Minas firmeza

Conquistando visibilidade no cenário machista do hip-hop e do funk, compositoras encontram lugar para brigar por igualdade de gênero na quebrada

Camila Régis e Luciana Pareja Norbiato

N° Edição: 28

Publicado em: 25/02/2016

Categoria: A Revista, Reportagem

A MC Luana Hansen deu a volta por cima depois de sofrer preconceito duplo na cena hiphop, por ser mulher e lésbica (Foto: Carlos Goff/Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes)

Desde meados dos anos 1980, a periferia ganhou voz com dois gêneros importados dos EUA – mas aclimatados pelo tempero brasileiro. Se até os anos 2000 a hegemonia masculina ofuscava as “minas da perifa”, ao longo desse tempo elas ganharam consciência de seus direitos na música e no mundo e hoje não deixam barato. Seja contra letras sexistas como Dona Gigi (Os Caçadores) e Trepadeira (Emicida), seja por mais visibilidade e participação nos palcos, elas soltam o verbo para mostrar que lugar de mulher é onde ela quiser, e que elas querem os mesmos direitos, inclusive o de desejar. Nesse velho novo século, funkeiras e mulheres MCs usam tanto o papo reto quanto o deboche para protestar e são a nova cara da música da rua.

Só backing vocals
Elas vêm ganhando território com organização e consciência. Pela realidade que as cerca, as mulheres do rap são enfáticas contra o machismo que domina a cena hip-hop. Se, no início do movimento no Brasil, em meados dos anos 1980, as “minas” tinham de se vestir como homens, com roupas largas e boné para serem respeitadas, hoje cantam versos que denunciam a opressão machista – no rap e na periferia. No Brasil, o gênero de protesto contra a desigualdade social e racial ganhou visibilidade por nomes como Racionais MCs e RZO – enquanto veteranas como Dina Di, Sharylaine e Lady Rap seguiam na sombra. “Em 1996, aos 16 anos, eu já dançava em crews e comecei a ir a shows de rap. Me dei conta de que não havia mulheres cantando, só backing vocals. Isso me incomodava”, diz Luana Rabetti, 36, ou MC Lunna, que com a DJ Simone forma a dupla Livre Ameaça.

Lunna virou militante sem se dar conta. Ao se casar, em 2002, com Mandrake, do portal Rap Nacional, pedia espaço no site para as mulheres do rap. O casamento terminou em 2004, mas a luta feminista, não. Do hotsite para a organização de um fórum nacional feminino do rap em 2010 foi um pulo. “O hip-hop é uma ferramenta de diálogo em diversas áreas, como educação. É uma linguagem da periferia e tem esse papel de ponta no feminismo da mulher negra”, explica Lunna. No fórum surgiu a demanda por uma congregação mais ampla. Nascia aí a Frente Nacional das Mulheres no Hip-Hop, que hoje tem duas publicações listando o Olimpo da cultura de rua feminina e mais de cem integrantes de todo o Brasil.

Uma delas é a MC Luana Hansen, 34, que hoje grava os próprios discos no estúdio montado em casa. Ela é a prova viva de que o hip-hop salva. Com a mudança, aos 15 anos, da Bela Vista para Pirituba (SP), descobriu que podia ganhar dinheiro vendendo drogas. Só deixou de ser “avião” quando as rimas que fazia para brincar com os clientes chegaram aos ouvidos de Sandrão, do RZO – mesmo grupo que revelou Negra Li. Foi ele quem a colocou no primeiro grupo de rap, A Força, aos 21 anos. Mas foi a amiga Tina, com quem formaria o grupo A-TAL, quem pediu ao comando do tráfico para poupar a vida da rapper.

Isso não foi nada perto da decepção que sofreu quando sua sexualidade veio à tona, no trabalho como DJ na Vila Madalena (SP). “O dono do lugar ficou sabendo que eu era lésbica. Cheguei para tocar e ele me mandou embora. Ele disse que tinha a ver com minha vida pessoal e que agora entendia por que eu nunca ficava com nenhum cara”, contou à seLecT. Com a demissão e os comentários maldosos na cena, Luana não era mais convidada para cantar e entrou em depressão. Isolou-se em Mongaguá, no litoral sul de São Paulo, até que, por uma série de fatos – que vão desde a excursão de um ano como MC e DJ do pagodeiro Rodriguinho ao filme 4 Minas, que contava sua história e de mais três meninas lésbicas – entendeu que, além de ser rapper, precisava se posicionar contra o preconceito. “Não conheço nada de teoria feminista. Posso dizer que eu sou feminista porque sou uma mulher negra da periferia e que, indiferentemente da minha orientação sexual, eu já sofria preconceito. Depois que me declarei lésbica, ficou pior, porque desci para outro patamar: ‘Eu não vou te comer, então pra mim você não serve’.” Hoje, com músicas como Flor de Mulher e Ventre Livre de Fato, é ativa dentro da cena hip-hop pela visibilidade da mulher negra, seja ela hétero ou homossexual.

