Morre Amelia Toledo, aos 90

Artista deixa uma obra extensa e coesa, construída em desenho, gravura, escultura, pintura, objetos, instalações, múltiplos, joias e utilitários

Márion Strecker
A artista plástica Amelia Toledo no CCBB São Paulo. Foto: Denise Andrade

Amelia Toledo morreu dormindo na noite de ontem (7/11) na casa-ateliê-jardim em Cotia (SP) que dividia há alguns anos com o filho Moacyr Toledo, também pintor. Quem teve o privilégio de frequentar o local ou puder visitar a exposição que está em cartaz no CCBB São Paulo, testemunha a enorme diversidade de meios que ela usou para explorar assuntos da natureza e da cultura, da humanidade e do cosmos. Seja em trabalhos de pequena dimensão e com materiais baratos, seja em escala monumental ou em obras públicas, sua obra experimental, sensível e poética manteve grande coerência e foi marcada por muita originalidade.

Nascida em São Paulo, filha de cientistas, Amelia abandonou o ensino médio para se dedicar à arte. Em 1939, foi aluna da pintora Anita Malfati (1889-1964). Nos anos 1940, estudou desenho e pintura com Yoshiya Takaoka (1909-1978),  frequentou o estúdio de Waldemar da Costa (1904-1982) e trabalhou no escritório de arquitetura de João Batista Vilanova Artigas (1915-1985). Fez sua primeira exposição individual em 1957, na galeria Ambiente, em São Paulo. Com bolsa do governo brasileiro, em 1958 se mudou para Londres para estudar por dois anos na Central School of Arts and Crafts, onde teve aula com William Turnbull (1922-2012) e produziu seu primeiro livro de artista.

Medusa (1969), obra feita com novelos de tubos de PVC flexível contendo ar, água, óleo e corantes. Foto: Denise Andrade

De volta ao Brasil, nos anos 1960, estuda gravura em metal e dá início a uma longa trajetória de experimentações com obras de duas ou três dimensões fazendo uso de materiais naturais e industriais tão variados quanto o aço inoxidável, o vidro, o gesso, o plástico, as resinas, os tecidos, as conchas, as pedras, as bolhas de sabão e os fiapos de papel. Depois de ter sido aceita no programa de mestrado mesmo sem ter graduação, recebe em 1964 o título de mestre em Artes por notório saber da Universidade de Brasília, onde também lecionou. A partir de meados de 1960, passou a lecionar em São Paulo, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e também no Rio de Janeiro, na Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI).

Espaço Elástico (1967), com chapa de aço inox espelhado, mola em aço inox e cilindro em resina acrílica, premiada na 9a. Bienal de São Paulo
Foto: Fernando Lemos, Jorge Bodansky e Dulce Carneiro

Amelia Toledo manteve longa relação de amizade e troca com outras grandes artistas como Mira Schendel |(1919-1988), Tomie Ohtake (1913-2015), Lygia Pape (1927-2004) e Anna Maria Maiolino (1942). Não à toa, Amelia, Pape e Maiolino estão representadas na exposição Radical Women, em cartaz no Hammer Museum em Los Angeles. De Amelia, estão lá As Paredes Têm Ouvidos (1976) e Sorriso da Menina (1976), obras feitas em gesso durante a ditadura militar no Brasil.

Sua obra foi às vezes política, outras vezes geométrica, muitas vezes lírica, outras vezes lúdica, interativa, conceitual ou filosófica. Seu interesse pelas coisas da natureza permeou toda a sua vida, nos materiais que colecionou e transformou em trabalhos surpreendentes, como os pedestais sobre os quais instalou as mais lindas pedras, as mesas que armou com suas coleções de conchas, os caramujos e outros elementos do mar que moldou em gesso ou resina e o livro que escreveu sobre as aventuras de uma pedra chamada Juca.

Bolas-Bolha (1968-), trabalhos em PVC contendo ar, água e tenso ativo, criados para serem manipulados pelo público. Foto: Denise Andrade

Amelia Toledo participou de muitas Bienais de São Paulo e diversos Panoramas de Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre outras exposições nas melhores instituições artísticas brasileiras. Tem obras na Pinacoteca de São Paulo, no MASP, na Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa e várias outras coleções públicas e particulares. Alguns livros foram publicados sobre sua obra. Ainda assim, não teve em vida um reconhecimento internacional à altura da grandeza de seu trabalho, o que não é um fato exatamente raro na história da arte.

Amelia deixa os filhos Ruth e Moacyr e os netos Julia, Theo e Luisa. O velório será nesta quinta (9/11) no Cemitério Parque Morumby, em São Paulo, onde o enterro está marcado para as 14h. A exposição Lembrei que Esqueci, que teve como curador Marcus Lontra, fica em cartaz no CCBB São Paulo até 8 de janeiro, com entrada gratuita.

Bambuí, instalação com pedras brutas e polidas e placas de inox espelhado de forma sinuosa, que espelham de forma distorcida as pedras trazidas da região de Bambuí, em Minas Gerais, onde há milhões de anos havia mar.
Foto: Denise Andrade

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