N.N.N.

Em ensaio para o livro Waterweavers – A Chronicle of Rivers, autor disserta sobre as convergências, as divergências e os “meticulosos estratos de relações” entre as águas dos rios Niágara, Nervión e Negro

Fernando Zalamea

Publicado em: Vol. 10, N 50, Abril/ Maio/ Junho 2021

Categoria: A Revista, Destaque, Ensaio

Design de Irma Boom para a capa do livro Waterweavers, organizado pelos curadores Alejandro Martin e Jose Roca (Foto: Irma Boom)

O estado da água de cristalização, da água ligada em geral – como o dos tipos de ar igualmente ligados é um campo ainda inteiramente sem cultivar

Novalis, Estudos de Friburgo (1798)

As águas dos rios deslizam incólumes, o tempo escorre e permanece, o fluxo da corrente zomba das rochas passageiras. Já eu me disponho a sentir, penso, lembro: as imagens roucas e os sons azuis revelam a hidrografia duvidosa de minha vida. As ondas redemoinham, dançam e se entrelaçam em vertentes que evocam outros vertidos, em outros mares. Por minha mão correm gotas frias e a secura de minha alma parece não encontrar forma de se saciar. O tecido dos leitos – Waterweavers: a água ligada – exibe surpreendentes reveses, desdobramentos, transbordamentos. Mil imagens, nas beiras dos rios, me alumbram e me torturam. A força avassaladora das crescentes inunda as almas, aquela alma abandonada, minha alma.

N. O primeiro rio cai fragoroso, com seu invisível rugido de brancura. A arrasadora violência da catarata ao longo dos séculos, vigilante, nunca igual e sempre a mesma, molda incompreensíveis desígnios. Um intrincado sistema de galerias, pontes e aberturas no granito, construído ao longo da queda, cai no esquecimento da destruição. N. O segundo rio acumula o sangue mineral de décadas de usufruto siderúrgico. O ferro, o carvão, o aço entretecem, sem cisão possível, a terra, o curso da corrente, os fornos. Uma alquimia inapreensível da terra, da água e do fogo governa os ares pesados, plúmbeos, que pairam sobre a paisagem. N. O terceiro rio, atravessado por filões de quartzo, multiplica as clareiras de areia em todo o seu trajeto. A cor escura das águas provém da decomposição da vegetação desses espaços abertos. Combinam-se a vida dos fluxos, as areias silenciosas, a morte lenta do vegetal.

Em um impulso de loucura, acreditei descobrir o compêndio do cálculo geral do universo nas iniciais dos topônimos dos meus rios: N.N.N. A letra tripla multiplica o n.n. do desconhecido, do anônimo, do esquecido. O cálculo integral consegue sintetizar, na repetição do n, o abandono e a ausência do homem. Índice de número natural, o signo abriga o nosso impossível acesso à Natureza. A partir da “grandiosa sucessão” N.N.N, o cálculo diferencial gera, por outro lado, toda a variedade da experiência. Próximo da demência, acredito descortinar os véus de Saïs e choro de felicidade. Todas as complicadas alterações da alma são cifradas nas melvilleanas “núpcias da onda e da silva”. Vejo com nitidez como o homem, alheio, longínquo, se torna de repente a chave mestra desse cosmo que o evita. E minha demência, meu eu com rachaduras, é capaz de refletir as dobras, os desgastes, as rupturas das águas ligadas que me envolvem.

Niágara. O vento lambe com força as águas do lago. A calma planície torna-se uma serra interminável. As ondas quebram na praia contra pedras dispersas. As defesas da fortaleza revelam sua debilidade diante de uma infinidade alheia. Pinhos, olmos e carvalhos cumprimentam o despertar do letárgico cristal. Ao longe eleva-se a silhueta de uma cidade, incompreensível vista das ondas. Rocha, água e céu fundem-se em um traço contínuo de cobre e prata. Os globos, o olho e o cosmo confundem distâncias e diferenças. Um sol rasante transforma o ar em fogo. Centenas de brancos penachos de espuma escondem negras correntes. A potência segura de milhões de litros em movimento reduz a seu justo lugar as insignificâncias cotidianas. A geografia não deixa de se assombrar diante do estuário invertido. Com tranquila parcimônia, milenário, eterno, o lago inesgotável verte na boca do rio. Ongniaahra… “Trovão das águas”… “Terra cortada em duas”… O rio, nascendo de um lago, morre pouco depois em mais outro lago. O trovão e o corte multiplicam-se na portentosa catarata: Apocalipse sublime. Dezenas de prodigiosos arcanos jazem, desde o início, na improvável transposição do esteiro. Os movimentos submarinos acumulam no estreito novos sedimentos. Sem transição alguma, o reflexo dos céus espreme-se entre areias e umidades. Os caudais do canal adquirem seu impulso indomável. A bacia aloja, com precisão, cada fragmento de seu passado e de seu futuro.

