Não se nasce mulher, torna-se*

O tema da seLecT #38 são as questões de gênero e como elas aparecem na produção intelectual e artística

Paula Alzugaray
A autora da imagem de capa da seLecT #38 é Rosa Luz, mulher trans, negra, pobre, performer, estudante de História da Arte e Youtuber, apresentadora do canal Barraco da Rosa. A obra fez parte da exposição Não Podemos Construir o que Não Podemos Imaginar Primeiro, curada por Jota Mombaça e Thiago de Paula Souza para o Paço das Artes, que ficou em cartaz no MIS-SP entre novembro de 2017 e janeiro de 2018.

Desde que abordamos os feminismos contemporâneos, na edição #28, em 2016, os debates sobre representação e identidade de gênero se radicalizam. A edição #38 surge em meio a uma intensa movimentação social de desmontagem da lógica binária que classifica as pessoas como homens ou mulheres, sem dar vez a outras singularidades, subjetividades e histórias. Atenção, atenção! O futuro do feminismo passa por questões de raça, classe e diversidade de gênero.

“Tecnologia sofisticada que fabrica corpos sexuais”, segundo o filósofo Paul B. Preciado (Manifesto Contrassexual, 2002), gênero – ou sua divisão entre masculino e feminino – funciona como um conjunto de papéis e práticas sexuais que acabam por assegurar a exploração material de um sexo sobre o outro. “Gênero é um conjunto de normas sociais que vão garantir ao macho a subserviência da fêmea”, diz a artista Aleta Valente a Márion Strecker, redatora-chefe de seLecT, no Portfólio.

É no sentido de desorientar, desobedecer e desestabilizar esse estado das coisas que atuam os artistas, coletivos, curadores, críticos, filósofos, pesquisadores, jornalistas, performers, ativistas transgênero, queer e feministas aqui reunidos. Corpos que desafiam o entendimento de gênero ramificam-se por estas páginas de forma rizomática. A começar por Preciado, autor do ensaio que atribui aos banheiros públicos a mais discreta e efetiva das “tecnologias de gênero”, especialmente traduzido para seLecT. Ao lado de Foucault, Derrida, Butler e Sedwigk, Preciado é bibliografia de referência na área. No Brasil, desponta Jota Mombaça, escritora e performer trans, com sua “desobediência de gênero” e envolvimento em estudos Cuir (queer). Autora da Curadoria desta edição, Mombaça reúne cinco artistas trans em torno de um “programa político dissidente”, em prol da subjetividade e do mistério.

Casos de abuso – confidenciados no Fogo Cruzado e na entrevista de Lola Arias, que acusa o diretor de The Square de autoritarismo, machismo e colonialismo – alternam-se com casos de amor – os duos artísticos Zackary e Rhys, Gilbert & George e EVA & ADELE, entrevistados pela repórter Luana Fortes. A edição conta ainda com projetos especiais do coletivo Mexa e da artista Josely Carvalho, que realiza uma intervenção olfativa sobre fotografia. Tudo isso (e mais Virginia de Medeiros, Trajal Harrell, Hilda Hilst, Sandra Izsadore etc.) faz desta seLecT uma experiência para todos os sentidos. E todos os corpos.

*Simone de Beauvoir, 1946

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