Mistura de sentimentos

Guilherme Kujawski

Publicado em: 03/10/2014

Categoria: artes visuais, Crítica

Nomeação de Adriano Pedrosa, novo diretor artístico do Masp, repercute na mídia e fora dela

Legenda: The Masp Movie (1986), filme de animação dirigido por Hamilton Zini Jr., Salvador Messina e Sylvio Pinheiro

Indivíduos-estrelas pululam o céu da cultura e da arte. No cinema, atores famosos são comparados a deuses gregos. Na música popular o estrelato é quase um lugar comum. E, nas artes visuais, além de artistas, curadores frequentam o panteão, fenômeno associado, em parte, ao surgimento das grandes exposições. Guardadas as proporções culturais, Jean-Hubert Martin, Francesco Bonami e Hans-Ulrich Obrist arrebatam mentes e corações tanto quanto jogadores de futebol, o que lhes imprime – para o bem ou para o mal – uma marca. O Brasil desenvolvimentista não fica de fora, apesar dos nomes escassos. Adriano Pedrosa é indubitavelmente um deles.

Vários veículos midiáticos divulgaram nessa semana a nomeação de Pedrosa para o cargo de curador do MASP, substituindo Teixeira Coelho. Curiosamente, os mesmos veículos vêm aplicando titulações diferentes em relação ao cargo: uns o chamam de “diretor artístico”, enquanto outros o promovem a “curador”, palavra que, sabidamente, traz no seu bojo conotações poderosas, quase mágicas. Um über-curator como Obrist, por exemplo, sabe das implicações – e desmedidas responsabilidades – inerentes ao atributo. Comparado a um curador, um diretor artístico tem a mesma aura que um assistente de direção. Politicamente, é quase nulo. Talvez, no presente contexto, sejam dois lados da mesma moeda.

A nomeação de Pedrosa provocou forças opinativas de mesma direção, mas de sentidos opostos. O artista paulistano Beto Shwafaty vê com bons olhos a nova movimentação, que pode resgatar a vocação inovadora e educativa desenhada pelos Bardi, um legado que engloba a arquitetura do prédio, as atividades pioneiras (como a escola IAC), os painéis didáticos, os primeiros salões de propaganda e design, etc. Já Ana Maria de Moraes Belluzzo – crítica, pesquisadora e curadora independente – é mais cautelosa. Sua dúvida é: por que nas decisões sobre indicações a cargos-chave em museus organizações como ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte) e CBHA (Comitê Brasileiro de História da Arte) não são consultadas? Quem indica esses profissionais? Quais as suas agendas? Há um grupo especifico controlando os rumos da arte no Brasil? As respostas, por enquanto, são apenas especulativas.

Ainda é muito cedo para julgar a pertinência da nomeação ou fazer previsões sobre a futura programação da instituição. Adriano Pedrosa tem certamente todos os pré-requisitos para recolocar o maior museu da América Latina em seu devido patamar. Apesar de o nome do novo diretor artístico estar associado à arte contemporânea, Shwafaty nos lembra que há no acervo obras de Duchamp, Andy Warhol, entre outros. Ou seja, combinações interessantes podem surgir daí. Além disso, Pedrosa pretende criar um comitê curatorial, composto por especialistas em outros campos e gêneros, o que pode redescobrir o impressivo acervo adquirido por Chatô, formado por obras que cobrem boa parte da arte ocidental, a começar pela Antiguidade. 

O mínimo que se pode fazer, nesse momento, é desejar boas vibrações.

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