Museologia pós-pandemia

András Szántó

Publicado em: 21/04/2020

Categoria: Da Hora, Destaque, Opinião

Vista de exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo (Foto: Levi Fanan)

O dia 11 de setembro de 2001 foi uma terça-feira. No fim de semana seguinte, muitos dos museus de Nova York reabriram gratuitamente para o público. Lembro-me de ver nos rostos dos visitantes como o encontro no interior dos museus lhes dava uma sensação de conforto e segurança, da vida eventualmente recuperando um ritmo familiar.

Agora, quando uma calamidade de outra natureza devasta o nosso mundo, não é menos urgente que os museus reabram o mais rápido e com a maior segurança possível. Passar a fornecer conteúdo online é como chutar lata na rua. Mesmo com todo o seu valor educacional e de entretenimento, o engajamento digital, como muitos de nós estamos descobrindo, é um substituto pobre da experiência singularmente analógica e interpessoal de visitar um museu.

Embora seja custoso operar um museu com visitação reduzida e segurança intensificada – e, portanto, as decisões envolvidas nisso sejam difíceis –, a principal missão é servir o público. Seus defensores há muito alegam que os museus são essenciais para o funcionamento de uma sociedade. Se essa afirmação tiver algum mérito, os museus precisam demonstrá-la em tempo real – estando na linha de frente da reinicialização das atividades.

A maioria dos museus nos Estados Unidos conta com amplo espaço para receber visitantes, de forma que eles mantenham uma distância física segura. Museus abertos significariam não apenas a retomada de empregos e receitas auferidas, mas também, e mais importante, trariam uma série de benefícios intangíveis, que vão além dos significativos, transformadores e meditativos encontros com a arte. Os museus são um refúgio em tempos de trauma e perturbação. Como observa Kerry J. Sulkowicz, presidente da Associação Psicanalítica Americana, “estamos no meio de dois surtos: uma pandemia do vírus e uma pandemia de ansiedade”.

Os museus podem oferecer às pessoas que experimentaram semanas de isolamento um lugar seguro para ir, uma descompressão de seus espaços reduzidos. Sua abertura sinalizaria o início de um retorno à normalidade. Além disso, quando o público voltar, os museus poderão servir como hubs de educação, compartilhamento de informações e reflexão coletiva, enquanto trabalhamos juntos para superar esta crise.

Voltando
Abrir é factível, o que não quer dizer que será confortável. No entanto, algumas medidas práticas poderiam permitir que as instituições começassem a receber visitantes, assim que os governos locais levantassem as restrições. Elas podem ser flexibilizadas gradualmente, em condições apropriadas. Eu discuti essas etapas com agentes da arte. Ninguém as considerou irracionais, embora haja obstáculos logísticos e regulatórios a serem resolvidos. Algumas opções estão sendo avaliadas em muitas instituições. Museus na Ásia e na Europa em breve oferecerão modelos de trabalho e notas de advertência. Será crucial compartilhar experiências e comparar observações à medida que avançamos.

  • Criar um sistema de entrada programada em que os visitantes chegariam a cada 15 minutos, por exemplo, em números limitados. Como condição para a compra de ingresso, perguntar sobre sintomas ativos. Considerar a adoção da prática de medição de temperatura na porta. Estabelecer uma área de espera onde as pessoas ficariam na fila a distâncias apropriadas. Se uma lanchonete pode distribuir um dispositivo eletrônico para alertar os clientes quando a comida estiver pronta, os museus também podem. 
  • Tomar precauções especiais para proteger os mais vulneráveis. Habilitar entradas ou horários de funcionamento específicos pode ser útil. Quando a testagem estiver disponível, admita qualquer pessoa que tenha confirmado ter anticorpos. É altamente improvável que pessoas mais velhas e imunocomprometidas fiquem tentadas a visitar museus em grande número, neste momento. Enquanto isso, os museus podem intervir para suprir parcialmente a ausência da escola. Como pai de um adolescente, sei em primeira mão o vácuo épico que essa situação deixou para as crianças.
  • Apoiar-se na equipe mais jovem, especialmente nas funções voltadas ao público. Existem muitos, na maioria dos museus, e alguns serão testados em breve quanto a anticorpos. Aqui, como em outros lugares, a parte mais jovem da força de trabalho, munida dos equipamentos de proteção necessários, é claro, pode ajudar a sociedade a continuar, enquanto ainda é arriscada a volta de colegas mais vulneráveis. Os regulamentos emergenciais devem permitir que as instituições façam essas diferenciações sem expor as pessoas a distinções de idade.
  • Tornar as máscaras faciais obrigatórias e disponíveis.
  • Cumprir o protocolo de distanciamento físico. Os atendentes em galerias e áreas comuns podem gentilmente lembrar os visitantes para manterem distância uns dos outros, assim como pedem às crianças que não toquem nas obras. Estou impressionado com o cuidado com o qual as pessoas estão respeitando as regras de distanciamento em padarias e supermercados. Existe alguma dúvida de que elas possam fazer o mesmo em um museu?
  • Além de dispor de desinfetante para as mãos em todos os lugares, se os especialistas em saúde pública o sugerirem, instalar algum tipo de estação de desinfecção de corpo inteiro nos pontos de entrada. Sem ser simplista, é possível imaginar uma instalação semelhante a uma de nossas mais populares experiências artísticas imersivas. Certamente podemos encontrar algo aceitável, humano e até bacana. Por que não desafiar os nossos melhores artistas para que isso aconteça? Tudo bem ter um pouco de senso de humor.

