Mentiras aparentes

Publicado em: 14/09/2011

Categoria: Crítica, Reviews

Documentário Assim é, Se lhe Parece mostra o cotidiano de Nelson Leirner.

Assim Se Lhe Parece_de Carla Gallo_frame1 Divulgação

Cena do documentário Assim é, Se lhe parece, dirigido por Carla Gallo.

Nina Gazire

É prática dos documentários atuais tentar fugir da obrigação de mostrar a total veracidade daquilo que pretende-se documentar. Nesta tendência se dá também outra fuga. Constantemente, tenta-se romper com a soma, muitas vezes monótona, de imagens e depoimentos intercalados. A total realidade daquilo documentado já mais passará intacta devido a mediação feita pela lente da câmera e do diretor. Por isso, atualmente, os documentaristas se permitem uma licença poética de criação com o material recolhido. Isso é bom, mas até que ponto essa abstenção na escolha das verdades feitas dos diretores comprometem aquilo que é documentado? 

Em Assim É, Se lhe Parece, dirigido por Carla Gallo e terceiro documentário da série ICONOCLÁSSICOS produzida pelo Itaú Cultural, existe essa tentativa de adentrar o mundo do artista Nelson Leirner sem a presença dos filtros da veracidade. A princípio é apresentado o cotidiano do artista por ele mesmo: sua ida a rua Saara em busca de bugigangas para suas obras, a montagem de uma exposição e sua vida doméstica são o pontapé inicial de apresentação deste personagem que é um dos mais importantes da arte brasileira. Mas a mediação dada apenas pelo acompanhamento da câmera e pelos depoimentos de Leirner tornam-se insuficientes a certa altura. A coisa complica-se ainda mais com as imagens intercaladas de filmes e registros de performances feitos pelo artista sem nenhuma explicação ou legendas. Um filme que se pretende um documentário, mesmo com todas as licenças poéticas e artísticas que podem vir a enriquecê-lo, não é uma obra de arte conceitual. O documentário está sendo exibido em diferentes capitais do país, e aqueles que forem aos cinemas desconhecendo o personagem e sua obra podem sair com uma impressão bastante errada da figura de Nelson Leirner.

A estória escolhida pode ser decepcionante. Por vezes, tem-se a impressão de que Leiner se tornou a caricatura do velho excêntrico. Episódios como a participação da obra “Porco Empalhado” no Salão de Arte de Brasília em 1967 e a fundação do Grupo Rex ao lado de Wesley Duke Lee, Geraldo de Barros,Carlos Fajardo, José Resende e Frederico Nasser que poderiam contextualizar a importância do artista são apresentados “en passant” por meio de um depoimento superficial do Leirner. Claro, nem a carreira e nem o próprio artista possuem a intenção de se resumir a estes dois episódios. Além do mais em qualquer trabalho cinematógrafo a escolha daquilo que se torna aparente fica a cargo do diretor por meio do processo de edição. Mas se a intenção de “Assim é, Se lhe parece” foi a de mostrar Nelson Leirner por Nelson Leirner, nos pareceu que o artista se esqueceu de, pelo menos, nos mostrar um vislumbre das verdades de si mesmo.

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