Não é saudosismo, é modelo-vídeo

Em encontros on-line, o grupo Risco! investiga as transformações da prática do modelo vivo a partir de recursos audiovisuais

Guilherme Moraes

Publicado em: 25/06/2021

Categoria: Destaque, Laboratório de escrita, Projetos especiais

Sessão de modelo-vídeo com Iara Izidoro e Lui Andrade (retratado no registro), 2021. (Foto: Walton Ribeiro)

Por volta das 19 horas de uma segunda-feira, estou entre pintores, desenhistas, artistas do corpo e curiosos aguardando ser redirecionado para uma chamada de Zoom diferente das que normalmente acesso. A maioria de nós vem munida de cadernos, papéis avulsos, lápis e canetas não a fim de anotar um lembrete de aula ou uma pauta de trabalho, como costumeiramente se faz em reuniões nessa plataforma, mas, sim, de ter o desenho enquanto plano para esta noite.

Sei que algumas dessas pessoas que aguardam silenciosamente diante de suas telas frequentam o Risco!, grupo aberto de desenho e performance de modelo vivo, há muitos anos. Guardam lembranças de encontros na cidade do Recife desde quando o coletivo começou a encarar seus modelos como propositores, o que é algo diferente do que acontece tradicionalmente nessa prática artística, com corpos passivos à disposição do olhar e do traço de quem desenha.

Outras, como eu, se juntaram há menos tempo. No entanto, também se recordam de terem desenhado um sem-fim de figuras: paradas ou em movimento, sem roupa ou vestidas, sozinhas ou com um, dois, três acompanhantes, na época em que o grupo realizava seus encontros semanais em espaços da capital pernambucana, como o Sexto Andar do Edifício Pernambuco, e a MauMau Galeria — tudo antes da pandemia da Covid-19.

Nesse grupo diverso, há ainda quem sente um tipo estranho de frio na barriga ao estar diante do computador: algumas pessoas viram, na migração que o Risco! teve que fazer para o virtual, a possibilidade de participar de uma sessão pela primeira vez, mesmo estando longe de Recife.

Oficina de performance de modelo-vídeo com Vi Brasil, 2021. (Foto: Walton Ribeiro)

Nesse meio-tempo, imagino que Bruna Rafaella Ferrer, diretora artística e coordenadora pedagógica do grupo, deve estar trocando as últimas mensagens com Vi Brasil, modelo mais atuante do Risco! desde sua formação, e que estará performando neste encontro. Enquanto libera o acesso de todos nós, Bruna tamborila com os dedos na mesa num misto de empolgação e nervosismo: apesar de já ter cronometrado centenas de reuniões presenciais, a diretora sabe que desempenhar esse papel no digital pode reservar imprevistos. De imagens pixeladas a sons robóticos, as sessões de “modelo-vídeo”, como chamam os encontros virtuais que realizam, ainda são um terreno de relevos em reconhecimento.

De corpos no espaço a imagens bidimensionais
Engana-se quem pensa que o modelo-vídeo se resume a uma forma de contentar os participantes de um grupo que, desde 2013, realiza ininterruptamente atividades itinerantes. O que poderia aparentar ser uma compensação não tão eficaz de um funcionamento presencial, revelou-se como potente contexto de experimentação em rede.

Oficina de performance de modelo-vídeo com Vi Brasil, 2021. (Foto: Walton Ribeiro)

Lembro que o artista plástico Heitor Dutra foi um dos primeiros a testar a alternativa das poses on-line. “Não era uma dinâmica em 360o, onde as pessoas iriam ver um corpo no espaço, mas sim uma imagem bidimensional”, conta. Em meio a uma cena de praia tropical pintada por ele na parede de seu quarto, eu e dezenas de pessoas o observávamos ao som de uma playlist que ia de “Dream a A Little Dream”, de Laura Fygi, a descontraídas hulas havaianas.

O modelo-vídeo muniu os performers, dançarinos e atores do Risco! do controle sobre a sensação de proximidade e distanciamento que os desenhistas podem ter de partes específicas dos seus corpos, agora em perspectiva única. Foi o caso de Thango, artiste militante de gênero e sexualidade que, ao som de bregas recifenses, abriu suas pernas a menos de um palmo da webcam, oferecendo um ponto de vista impossível de ser alcançado em âmbito presencial por todos os desenhistas ao mesmo tempo. Tal nitidez da tela me desconcertou quando, para desenhar, observei os pelos e dobras de pele abaixo de sua minissaia cor-de-rosa.

De acordo com Bruna Rafaella, há um pensamento fílmico que atravessa as sessões de modelo-vídeo, pois, trata-se agora de som, luz, enquadramento e figurino, além de “escolhas a partir do que pode ser escondido e do que pode ser deslevado”. Esse ponto reverbera no que diz Iara Izidoro. A performer, artista visual e coreógrafa relatou que, na sessão que propôs com Lui Andrade, seu companheiro, “a intenção era confundir a sobreposição dos corpos, algo que só foi possível por conseguirmos limitar o que as pessoas estavam vendo”. Para tanto, os artistas fizeram uso de filtros de acetato e recursos de luz que turvaram as adjacências de seus corpos através de três diferentes câmeras, pelas quais nós, desenhistas, passeávamos durante o encontro.

Sessão de modelo-vídeo com Iara Izidoro e Lui Andrade
(retratado no registro), 2021. (Foto: Walton Ribeiro)

Em uma das propostas, Iara sugeriu que sua turma gravasse “videoposes” e as apresentasse no Risco!. O resultado foi uma sessão em que os modelos não estavam mais agindo em simultaneidade com os desenhistas que, de noite, produziam a partir de vídeos gravados à luz do dia. A essa atividade, sobrepôs a edição de cor, a distorção das formas e diferentes velocidades de reprodução, lidando com o vídeo enquanto recurso com problemáticas próprias. “Na minha sessão usei truques de cenografia. Foi a primeira vez que posei com roupa, já que tinha um sentido nisso: meu vestido balançava por conta de um ventilador escondido e meu cabelo, que estava preso em um nylon, parecia estar voando por conta da ação do vento”, explica. “A cena poderia ter sido criada presencialmente, mas a possibilidade de recortar o olhar só foi possível por causa do vídeo”, complementa. Nesse momento, uma das câmeras oferecia o dispositivo cênico aos desenhistas enquanto outra propositalmente destacava o fio transparente contra a luz, assim como o ventilador conectado à tomada do estúdio também denunciava o artifício.

Sessão de modelo-vídeo com Iara Izidoro (retratada no registro)
e Lui Andrade, 2021. (Foto: Walton Ribeiro)

Embora concorde com o fato de que a expressividade muscular de quem performa possa ser menos evidente nesta modalidade, Iara reitera a importância de aproveitar o que o novo suporte oferece: “Penso em como fazer isso sem ficar saudosa pelo presencial”, diz. Nesse sentido, o modelo-vídeo acontece como uma possibilidade outra: não substitui a atividade presencial da qual se desmembra, mas a conecta com novas experiências que, no Risco!, se renovam às segundas-feiras. “São práticas distintas com investigações também diferentes e que não se esgotam. Não é saudosismo, é modelo-vídeo.”, conclui Bruna Rafaella.

Sessão de modelo-vídeo com Heitor Dutra, 2020. (Captura de tela: Bruna Rafaella Ferrer)

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Guilherme Moraes é de Recife – PE. Licenciado em Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é editor e curador-educador da revista-espaço autônomo Propágulo, a partir da qual desenvolve pesquisas que atravessam a curadoria enquanto prática educativa e mediação cultural como espaço de reflexão crítica e poética.

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