Mover, ultrapassar

Obras de Marepe, na Estação Pinacoteca, inspiram visitantes a ultrapassar os avisos que separam o que é arte e o que é vida

Luana Fortes
Vista da exposição Marepe: Estranhamente Comum (2019) na Pinacoteca do Estado de São Paulo (Foto: Luana Fortes)

As duas exposições em cartaz na Estação Pinacoteca sugerem diferentes formas de relação com o público. Enquanto entra-se com bastante cautela e silêncio na sala em que está exibida a coletiva A Linha Como Direção, que apresenta 12 esculturas e relevos de aspecto geométrico em preto e branco, no andar em que se encontra a individual de Marepe a tendência é o barulho e a aproximação. A relação entre essas mostras faz pensar sobre que tipo de obra interessa verdadeiramente ao público, especializado ou não.

Com curadoria de Pedro Nery, Marepe: Estranhamente Comum perpassa os 30 anos de trajetória do artista baiano e exibe 30 obras, entre vídeos, instalações, objetos e fotografias. O recorte da produção foi dividido por Nery em três eixos que apontam para verbos simbólicos dos procedimentos usados por Marepe em sua prática.

“Mover” trata de trabalhos em que o artista retira um objeto do contexto para que ele foi feito e o leva a construções estéticas. Em Mudança (2005), por exemplo, a figura de um caminhão torna-se escultura e provoca uma reflexão sobre o deslocamento. “Transformar” mostra artefatos do cotidiano que a partir da repetição ou acúmulo são rearranjados para propor quebras nas relações hierárquicas entre objetos. Um conjunto de baldes reunido em uma esfera forma o trabalho Satélite Baldio (2006-2007). “Condensar” faz mais uma vez olhar para elementos corriqueiros, mas ressignificados por meio de associações com o imaginário pessoal de cada um. É assim que Marepe transforma cabaças, frutos já usados para diversas coisas como bacias e instrumentos, em esculturas de alumínio.

Os trabalhos de Marepe sempre têm algo de familiar, com referências à sua própria intimidade. Se aproximar deles é quase inevitável pela trivialidade dos objetos reconhecidos. Afinal, por quê não se aproximar dos filtros de barro com copinhos de vidro de Os Filtros (1999)? Ou puxar as linhas azuis dos carretéis de Chorinho (2009)? Uma das maiores qualidades da obra do artista é justamente transformar aquilo que é tão bem conhecido por todos em trabalhos de presença ao mesmo tempo imponente e acolhedora. Mas uma coisa é certa – os educadores ou seguranças da Estação Pinacoteca certamente irão à loucura de tanto pedir para que os visitantes não ultrapassem as já indiscretas frases coladas no chão perto de cada trabalho que justamente dizem: favor não ultrapassar.

Serviço
Marepe: Estranhamente Comum
Retrospectiva
Até 28/10
Estação Pinacoteca
Largo General Osório, 66 – São Paulo
pinacoteca.org.br

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