Muralha de Bits

Nina Gazire

Publicado em: 24/07/2013

Categoria: cultura digital, Reportagem

Censura, controle, estratégias de resistência da internet chinesa

Chinanet

Legenda: Há um temor por parte do governo chinês diante de fenômenos como a Primavera Árabe ou o Occupy Wall Street, nos quais as redes sociais foram usadas para organizar protestos antigoverno

O Ullens Center of Contemporary Arts atualmente é um dos centros mais importantes de arte contemporânea da China. Situada em Pequim, a instituição escolheu um tema polêmico no que tange à questão da liberdade de expressão no país governado pelo Partido Comunista desde a revolução de 1949. Em cartaz até abril de 2013, a exposição On|Off: China’s Young Artists in Concept and Practice teve entre seus temas centrais o Virtual Private Network (VPN), software usado em larga escala entre os chineses, para driblar o bloqueio digital das autoridades.

Desde que chegou à China, em 1994, a internet é regida por uma série de medidas regulamentares, transformadas em leis e implantadas com vigor no ano de 2006. As proibições vão desde o veto às buscas por termos como “despotismo”, “ditadura”, “protestos na Praça da Paz Celestial (Tiananmen Square)”, “opressão” e “genocídio” até medidas técnicas como o Golden Shield Project, gigantesco programa de segurança tecnológica, cujas ações mais destacadas são a criação de uma polícia cibernética com mais de 50 mil funcionários e a implantação do sistema de rede que impede os chineses de buscarem informações em redes online fora do país. A armadura cibernética foi apelidada de The Great Firewall of China. O Firewall é um programa de proteção contra invasões de vírus ou hackers. No caso chinês, serve como um trocadilho com a Grande Muralha da China, em inglês conhecida como The Great Wall of China. No país, todos os provedores são estatais e para criar um site ou serviço online é necessário registrá-lo no Ministério da Indústria, Informação e Tecnologia. E mesmo que se queira criar um provedor privado e oculto, a tentativa terá vida curta, já que é obrigatória a conexão com um dos quatro backbones – sistemas de ligação central das redes de computadores de um país – que na China são todos controlados pelo Golden Shield Project.

“A relação do chinês com a internet é binária porque, se você não usa uma VPN, não consegue burlar o Firewall e acessar sites presentes na internet global. E isso é como ficar desligado, ou seja, estar off dentro de uma rede de computadores que se torna insular e distante do que está se passando no resto do mundo”, explica o professor Carlos Affonso Pereira de Souza, vice-coordenador do Centro de Tecnologia e sociedade da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. Pereira esteve na China, durante o mês de abril, para participar de um evento da Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann). Para o professor, a mostra em cartaz no Ullens Center resume as contradições da internet chinesa.

Mais contraditório ainda parece ser o fato de que uma exposição que mapeia, por meio do trabalho de jovens artistas, maneiras de subversão contra um sistema draconiano passe livremente aos olhos dos censores que não praticam o cerceamento apenas no âmbito digital. O artista Ai Weiwei, por exemplo, conhecido principalmente por seu webativismo voltado para denúncias contra o governo chinês, teve seu blog tirado do ar em 2009, seguido de uma prisão no aeroporto de Hong Kong em 2011, sob acusação de sonegação fiscal. “Há subjetividade na censura. O sistema de bloqueio na internet chinesa funciona, mas nem sempre de maneira efetiva. Apesar de o Google ter retirado suas atividades do país, sua ferramenta de busca pode ser usada lá, mas é extremamente lenta, assim como o Gmail. O mesmo acontece com outros sites e serviços online estrangeiros”, comenta Pereira.

A ambiguidade da vigilância da internet chinesa se traduz também na facilidade com que um comércio online de drogas ilícitas pode se instalar. Alguns sites chegam a oferecer, inclusive, entregas em domicílio das substâncias proibidas. A denúncia apareceu no The New York Times, em artigo do jornalista Nicholas Kristof, conhecido pelo Prêmio Pullitzer recebido após sua cobertura do Conflito da Praça da Paz Celestial, em 1989.

A subjetividade da censura chinesa, segundo Kristof, pode ter sua razão no fato de o Ministério de Segurança Pública – idealizador do Golden Shield Project – e o Ministério da Indústria, Informação e Tecnologia estarem mais preocupados em patrulhar ameaças ideológicas vindas do Ocidente do que com outras questões que também ameaçariam a harmonia social, como, por exemplo, o consumo de drogas ilícitas. Há um temor por parte do governo chinês diante de fenômenos como a Primavera Árabe ou o Occupy Wall Street, nos quais as redes sociais foram usadas para organizar protestos.

