Mural de Panmela Castro é pintado de preto antes de finalização

Convidada a fazer o trabalho durante a Semana de Arte de Miami, artista esboçava imagem que denunciava abusos de poder

Leandro Muniz

Publicado em: 04/12/2019

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

Mulher Que Filmou Abuso Por Parte Dos Policiais É Agredida E Presa (2019) mural de Panmela Castro (Foto: Alexandre Abade)

A artista Panmela Castro (Rio de Janeiro, 1981) foi convidada pela Kogan Amaro, galeria que a representa no Brasil, a desenvolver um projeto de mural durante a Semana de Arte de Miami, evento que reúne falas, produções de obras e visitas guiadas, durante o período em que ocorre a feira Art Basel Miami Beach. O mural começou a ser feito na segunda-feira 2/12 e estava apenas esboçado quando a artista recebeu uma mensagem dizendo que ela não poderia concluí-lo, pois ele seria apagado. A referência que Castro havia escolhido como referência para a pintura era de um relato de sua aluna Ana Letícia, que foi agredida e presa ao filmar abusos policiais.

O mural da artista estava sendo realizado em uma das paredes do Aria 21, um centro cultural e de eventos localizado no bairro de Wynwood, onde paredes inteiras são cobertas por grafite e pintura. Durante a Semana de Arte, essas pinturas são renovadas. “Os policiais locais não aceitaram e ligaram para reclamar com o dono do prédio. São policiais que protegem a região e o dono do espaço não quis se indispor com essas autoridades. Pediram para realizar outro grafite, para tirar pelo menos a frase, mas eu não cedi. O trabalho é sobre abuso de poder e ceder seria aceitar essa violência”, diz Panmela Castro à seLecT.

Um caso recente de abuso de poder policial ocorreu em Paraisópolis, São Paulo, onde nove jovens foram mortos pisoteados por conta de uma ação de dispersão da polícia em um baile funk que ocorria nas ruas. Um comentário recorrente nas redes sociais de Castro em resposta ao apagamento de seu mural foi a sigla A.C.A.B., que remete a all cops are bastards (em português, uma adaptação da frase seria todos os policiais são escrotos), usada como manifestação de indignação a essa violência.

O mural de Panmela Castro coberto de preto após sua inauguração (Foto: Gabriel Montenegro)

 

O trabalho de Panmela Castro era parte da série Retratos Relatos (2019), em que a artista usa fotos e relatos de mulheres que compartilham suas histórias para que elas sejam interpretadas em pinturas. “Eu não usei a imagem da Ana Letícia em Miami para fazer uma crítica aos policiais de lá, mas eles se incomodaram, a carapuça serviu. Ninguém imaginava que ia dar problema”. O projeto havia sido aprovado pela galeria, por um comitê curatorial formado por Ricardo Resende e Ana Carolina Ralston e pela produtora Jade Matarazzo, que fazia a mediação entre a artista e o dono prédio. Castro já havia feito anteriormente um trabalho no mesmo bairro, no qual apareciam flores e motivos decorativos. Esse mural ficou exposto lá por 3 anos.

“No Brasil eu já tive um mural censurado, na última edição da Frestas Trienal de Artes, em 2017”, conta a artista. “O vereador da cidade entrou com um processo público contra o projeto. Era para ser permanente, mas foi apagado em pouco tempo. Foi um dos primeiros trabalhos que foram censurados nessa onda recente de conservadorismo. Não imaginava que viria para os Estados Unidos para ter outro trabalho censurado pela polícia”. Saiba mais sobre o caso do mural que integrava a Trienal de Artes em reportagem da #seLecT37.

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