos contar”, explica a presidente Josiane.

O processo de escolha do projeto – devido ao isolamento imposto pela Covid-19 – foi realizado entre 25 e 26/3 por meio de uma assembleia online, na qual os familiares votaram entre a proposta apresentada pela arquiteta Maria Paz de Moura Castro, responsável pela Galeria Tunga em Inhotim, e a de Gustavo Penna, que foi eleita com 62,1% dos votos. “Ele conseguiu traduzir nossa dor. Captou a magnitude do crime e o que as pessoas que perdemos representam para nós. Nem o memorial nem nada no mundo conseguirá reconstruir o que foi perdido, mas queremos honrar essas vidas e que um crime como esse nunca mais volte a acontecer”, diz Josiane.

  • Projeto de Gustavo Penna para o memorial
  • Projeto de Gustavo Penna para o memorial
  • Projeto de Gustavo Penna para o memorial
  • Projeto de Gustavo Penna para o memorial
  • Projeto de Gustavo Penna para o memorial

O rompimento da barragem deixou 270 mortos na contagem oficial. As famílias contam 272 mortes, incluindo dois bebês que estavam nas barrigas das mães. Uma delas, Eliane de Oliveira Melo, que estava grávida de cinco meses, era irmã de Josiane.

Agora, na proposta do escritório de Penna, ao arvoredo original do terreno de cinco hectares, irão se juntar 272 ipês. A escolha, segundo o arquiteto, é pelo fato de ser uma árvore do cerrado que cresce a despeito das dificuldades. “Quando a seca aperta, o ipê floresce de amarelo para mostrar que a vida continua”, diz Penna. “Há uma lição de otimismo e superação.”

Na entrada do ambiente, que terá 1.220 m2 de área construída, paredes e tetos serão fragmentados e retorcidos, dando a impressão de terem sido também impactados pelos rejeitos da mineração. A iluminação do ambiente escuro se dará por meio de fendas. A escolha pela entrada de luz natural permitirá que um facho ilumine um agrupamento de cristais, materializando o sol que foi encoberto pela poeira densa da lama.

O projeto foi elaborado também como uma fenda, na medida em que o espaço construído estará abaixo do nível da superfície – a opção remete à ideia de fissura. O percurso de 230 metros, que incluirá um espaço de memória, com projeções de imagens e vídeos, e uma espécie de cripta para os segmentos corpóreos das vítimas que foram localizados após os enterros, transportará o visitante ao ponto onde aconteceu o desastre. Os nomes das 272 pessoas atingidas estarão fixados nas paredes, acrescidos de suas datas de nascimento e morte.

O trajeto termina em um lago cuja fonte de água parte de um corte único em uma escultura inclinada em forma de quadrado – a peça é um monumento às vítimas fatais e será o único elemento vertical em todo o conjunto arquitetônico. Na concepção do arquiteto, ela representará as lágrimas do homem. “Quando houve o rompimento, como mineiro, senti uma profunda dor acompanhada de vergonha”, relembra Penna. “Como fomos deixar um desastre dessa proporção ocorrer?

 

 

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