Procurar o termo “massacre na Praça da Paz Celestial” ou “protestos na Praça da Paz Celestial” em qualquer ferramenta de busca chinesa, como o Baidu, uma espécie de Google, é tarefa frustrante, já que só imagens pacíficas da praça aparecem como resultado. Uma maneira que não só os dissidentes, mas também a população, encontram para conseguir se desviar da enorme lista de palavras presentes no filtro chinês é o uso de termos, ou melhor, ideogramas homófonos. O fenômeno homófono diz respeito a palavras que possuem significados diferentes, mas que, ao serem pronunciados, são foneticamente iguais. Um dos casos mais célebres é a história que ficou conhecida como “As dez criaturas místicas do Baidu”.

Em 2009, dez criaturas imaginárias foram acrescentadas à Baidu Baike, espécie de Wikipédia pertencente ao buscador Baidu, cujos nomes, quando pronunciados em voz alta, soam semelhantes a palavrões na língua inglesa. Exemplo é a criatura Cao Ni Ma, que significa “Grass Mud Horse” (Cavalo da Grama Lamacenta), mas cujo ideograma também pode significar “fuck your mother” ao ser traduzido para o inglês. A besta é representada pela imagem de uma alpaca de pelúcia, que tem como grandes inimigos os Hexie, termo que traduzido em inglês equivale a River Crabs, (caranguejos de rio). Em chinês, a criatura é descrita por um ideograma que tem pronúncia homófona ao termo “harmonia”. Os Caranguejos do Rio referem-se à justificativa que o governo usa para a censura, fomentando-a “na tentativa de criar uma sociedade harmoniosa”.

Nem mesmo as redes sociais chinesas, muitas vezes versões de redes ocidentais, como Sina Weibo, microblogue semelhante ao Twitter e ao Facebook, e a ferramenta móvel weCHAT, aplicativo para smartphones que funde em um único aplicativo funções similares do Instagram, do Skype e do Facebook, entre outras, escapam das pinças do enorme caranguejo vigilante.

No início de dezembro, o governo sancionou uma lei que obriga qualquer provedor de serviços online a impedir que usuários se registrem de maneira anônima, obrigando a concessão de dados privados. Empresas chinesas como a Sina Weibo, por exemplo, contratam seus próprios sensores, apelidados pelos usuários de Big Mama, civis responsáveis por apagar os posts considerados ofensivos.

Contando os tijolos da muralha

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Legenda: Em 2012, o e-commerce chinês faturou US$ 107 bilhões, que podem chegar a US$ 458 bilhões em 2016. Esses números explicam em parte o porquê do bloqueio sistemático que os sites ou empresas de e-business ou tecnologia estrangeiras sofrem. A razão, portanto, vai muito além da censura

Em números, a internet chinesa alcança dígitos astronômicos. A penetração da rede é de 42%, isso significa que de 1,35 bilhão de chineses, 570 milhões estão conectados. Comparada à média mundial de 2,4 bilhões de conectados mundo afora, isso significa que 23% são chineses. Segundo dados do We Are Social, evento que mapeia a internet em âmbito global e cuja última edição aconteceu em janeiro em Cingapura, 80% dos chineses conectados possuem entre 10 e 40 anos, 420 milhões usam a internet em celulares e 600 milhões estão cadastrados em redes sociais.

Só em 2012, o e-commerce chinês faturou US$ 107 bilhões, que podem chegar a US$ 458 bilhões em 2016. Esses números explicam em parte o porquê do bloqueio sistemático que os sites ou empresas de e-business ou tecnologia estrangeiras sofrem. A razão, portanto, vai muito além da censura. Um caso memorável é o do Google, que interrompeu suas atividades no país, em 2010, por não aceitar aplicar as sanções impostas pelo governo aos usuários que utilizavam seus serviços. “O modelo econômico chinês passa por uma base nacional. Com um mercado de consumo na casa dos bilhões, o que acontece é que se adota essa estratégia de cópia melhorada de modelos de e-businesses ocidentais e as marcas copiadas são fortalecidas dentro do próprio país”, ressalta Pereira, que vem investigando o fenômeno do weCHAT, aplicativo para celulares que permite a troca de mensagens e conversa gratuitas. Atualmente, o governo chinês quer que a ferramenta passe a cobrar pelo serviço, pois está onerando as operadoras de celulares, já que seus usuários, que somam 300 milhões de pessoas, acabam não pagando por chamadas ou utilizando outros serviços tarifados. 

Além de ferramenta de busca própria, o Baidou, os chineses também possuem suas versões do YouTube, o Youkou e o Tudou, recentemente fundidos. Ali, o acesso chega ao número de 310 milhões em uma única semana, gerando 1,6 bilhão de horas de visualizações.

O intervencionismo no mercado interno começa a se mostrar um tiro saído pela culatra. “O problema é que essas empresas chinesas estão no ramo da tecnologia, onde só é possível prosperar por meio do melhoramento constante e de um cenário para ideias livres, terreno típico da internet. A China não possui essa cultura e isso terá de ser modificado se essas marcas quiserem enfrentar o mercado global para além das muralhas”, avalia Pereira, que acredita que o segredo para o gigante asiático crescer ainda mais é apostar na neutralidade da rede.

*Publicado originalmente na edição impressa #12.

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