Nem só aqui, nem só agora

Na exposição Como Habitar o Presente?, artistas desafiam as noções de tempo e espaço

Nina Rahe

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: A Revista, Destaque, Vernissage

Sem Título (2014), da série Estranhamento, de Ursula Tautz (Foto: Cortesia da artista)

Em um trecho de Roteiro para um Filme Sem Imagens (2019), de Jonas Arrabal, ouvimos a seguinte sentença lida pelo artista Shinpei Takeda em japonês: “Esvaziar o mar. O personagem entra na água e retira uma pequena quantidade com um balde até um dia esvaziar por completo. Andar em terra firme.”
O vídeo de aproximadamente 15 minutos – sem nenhuma imagem, mas apenas narrações e suas respectivas legendas sobre a tela preta – ilustra bem o conceito da exposição Como Habitar o Presente?, da qual Arrabal participa ao lado de 26 artistas. Para a mostra, que acontece no site e na vitrine da Galeria Simone Cadinelli, no Rio de Janeiro, a ideia da curadora Érika Nascimento foi discutir, por meio de trabalhos audiovisuais, a dimensão do tempo em um momento em que o conceito aparece completamente dilatado – nesse período pandêmico, abordar a temporalidade implica lidar com uma série de utopias, como a expectativa de andar em terra firme depois de esvaziar o mar. “Queríamos projetar novos mundos possíveis nesta época em que um vírus afasta os nossos corpos e impõe limites e barreiras no cotidiano, evidenciando abismos já existentes”, diz a curadora da mostra, que foi dividida em dois atos: Ato 1 – É Tudo Nevoeiro Codificado, e Ato 2 – Estamos Aqui.
Os trabalhos selecionados exploram os desdobramentos do tempo em relação à memória de um certo passado, à atenção exigida neste turvo presente e à expectativa diante do futuro incerto, que não necessariamente vai se concretizar. Arrabal encontrou na Ilha do Japonês, uma ilha artificial criada na década de 1960 em Cabo Frio como base para barcos pesqueiros, o norte para desenvolver o trabalho apresentado na mostra. Nele, o artista cria uma fábula que tem como pano de fundo o resgate de sua própria história. “Minha família é de Cabo Frio, sempre observei essa ilha e tinha uma imagem quase como se ela pertencesse aos meus familiares”, diz Arrabal, cujo bisavô veio do Japão fugido da guerra, em uma trajetória “cheia de lacunas”.

O Fogo (2019), de Gabriela Noujaim (Foto: Cortesia da artista)

Voltar ao passado e problematizar o presente
Muitos vídeos de Como Habitar o Presente? partem em uma busca para recuperar a memória e se lançam na difícil tarefa de deslocar não apenas o tempo, como também o espaço – duas noções que, nesta pandemia, aparecem mais atreladas do que nunca. “Sempre pensei em como conseguiria deslocar essa ilha para o ambiente expositivo”, completa Arrabal. De modo similar, Ursula Tautz, no vídeo Sem Título (2014), da série Estranhamentos, refaz o caminho percorrido por sua família durante a guerra ao retornar à cidade polonesa Ołdrzychowice Kłodzkie, onde viveram seus ancestrais. Ao tentar reconstruir o passado e criar laços afetivos com seu “lugar de origem”, Tautz procurou inserir-se na paisagem e na arquitetura de uma época que já não existe e acabou, inclusive, sendo coagida por uma moradora que ameaçou chamar a polícia para tirá-la de lá. “Era uma cidade muito pobre e eu estava cheia de equipamentos”, diz a artista. “Acho que não fui expulsa pela moradora, mas pelo lugar, que não me pertence. E hoje esse passado se tornou duplo, já que não posso mais voltar ao tempo da minha avó e nem ao tempo dessa viagem.”
Diferentemente de Arrabal e Tautz, a artista Gabriela Noujaim procurou enfatizar apenas o tempo presente nas duas obras que expõe na mostra. Em O Fogo (2019), sua mão, que traz escrita a palavra amor, procura controlar a chama de uma vela, estabelecendo um jogo entre o tempo e a dor. “Queria abordar a falta de empatia entre as pessoas, a falta de amor, para problematizar o momento em que vivemos”, diz. Já em Mulheres Latinamerica 2020, trabalho que desenvolveu entre março e junho deste ano, a impressão é de que, contra a ausência de empatia, Noujaim criou por conta própria uma rede de afetos. Ela enviou pelo correio máscaras cirúrgicas com um mapa da América Latina para grupos de mulheres, entre profissionais da saúde, indígenas e vítimas de agressão. No vídeo, cerca de 15 aparecem vestindo as máscaras encaminhadas pela artista, que explora também o som da batida de um coração, o áudio da sua respiração e a projeção de uma radiografia de pulmão sobre seu corpo – o trabalho termina com todas as participantes ocupando um só quadro. “Essa ação atravessou a impossibilidade de contato físico”, diz Noujaim. “Quis problematizar o presente.”

 

  • Lapso (2017), da série Apagamento, de Leandra Espírito Santo (Foto: Cortesia da artista)
  • Embaixo da Escola (2020), de PV Dias (Foto: Cortesia do artista)

Legitimação e apagamento
Para problematizar a realidade em que estamos vivendo, inclusive, não poderiam faltar na seleção obras que discutissem o virtual. Os trabalhos É Tudo Stories/ Dark Social Feelings (2018-2010), de Aslan Cabral, que consiste em uma sequência de 28 stories do Instagram, e Embaixo da Escola (2020), de PV Dias, no qual um gif do artista é lançado no corredor de armários da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, discutem os espaços de representação e legitimação da arte. Já a obra Clarão (2017), de Leandra Espírito Santo, vê a presença na rede e os usos de recursos digitais como formas de apagamento. Nela, a artista cria uma sequência de imagens em stop motion, na qual seu rosto aparece encoberto por uma caixa de luz que, de tempos em tempos, é acesa – os lampejos são tão rápidos que não permitem que a imagem se fixe. “As redes sociais foram um motivador do pensamento desse trabalho, porque nelas as expressões são sempre padronizadas e você se depara com um indivíduo que não consegue perceber de verdade”, diz Espírito Santo, que explora a representação a partir das possibilidades de revelar ou ocultar algo.
O projeto da mostra, de acordo com Érika Nascimento, surgiu da necessidade de testar novas possibilidades de exposição. Enquanto o site permitiu o acesso a uma quantidade mais ampla de pessoas, a vitrine tornou-se uma janela para outro tipo de público, os transeuntes da Rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema, que não estão, necessariamente, habituados a galerias e exposições de arte. 

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