Nervión. Nas escarpadas alturas da serra nascem as águas que descem para o canyon. Os mananciais filtram-se entre a rocha calcária, no verão, ou unem-se para cair por um ingente salto, no inverno, quando o volume do caudal retido o permite. As formações cársticas, produto da ação erosiva da água, abrem dezenas de janelas e varandas na montanha. Os abutres fulvos pousam nesses habitáculos, antes de sobrevoar o território. Um denso bosque de faias esconde os acessos ao cume. A cor cinzenta das cascas e do solo baldio, escurecido pelas copas das árvores, evoca uma lúgubre antessala do Inferno. No meio da subida, duas tocas de lobos, armadilhas formadas por altas paredes que convergem em poços profundos, lembram tempos pretéritos e selvagens. Do topo divisa-se o estreitamento das agrestes encostas cinza, caindo a pique sobre o incipiente rio. O verdor de suas ribeiras contrasta com a dura solidão da pedra. Aproximando-se do vale, surpreende a presença de umas fileiras de choupos-brancos. Os acherois de Homero constituem uma das possíveis fontes do Aqueronte. O nome pode provir daquelas plantas perenes, de uma falsa etimologia proveniente da “dor” ou de um sombrio “fluxo do luto”. Das próprias águas brotando afluem, na rocha e na árvore, duas referências aos círculos infernais. Quando, um pouco mais embaixo, a violência da siderurgia deságua inclemente no leito do rio, este acolhe o seu destino.

Negro. O escudo tectônico, produto da erosão durante milhões de anos, destruiu as altas montanhas. Isoladas pelas planícies circundantes, algumas pequenas serranias aguentam ainda o labor dos elementos. Um clima sufocante, úmido e pegajoso adormece as próprias bestas da selva. As leguminosas reinam por toda parte, com suas folhas alternas, suas flores zigomorfas, seus frutos em legume. Os solos arenosos, cobertos de arbustos e bosques baixos, desfazem-se em uma sonolenta lentidão. O embasamento de granito sustenta os cursos quebrados e irregulares de dezenas de anos. As águas barrentas, cheias de argilas e limos, descem em direção à grande bacia do Amazonas. As altas torrentes combinam todos os tons imagináveis de brancos, marrons e cinzas. Gnaisse, sílice, quartzo, jaspe colorem os fundos das torrentes. O fragor dos choques da linfa e da pedra repercute em um som contínuo. As “núpcias da onda e da silva” extravasam a sua máxima expressão. Um magma de tempos e espaços virgens, idade de ouro do fluxo das ondas, continua ainda sua solitária corrida. A terra vira céu e o céu vira terra. O Puinawai, “Mãe da Humanidade”, acolhe mais um de seus eternos renascimentos. Enclave de meteoros e sedimentos, a reserva natural contempla outro transe alquímico de âmbares e arborescências. As rochas policromas e os tanques de águas cristalinas evidenciam o desgaste dos séculos. Os mananciais parecem brotar em cada metro de terreno. Curvando-se sem cessar, o rio recebe dezenas de afluentes, jatos e açudes.

