Memórias do mito

Guilherme Kujawski

Publicado em: 05/02/2015

Categoria: cinema, Da Hora

Roqueiro australiano Nick Cave é o protagonista de um docudrama que mistura ficção e realidade

Legenda: Trailer oficial de 20.000 Dias na Terra

Uma leve sensação de estranhamento invade a quem assiste a Nick Cave – 20.000 Dias na Terra, longa sobre o músico e escritor australiano que viveu três anos no Brasil. Estranhamento, pois, sendo seu fã ou não, esperava-se dessa produção um tratamento mais explicitamente biográfico, com mais cenas de arquivo, principalmente às de suas fases anteriores, como aquela na qual foi o líder da banda pós-punk The Birthday Party, considerada por muitos como a banda mais perigosa do mundo, depois do The Sex Pistols.

Não se trata exatamente de um documentário no sentido estrito, podendo ser classificado talvez como um docudrama, produção que oscila entre o documentário e a ficção. No filme, dirigido pelos britânicos Iain Forsyth e Jane Pollard, imaginação e realidade se misturam, bem ao estilo de algumas técnicas literárias. Assim, ouvimos a voz interior do roqueiro – que faz o papel de si mesmo – se transformar em autoficção, ou naquelas histórias que contamos a nós mesmos, recurso que serve em alguns casos como mecanismo de defesa. Nesse sentido, a história do chiclete de Nina Simone, tal como é contada pelo guitarrista Warren Ellis, tem o sabor de uma cautionary tale.

O melhor momento é quando Cave visita um espaço museográfico, coordenado por arquivistas profissionais, cuja missão é catalogar os objetos de um hipotético Museu Nick Cave, um arquivo pessoal composto de tralhas coletadas em mercados de pulgas e fotos, muitas delas com paisagens de Wangaratta, região aborígene australiana, onde o artista passou parte de sua infância. Mas as memórias mais recentes parecem ser seletivas: de todas as suas ex-mulheres, apenas Anita Lane e a modelo Susie Bick são evocadas (a brasileira Viviane Carneiro, com quem Cave teve um filho, nem sequer é mencionada). 

Mas o filme não é revisionista. Cave confessa, por exemplo, em uma sessão com o notório psicanalista Darian Leader, sobre suas experiências com drogas pesadas e seus momentos de insegurança existencial. E, ao dar carona aos “fantasmas” do passado, o roqueiro revive momentos mágicos com sua parceira e amiga Kylie Minogue, mas também com Blixa Bargeld, ex-guitarrista de sua atual banda, a The Bad Seeds, com quem não conversava desde o rompimento. Esquecer e ser esquecido, outros medos confessos do roqueiro. Tragédias perturbadoras que podem ser amenizadas por esse registro cinematográfico acima da média.

Nick Cave – 20.000 Dias na Terra
(distribuição brasileira: Zeta Filmes)
Estréia no circuito comercial em 12 de fevereiro

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