Neve em Jacarepaguá

Filme Soundtrack, de 300ml, chega aos cinemas com alta qualidade técnica e trama singular

Ana Abril
Frame de Soundtrack (2017), dirigido por 300ml (Foto: Reprodução)

Aquarius (2016), Tropa de Elite (2007), Cidade de Deus (2002) e Central do Brasil (1998) são alguns dos filmes brasileiros que, por receberem prêmios internacionais ou por serem campeões de bilheteria, tiveram sucesso internacional. Esses longas têm em comum o fato de retratar uma realidade brasileira, como a especulação imobiliária ou conflitos nas favelas. Mas e se o próximo êxito brasileiro no exterior for filmado em um estúdio em Jacarepaguá (RJ) com três toneladas de neve artificial e conta uma história que se acontece na Antártida? Pela extrema qualidade técnica, por ser falado em inglês 90% do tempo e, claro, pela fascinante trama e pelos vigorosos diálogos, Soundtrack (2017) desponta como forte candidato. O longa-metragem chega aos cinemas brasileiros em 6/7 (quinta-feira).

Sob a direção de 300ml, codinome da dupla formada por Manitou Felipe e Bernardo Moura, Selton Mello interpreta Cris, um artista brasileiro que ganha um edital para desenvolver seu trabalho em uma estação de pesquisa científica. No inóspito local, Cris terá que conviver com o inglês Mark (Ralph Ineson), seu companheiro de alojamento, com o chinês Huang (Thomas Chaanhing), com o médico dinamarquês Rafnar (Lukas Loughan) e com seu conterrâneo, Cao (Seu Jorge). Entre esses personagens, dedicados à investigação científica, Cris é a ovelha negra incompreendida e, muitas vezes, desprezada.

Durante os 112 minutos de filme que abrigam o embate entre ciência e arte, acontecem cenas que revelam o entendimento ou a admiração entre ambas áreas. Por um lado, os cientistas, e especialmente Mark, topam e se encantam pela sutileza e importância da arte. Por outro lado, Cris entende a dedicação que supõe trabalhar por algo cujos resultados e créditos só chegarão dezenas de anos depois. A sagacidade com que esses momentos acontecem vem acompanhada de emoção e humor, o que supõe um agradável respiro dentro desse drama existencial. Contudo, os momentos de crise são humanizados, e não dramatizados, com a atuação de Mello e com a música, que curiosamente já existia antes do filme, ou seja, não há trilha sonora original. Foram 2 anos de negociações e espera para conseguir todos os direitos autorais das músicas.

Em relação à imagem, Soundtrack é um filme sensorial no qual o espectador incorpora a claustrofobia e a sensação de perigo da branca e nebulosa Antártida. Provavelmente, o maior problema da produção, especialmente para os leigos do universo da arte, seja carregar alguns estereótipos, como o de artista egocêntrico, incompreendido, introspectivo e à procura do êxito no mercado da arte. Muitos desses clichês são fulminantemente destruídos durante a trama, enquanto outros, especialmente o do artista louco, permanece até o final.

Outro aspecto interessante de Soundtrack é o fato de ser um produto crossmedia. Ou seja, além de poder assistir o filme na tela grande, o espectador tem a possibilidade de continuar no gélido universo de Cris graças à exposição de mesmo nome, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Na mostra, o trabalho feito na ficção pelo Cris -umas selfies na Antártida enquanto escuta um conjunto de músicas pré-selecionadas-, foi realmente realizado por Oscar Metsavaht, artista e fundador e diretor artístico da Osklen. Não fosse o bastante, a marca lançou uma coleção especial de quatro camisetas desenvolvidas a partir dos elementos audiovisuais do filme.

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