Debruço-me sobre meus rios – N.N.N. – e enlouqueço. Amei em N, vivi em N, morro agora em N. O amor, a vida e a morte, aqueles três grandes temas rulfianos, incrustaram-se nos limites dos meus rios. Consigo entender que somos só transmutações, transfigurações, transições. As águas convergem e divergem, ao teor mesmo de nossas frágeis ilusões e desesperanças. O tecido das almas – Soulweavers: a alma ligada – me sobressalta. Vejo com nitidez como as almas ligadas refletem-se nas águas ligadas, e descubro em minha mísera existência a chave de abóbada das arquitetônicas muito diversas que me atormentam. Os reinos e os cálculos – mineral, vegetal, corporal, intelectual, sideral, diferencial, integral – adquirem novos ares sob o que passo a chamar de hipótese N.N.N. Não só tudo se liga com tudo, algo que muitas propostas da Antiguidade já sugeriam, mas acontece através de meticulosos estratos de relações, que correspondem à exata ponderação, mistura, evaporação e condensação das águas. A cifra do universo encontra-se na meteorologia da alma, tal como Novalis (N) indicava, e essa meteorologia geral é cifrada, como por apocatástase, na hidrografia particular de minha alma. No N.N.N. condensam-se todos os mananciais (nascimentos), todas as águas de chuvas (dores), todos os fluxos dos rios (vidas), todos os transbordamentos (alegrias), todas as desembocaduras (mortes), e o ciclo expande-se por sua vez dos mares que vertem de novo nos rios. O tecido das águas – Waterweavers – reverte minha tristeza na chama do mundo e transforma minha loucura na sabedoria das coisas. Chego a ser plenamente consciente de minha iluminação, da epifania, do momento privilegiado, mas a encubro em minha desaprazível solidão.

N. Sob o fragor inaudível das altas montanhas, nascera uma menina que convergiria nas cesuras e nas descargas da torrente. Ao crescer encarnaria a milagrosa conjunção de um veio marmóreo, em um límpido riacho, e a perfeição de uma esquecida escultura grega. Sua paixão pela arte confluiria, insuspeitada, em aguadas de outros tempos e outras paragens. Mesmo se dissolvendo em um sopro vão, um instante de eternidade propiciaria, com o suicídio da mulher na catarata, a união de duas eclosões de incalculável beleza. N. Longe dali, viera ao mundo um homem que passaria anos procurando decifrar elementos outros, em laboratórios científicos e centrais nucleares. As partículas elementares enalteceriam e destruiriam seu cérebro, até levá-lo àquela ria lacerada. As paixões, as lutas e os desamores o aproximariam, sem remissão alguma, do Aqueronte. Os saques da natureza e da alma humana não ficariam impunes. Os minerais teriam sua revanche. N. Não resultaria diferente o acontecer do menino. O carinho e o desamor se incrustariam em sua alma delicada, a felicidade e o desengano apreenderiam seu corpo, a liberdade e a submissão se interporiam no seu caminho. Submergindo-se em algum remoto distanciamento, o menino conseguiria contemplar a beira da penumbra e da luz. Seguindo as grandes águas negras, qual Proteu, atento a todas as fronteiras e todas as mudanças, o menino exploraria a partilha do mundo em um novo vislumbre do perpétuo transe entre a vida e a morte.

A ligação das águas era muito simples em aparência – o homem e a mulher foram destroçados ao longo do Nervión, seu filho escapara ao Rio Negro, e eu tentara amá-la e salvá-la quando ela se exilara no Niágara –, mas a força dos rios sempre excedia meu pequeno vislumbre da realidade. Múltiplas correntes ocultas se entrelaçavam, uniam e desdobravam debaixo da aparente superfície das águas. Os cálculos verdadeiros não podiam se reduzir então à efêmera linearidade de minha percepção e de meu intelecto. A hipótese N.N.N. permitia multiplicar o universo, exponenciar meu desgarrado amor e situá-lo no centro mesmo de todas as coisas.

Rio agora, com a gargalhada delirante de um louco, ao imaginar os séculos requeridos para demonstrar minha hipótese N.N.N. Concebo a hipótese de Riemann e a hipótese do contínuo de Cantor como consequências imediatas e infantis de minha conjectura. Só o Aleph de Borges parece conformar-se em uma digna contraparte de minha ambição. Só não entendo com absoluta clareza o contínuo fluir dos meus rios, inabaláveis, silenciosos, eternos, aparentemente independentes de minha própria tragédia. Imagino nesse momento que, entre aparências de aparências, só o particular do particular e o vago do vago – N.N.N. – podem ser capazes de captar a elusiva complexidade dos universais.

Tradução Paloma Vidal

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