Nem tudo que reluz é ouro

A semiótica é o idioma comum entre arte e criminalística, em mostra sobre violência na América Latina

Paula Alzugaray

N° Edição: 30

Publicado em: 08/07/2016

Categoria: A Revista, Review

Frame do vídeo Retouch (2008), de Iván Argote, em exibição em escola de direito penal, em NY (Foto: Cortesia Galeria Vermelho)

Como representar a violência sem estetizá-la até o nível da banalidade? Feita por uma estudante de criminalística do John Jay College, a pergunta foi dirigida para o fotógrafo venezuelano Juan Toro, que desde 2008 orienta seu trabalho a documentar a violência e suas consequências. Ele apresentava no simpósio Art and Violence in Latinamerica Today, realizado na mais conceituada escola de direito penal de Nova York, em maio, as bases de seu trabalho na série Plomos (2011-2012). Nessas fotografias, o artista coloca uma lente de aumento sobre objetos brilhantes que, a princípio, parecem esculturas de bronze, mas que na realidade são vestígios de munição, deformados pela violência do impacto. Inevitável, a pergunta da aluna já havia sido prevista pelas curadoras Claudia Calirman e Isabela Villanueva, que organizaram o simpósio e a exposição Basta!, em cartaz na Anita and Andrew Shiva Gallery, no mesmo John Jay College. Parte dos 15 artistas convidados lida com astúcia com o dilema proposto: como se reportar visualmente a toda violência que está aquém das aparências.

Ainda que dura e formalmente objetiva, a imagem produzida por Juan Toro é suficientemente ambígua para não ser interpretada como mera representação “pornográfica” (porque explícita) da miséria. Como Toro, a mexicana Teresa Margolles lida com evidências dissimuladas dos fatos reais. No vídeo Irrigación (2010), sua câmera persegue um caminhão-pipa em movimento em uma estrada de asfalto escaldante, em um deserto. O que vemos molhar a pista é água, porém, imperceptível a olho nu, ela contém uma mistura de materiais necrológicos de vítimas anônimas, coletado em cenas de crimes.

Toro e Margolles lidam com índices – vestígios materiais – da violência, enquanto Regina José Galindo opera na esfera simbólica, criando metáforas visuais. Como em Combustible (2014), performance realizada em Santo Domingo, na República Dominicana, em que oito homens de origem haitiana empurram um carro oficial ao longo de uma avenida, em uma demonstração do poder dos imigrantes como motor das sociedades ocidentais.

Villanueva coloca em seu texto curatorial que não há nada de fundamentalmente novo na abordagem da violência e da transgressão pelas artes. Mas, o que esse projeto aporta de novo é estar situado não em uma galeria de arte, e sim em uma escola de criminalística. Esse dado é crucial para que os artistas sejam compelidos a responder sobre os fatos observados em suas cidades latino-americanas de forma a superar o comentário visual – que tende a ser estetizante.

Se operam com vestígios (índices) e metáforas (símbolos), esses trabalhos sintetizam “uma poética das sobras e uma política do indicial”, como definiu o teórico argentino Gustavo Buntinx, no seminário. Para completar a tríade semiótica – o icônico, o indicial e o simbólico –, o colombiano Iván Argote desafia um ícone, um cânone da arte. Seu vídeo Retouch (2008) documenta o ato em que ele picha telas de Mondrian expostas em um museu. Se a realidade corresponde ao modo como as coisas são expostas, cabe ao espectador investigar.

Serviço
Basta! An Exhibition About Art And Violence in Latinamerica
Anita and Andrew Shiva Gallery
John Jay College, Nova York
Até 15/7

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