Inevitavelmente, haverá opiniões divergentes sobre como essas políticas podem ser implementadas e exatamente quando. A situação será diferente para museus de alta frequência nas áreas urbanas e para instituições em áreas rurais ou suburbanas, onde o estacionamento é abundante e a visitação, moderada. Sejamos honestos: muitos museus não são exatamente inundados na maioria dos dias, mesmo nos melhores momentos.

Quando estivermos de volta
Um conjunto maior de perguntas paira sobre o que acontecerá quando os museus reabrirem. Crises como a atual não só criam novas condições, como aceleram inovações já em curso. Vimos isso na rápida expansão do conteúdo digital e na notável migração para a comunicação a distância. Todas essas mudanças serão mantidas? Improvável. Algumas deixarão rastros permanentes em nosso futuro? Certamente. 

A recuperação da pandemia provavelmente imporá três considerações importantes aos museus. Primeiro, o modelo de negócio baseado em exibições temporárias blockbuster, envolvendo caros empréstimos internacionais (e pegadas de carbono consideráveis), é provável que recue. Todos os diretores de museus que eu conheço estão fazendo uma triagem nos calendários de suas exposições e cortando as mais populares. Com o aumento dos custos de frete, transporte courier e seguro, grandes exposições itinerantes se tornarão um luxo, pelo menos por um tempo. O que virá em seu lugar? Histórias inteligentes em torno da coleção permanente e exposições a preços acessíveis sobre tópicos oportunos que atraem um público amplo.

Segundo, esperam-se ajustes dolorosos na forma como os museus são administrados – cuja primeira onda já começou. Várias vacas sagradas serão encaminhadas para o matadouro. Uma delas é o compromisso com equipes de tempo integral. Assim como após a crise financeira de 2008, museus com problemas de liquidez podem ser forçados a assumir contratos part-time e terceirizados. Algumas kunsthalles de arte contemporânea já contam principalmente com curadores independentes, contratados como free lancers. Nos museus maiores, com coleções permanentes, os desafios financeiros fornecerão novo impulso para a fusão dos “silos” de departamentos especializados. Uma crise profunda e persistente pode até reverter a aversão endêmica do campo da arte a fechamentos e fusões.

Em terceiro lugar, e em uma direção mais positiva, a crise vai soprar vento nas velas de uma nova museologia, na qual o serviço à comunidade seja tão importante quanto a guarda de objetos. As iniciativas de inovação mais interessantes nos museus hoje em dia já envolvem o engajamento do público, a educação e formas criativas de narrativa. Os auxílios governamentais e os fundos de emergência das fundações serão contingenciados a servir a comunidade. O lado positivo desta crise pode ser uma descida mais rápida do modelo de “templo sagrado” do museu de arte, que distribui conhecimento e prestígio aos mais abastados e bem-comportados, a uma instituição mais igualitária, mais aberta e mais participativa, que possa envolver a sociedade em toda a sua contemporaneidade e diversidade.

Quem chegou até aqui provavelmente se preocupa o suficiente com os museus para saber que, no final, o que eles oferecem às pessoas é um senso de descoberta e transcendência, continuidade e pertencimento. Raramente precisamos dessas coisas mais do que agora. À medida que os museus olhem para o futuro além da pandemia, poderão aproveitar a oportunidade para permanecer fiéis aos seus valores essenciais. E isso nos fará, a todos, melhores. 

András Szántó, Ph.D., sociólogo, consultor estratégico de museus, instituições educacionais e empresas ativas nas artes. Este texto foi publicado originalmente na artnet news, em 14/4/2020. 

Tradução Paula Alzugaray
Revisão Hassan Ayoub

Os textos de opinião não refletem necessariamente a opinião da revista e são de responsabilidade integral dos autores

Tags: , , , , , , , , ,

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.