No corre da poesia

Poéticas de resistência se reciclam e ressignificam em concerto e nas jams digitais do PoemaCombate

Paula Alzugaray

N° Edição: 53

Publicado em: 12/05/2022

Categoria: A Revista, Destaque, música

Montagem de Mauro Dahmer com frames de vídeos

“A cama é o lugar mais livre da América do Sul.” O poeta Ian Uviedo articula em palavras o que se projeta aos olhos do público no show do PoemaCombate, numa noite quente de fevereiro de 2022, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. O palco, que nessa noite é o lugar mais livre da América do Sul, é também a cama onde se encontram três músicos e seis poetas para fazer política no calor da hora e falar de flores.

Do combate silenciado, abafado em metáforas, da música popular brasileira sob a ditadura militar, até as batalhas de poesia slam dos anos 2000, o mundo mudou, mas não mudou. A história se repete, como tragédia ou como farsa. Direitos humanos e ambientais seguem represados, mas a poesia corre com mais liberdade pelos espaços da vida desde que os artistas do slam passaram a declamar nas ruas as dores do mundo. No PoemaCombate, a poesia venta em qualquer direção, atravessa o slam, o rock’n’roll, o rap freestyle, sonoridades brasileiras, percussivas, a literatura e as artes audiovisuais. PoemaCombate é o trio musical formado por Taciana Barros, Mauro Garcia Dahmer e João Parahyba (lenda viva, se apresentou com Clementina de Jesus e com Cartola e inventou um jeito novo de tocar timba, que deu no samba-rock) e os poetas Max B.O, Preta Ferreira, Ian Uviedo, Natalia Barros, Marcelo Rubens Paiva e Paulo Scott. Canções originais, clássicas e de lutas pelos direitos civis fazem a cama para a declamação de poemas e crônicas, numa espécie de slam com acompanhamento musical. Em choques de mundos compatíveis, porém diversos, eles produzem experimentos estético-políticos integrados.

Preta Ferreira, artista e ativista pelo direito à moradia no MSTC e atuante em projetos socioeducativos na Ocupação 9 de Julho, tira forças do além e transforma dor em amor, sobre acordes do clássico revisitado Nada Será como Antes, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. O escritor Paulo Scott faz a crônica da violência de cada dia, evocando Moïse Kabagambe, o imigrante congolês brutalmente assassinato dias antes.

O rapper e repórter Max B.O. atravessa com metas, guias e setas O Algoz, de Taciana e Dahmer. Natalia Barros profere “palavras impróprias, palavras vulgares, palavras espetaculares, palavras de fronteira” sobre versão de The House of the Rising Sun. “Palavras são navalhas”, diz a letra original de Taciana Barros, em batalha com o pandeiro de Parahyba e os versos raivosos de Ian Uviedo contra e a favor de tudo o que ainda existe. Palcos, salas de concerto e de leitura, salões de dança, armazéns, greves e festas são espaços potenciais para revoluções do pensamento; celeiros de germinação de novas ideias, de formação de corpos políticos. O Poema-Combate fomenta esse lugar. Quando foi decretada a pandemia e seu trabalho coletivo em estágio inicial teve de ser transferido para as redes, o grupo reinventou seus encontros em jams digitais, lives e videopoemas editados por Mauro Garcia Dahmer (a.k.a El Brujo Garcia), no escopo de seu projeto https://punkjazz.tv/. A cargo da composição gráfica dos flyers e vídeos, Taciana Barros agrega ao projeto as potências da poesia visual e da gráfica de protesto. Precisamos ler, diz Marcelo Rubens Paiva, enquanto pedras flutuam no céu do Sesc Belenzinho. Transformando o palco em sala de leitura subversiva, o PoemaCombate abre com vigor os trabalhos de uma elaboração coletiva desobediente.

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