As preparadas
Em 2004, o duo de artistas Tetine, formado por Bruno Verner e Eliete Mejorado, subiu ao palco do Sónar, um conhecido festival de música eletrônica. No repertório, uma música que falava sobre posições sexuais e idas ao motel. Poucos sabiam, mas a autora da faixa era Deise Tigrona, compositora carioca que assinou uma infinidade de funks, entre eles Injeção, sampleado pela anglo-cingalesa M.I.A no hit Bucky Done Gun. Dos morros do Rio de Janeiro aos palcos de festivais frequentados pela classe média, o funk, conhecido por suas letras explícitas sobre sexo, crime e cotidiano da favela, tornou-se um poderoso espaço de militância – em especial para mulheres.

Criada em 2011 pelo empresário Marcelo Galático, responsável por agenciar shows de funkeiras como Valesca Popozuda, a Liga do Funk é uma associação cultural que oferece aulas de postura de palco, canto e rima, além de realizar atividades voltadas para formação social. Mas algo ainda faltava. “Quando fui à Liga, a primeira coisa que observei foi que tinha pouca mina e existiam atitudes machistas. Percebi que tínhamos de falar de assuntos como maioridade penal, mas também sobre mulheres”, conta Laila Almeida Braga, 22, produtora cultural na Liga do Funk e estudante de Geografia da USP.

A partir desse insight, a instituição passou a fazer mesas de discussões temáticas e pelo menos uma vez por mês uma mulher era convidada para falar. “Começamos a levar pessoas de movimentos sociais e deixou de ser só um evento com MCs. Chamei a Luana Hansen, a grafiteira Nenê Surreal, as Mulheres na Luta, que foram responsáveis pelo Grafitaço contra o Top 10 (uma lista divulgada na internet com um ‘ranking’ de desempenho sexual de adolescentes na periferia de São Paulo)”, diz Laila.

Práticas do gênero fizeram com que o espaço ficasse cada vez mais convidativo para mulheres e pautas femininas dentro do funk se tornaram mais frequentes. Questionada sobre as figuras hipersexualizadas do funk, Laila diz não ver uma incoerência entre essa postura e o feminismo. “Temos música machista em qualquer espaço, do rap ao sertanejo. O funk fala bastante sobre liberdade sexual. A Tati Quebra Barraco foi muito importante, por exemplo, porque abriu caminhos para outras meninas”, explica. “A mulher periférica é empoderada, pois ela enfrenta o machismo, o racismo, as barreiras de classe. Se você tem um filho, ele está na beira da estatística o tempo inteiro. É um empoderamento próprio que está para além da questão se é feminismo ou não.”

A mineira MC Xuxu começou a carreira no rap, aos 17 anos. Depois de encarar a prostituição e a discriminação, hoje ela é uma importante voz da militância LGBT dentro do funk (Foto: Divulgação)

A mineira MC Xuxu começou a carreira no rap, aos 17 anos. Depois de encarar a prostituição e a discriminação, hoje ela é uma importante voz da militância LGBT dentro do funk (Foto: Divulgação)

Diversidade
A abertura para o debate dentro do funk criou nomes como MC Xuxu, funkeira transexual de 27 anos, nascida em Juiz de Fora (MG). Compositora de suas próprias músicas, Xuxu ficou conhecida pela faixa Um Beijo, atualmente com mais de 1 milhão de visualizações no YouTube. “Descobri que minha luta era muito maior, porque eu carregava o peso de ser negra, da favela e travesti. Foi quando me tornei feminista. Escrevi essa música porque queria mostrar a diversidade e falar de um jeito que chegasse a todo mundo.”

Antes de virar um nome LGBT importante dentro do funk, a mineira enfrentou a prostituição dos 18 aos 20 anos, no Rio de Janeiro, e foi nesse período que entrou em contato com o ritmo musical. Ao voltar para sua cidade natal, Xuxu passou a investir na carreira de cantora e se firmou na cena funkeira. Nos últimos dois anos, participou do encerramento da Parada Gay, em São Paulo, e, entre uma batida e outra, viu ali uma oportunidade para não só expor sua música, como também para agir politicamente. “Fiquei muito feliz e orgulhosa, porque não tinha nem material direito e me ligaram dizendo que precisavam de uma trans. É muito bom saber que pude representar travestis e transexuais que morrem em todo o País.”

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