“Não vamos mudar o nome do Palácio dos Bandeirantes”

Ao anunciar novos museus para abrigar produção cultural de povos originários e comunidades das favelas, Doria recusa mudanças estruturais na narrativa hegemônica do Estado

Juliana Monachesi

Publicado em: 06/12/2021

Categoria: Crítica, Da Hora, Destaque

Coletiva Palácio dos Bandeirantes (Foto: Divulgação)

“Nós não vamos mudar o nome do Palácio dos Bandeirantes. Nós não vamos mudar o nome da Rodovia dos Bandeirantes. Não nos cabe julgar aqueles que aqui viveram no passado”, afirmou o governador do Estado, João Doria, em coletiva de imprensa que anunciou hoje pela manhã a criação do Museu das Culturas Indígenas e de dois outros novos equipamentos culturais na cidade de São Paulo, com inauguração prevista para 2022.

Dividindo a mesa com o secretário de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, o presidente do Conselho da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Eduardo Saron, a secretária de cultura municipal, Aline Torres, o presidente da Central Única das Favelas (CUFa), Preto Zezé, a liderança guarani da Terra Indígena Jaraguá Sonia Ara Mirim, o assessor do Secretário de Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo, Ivan Santos, e o curador dos três novos museus, Marcello Dantas, o governador frisou a valorização da cultura, do respeito e da inclusão ao anunciar a criação do Museu das Favelas, do Museu das Culturas Indígenas e a expansão do Museu da Diversidade Sexual.

O anúncio de um investimento de R$ 40 milhões para criação e expansão dos três equipamentos culturais foi marcado pela fala das lideranças já mencionadas, Preto Zezé e Sonia Ara Mirim, que destacaram a interlocução com o governo no processo de constituição dos dois novos museus, o que confere protagonismo às comunidades no agenciamento sobre suas próprias histórias e demandas. Para o curador Marcello Dantas, o conceito por trás das novas instituições, nas quais sua atuação é definida como a de um articulador apenas, uma vez que a gestão e curadoria dos espaços será realizada por pessoas provenientes das respectivas comunidades, é criar oportunidade e espaço para solidificar o pensamento e o conhecimento de e sobre essas comunidades, num lugar de visibilidade e inclusão.

Em entrevista à seLecT, Dantas afirmou a importância de olhar para o futuro e fomentar a criação contemporânea, em detrimento de qualquer revisão histórica. “O que é mais necessário no momento? Problematizar a história, que, claro, tem uma importância grande, ou tratar da potência da criação hoje?”, pergunta, afirmando em seguida que é mais adepto do museu temático e aberto aos protagonistas da atualidade do que de memoriais que revisem a história colonial. “Não é sobre culpa. É sobre potência”, resume.

Considerando que o campo da arte e da cultura é eminentemente um campo de luta simbólica, parece paradoxal um governo que apresenta projetos públicos em prol da pauta das políticas identitárias, sem contudo se posicionar acerca de uma dívida histórica com as populações minoritárias que foram e seguem sendo vítimas da violência e opressão do Estado. Fica evidente que, ainda que louváveis iniciativas de reconhecimento da diversidade étnica, social e de gênero estejam em curso por parte deste governo, não existe uma política pública interessada em modificar o status quo e operar uma transformação social que reveja criticamente o legado “(d)aqueles que aqui viveram no passado”.

No dia em que a sede do governo não ostentar mais o nome de um símbolo da história da opressão dos povos originários e que políticas públicas comecem a restituir aqueles que foram vitimados com políticas de guerra, extermínio e escravidão – por colonizadores, bandeirantes e, em continuidade, por uma elite que concentra riquezas em um país definido pelo abismo social – estaremos, talvez, em um estágio de inclusão que honre os verdadeiros heróis de uma história que ainda está para ser recontada.

Conheça a seguir, os detalhes da implementação de cada um dos museus, segundo o material de divulgação da Secretaria de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo:

Museu da Diversidade Sexual (Foto: Divulgação)

Museu da Diversidade Sexual
Criado em 2012, o museu localizado na estação República do metrô será ampliado, modernizado e receberá novos equipamentos, ampliando o potencial de frequência e os valores de legitimidade daquilo que representa e a quem se destina: a todos, e não apenas à comunidade LGBTQI+. O Museu da Diversidade Sexual receberá investimento de R$ 9 milhões para as obras de ampliação, que vão resultar em um espaço cinco vezes maior do que o atual. Com o projeto de extensão, a área na Estação República aumentará de 100 m² para 540 m², e o novo espaço subirá também para a superfície. A expansão permitirá a realização de exposições multimídia de longa duração, exposições temporárias e eventos. Terá um Centro de Referência, outro de Empreendedorismo, café e loja. O início da implantação será em janeiro e a inauguração está marcada para julho de 2022.

Museu das Favelas (Foto: Divulgação)

Museu das Favelas
O Museu das Favelas nasce com a missão de articular, preservar e comunicar as potências das favelas paulistas e brasileiras: histórias e memórias de resistência e resiliência das comunidades, patrimônios culturais, produções artísticas, intelectuais, tecnológicas e científicas. A unidade contará com a parceria da Central Única das Favelas (Cufa) e tem investimento previsto de R$ 15 milhões. Localizado no Palácio de Campos Elíseos, na região central de São Paulo, o equipamento contará com uma área de 8.208 m², que será dividida em espaços para exposição multimídia interativa de longa duração, exposições temporárias, Centro de Referência (biblioteca digital, auditório, pesquisas, estudos e conferências), Centro de Empreendedorismo (coworking, formação e capacitação, aceleração de startups), eventos, café e loja (para comércio de produtos produzidos pelos próprios colaboradores). A abertura será em junho de 2022.

Museu da Cultura Indígena (Foto: Divulgação)

Museu das Culturas Indígenas
Primeiro museu feito e conduzido por indígenas no estado de São Paulo, o Museu das Culturas Indígenas será uma vitrine da força criativa das comunidades. Instalado no Complexo Baby Barioni, ao lado do Parque Água da Branca, o edifício terá sete andares, com 200m² cada, totalizando 1.400m² de área total. Haverá espaço para exposições de longa e curta duração, centros de pesquisa e referência, auditório, administrativo e reserva técnica. Com investimento de R$ 14 milhões, o equipamento contará com a parceria do Instituto Maracá e de diversas lideranças indígenas, que estão participando de sua concepção e se manterão presentes após a inauguração. A abertura está programada para março de 2022, com uma exposição inaugural em homenagem a Jaider Esbell (1979-2021), artista brasileiro e ativista dos direitos indígenas, que foi destaque da 34ª Bienal de São Paulo e faleceu precocemente, aos 42 anos, no mês passado.

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