No reino das clonebridades

Nina Gazire

Publicado em: 30/09/2011

Categoria: Reportagem

Com o You Tube e redes digitais todo mundo pode ter mais de 15 min de fama

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A internet é a nova rota para a calçada da fama. Tudo que estava relegado às margens da televisão, um dia poder absolutista da mídia, surge pela luz dos monitores de centenas de milhões de computadores. No mundo do YouTube, qualquer um pode ser catapultado por um simples upload. Lá, os imitadores que antes povoavam o reino da TV como covers criam um novo jeito de aparecer, tornando-se verdadeiros clones. Sim, os programas de auditório televisivos continuam existindo, mas os reis da televisão não são mais as únicas autoridades no jogo dos holofotes que determina a projeção dos ídolos pop. É a internet, com seus memes e virais, que dita boa parte das atrações desses programas. Conheça três histórias de sucesso da emergente era das clonebridades:

Era uma vez…

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Gizele Silveira – Madonninha Capixaba (à dir. ) No Orkut, possui uma comunidade com 900 fãs. O vídeo de uma apresentação sua cantando Como Uma Virgem (Like a Virgin) em um clube tem 36 mil visualizações no YouTube

Um lugar muito distante, onde se tornar famoso era muito difícil. No reino da televisão, Chacrinha era o rei dos auditórios e anunciava duas possibilidades para se chegar aos 15 minutos de fama: “Vai para o trono ou não vai?” E quem nunca quis ser Madonna que atire o controle remoto pela janela! Em 1995, a mineira Gizele Silveira, então com 9 anos e vivendo em Vitória, no Espírito Santo, assistiu a uma reportagem no programa Fantástico, da Rede Globo, que mudou sua vida para sempre. O assunto era Madonna e seu disco Bedtime Stories. Gizele ficou fascinada e decidiu inspirar-se na cantora para vencer uma doença que a impedia de andar. “Quando assisti à reportagem, senti vontade de ser como ela e isso me deu forças para melhorar”, conta. Sem falar inglês, começou a adaptar melodias de músicas como Papa Don’t Preach e Like a Virgin para letras em português como forma de terapia.

Em 2002, seu ex-professor de inglês resolveu jogar na rede um CD com as versões em português que ela fizera. Rapidamente as músicas se espalharam pelas caixas de e-mails e comunidades virtuais. A fama chegou quando já era adolescente e estava recuperada da doença. Gizele ficou então conhecida como a Madonninha Capixaba, fez shows e apareceu em programas de auditório. Hoje, vive e trabalha no Rio de Janeiro, mas garante que já está longe do personagem que criou. “As pessoas me chamam para cantar, mas eu não faço mais isso. Foi tudo brincadeira”, jura.

A rainha dos clones

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Carolina Kuhn – Lady Gagaúcha (no alto) Na época da criação do personagem, em 2010, foram ativados perfis no Twitter, no Facebook e um blog, que hoje estão fora de atividade. No Twitter ela tem 600 seguidores. No YouTube, o vídeo Porto Alegre É Demais tem 100 mil visualizações

A rainha dos clones 73 Uma rainha dá à luz seus clones monstruosos como se fosse a líder de uma colônia de insetos. Seus filhos serão eternos devedores de uma genitora que mantém sua soberania no império do entretenimento.Tudo graças à era dos remixes e apropriações artísticas tão infinitas quanto sua própria prole. Pelo menos é essa a história que Lady Gaga parece nos contar no videoclipe da música Born This Way, que tem roteiro assinado por ela mesma. Lady Grávida, Lady Gagita e Lady Goga são alguns de seus clones que encontramos no YouTube.

Entre os exemplos brasileiros mais famosos está a paródia criada por um grupo de estudantes da faculdade ESPM de Porto Alegre. Em junho de 2010, eles fizeram um trabalho para uma disciplina que tinha como meta a criação de um vídeo viral na internet. Porto Alegre É Demais, nome do projeto, pretendia ser uma propaganda de divulgação das atrações turísticas da capital gaúcha. A personagem principal da campanha era Lady Gagaúcha, interpretada pela estudante Carolina Kuhn. Vestida como Lady Gaga, ela dublava a música Porto Alegre É Demais, da compositora Isabela Fogaça, que teve a letra adaptada para a melodia de Bad Romance, hit da rainha dos clones.

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A modelo Bia Motta já perdeu a conta de quantos trabalhos fez como clone de Lady Gaga

Além de criar o vídeo, os alunos mantiveram a personagem ativa através de um blog, no Twitter e no Facebook. “As pessoas começaram a achar que eu era cover da Lady Gaga. Me chamavam para ir a programas de televisão, mas nem cantora sou”, relembra Kuhn, que dublou uma cantora  profissional especialmente contratada para interpretar o jingle. A estudante, que está terminando o curso de publicidade, jura que nunca quis ser famosa. “Só topei fazer o personagem porque eu estava loira e a Lady Gaga, também.” Diferentemente de Carolina, a bailarina Bia Motta, uma das modelos que estampam a capa de Select, resolveu fazer da semelhança física com Lady Gaga o seu ganha-pão. Ao realizar uma performance em uma festa, um agente de modelos notou sua semelhança e a convidou para fazer uma imitação de Lady Gaga em um evento. “Desde então, já perdi a conta de quantos trabalhos tenho feito imitando a Lady Gaga”, diz Bia, que também trabalha como professora de dança.

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Gaby Amarantos – Rainha do Tecnobrega, também conhecida como Beyoncé do Pará, diz que sua rede social preferida é o Twitter, onde possui mais de 7 mil seguidores. No YouTube, seu vídeo de aparição no programa Domingão do Faustão tem 66 mil visualizações

A cantora Gaby Amarantos, musa do tecnobrega, nunca quis ser a Beyoncé do Pará. Mas uma força maior do que ela mesma a empurrou para esse destino. Tudo começou no festival pernambucano Rec Beat, em fevereiro de 2010. Em seu show, Gaby vestia uma roupa parecida com a da cantora americana. Por um problema com o instrumento de seu tecladista, decidiu cantar uma versão do hit Single Ladies em português, chamado Hoje Eu Tô Solteira, já conhecido pela interpretação do grupo Aviões do Forró. “Na plateia tinha um produtor do Faustão que vendeu a ideia de uma apresentação para o programa, como se eu fosse uma Beyoncé do Pará”, diz Amarantos, que já possuía uma sólida carreira de 15 anos.

Além disso, seus vídeos interpretando a música tornaram-se virais assistidos por milhares no YouTube e esse fato coincidiu com a sua aparição em programas de TVs “Quando apareci para me apresentar nos programas de TV, as pessoas achavam que eu era um mero cover, mas, quando conheciam meu trabalho anterior, ficavam surpresas”, conta. Hoje Gaby Amarantos é famosa fora do circuito brega de Belém do Pará e há um tempo sua imagem está desvinculada da de Beyoncé. “Foi minha oportunidade quando topei me apresentar as primeiras vezes como se fosse uma Beyoncé brasileira”, explica.

Já sobre a comparação com estrelas internacionais, ela afirma que é um hábito meio equivocado. “A gente olha o figurino da Lady Gaga ou da Beyoncé e pensa, a gente já tem o Ney Matogrosso, mas prevalece a referência de fora.” Além de ser uma militante da música paraense, Gaby reforça a importância da cultura digital em sua produção. “O tecnobrega deve a sua construção aos meios digitais, às cópias, aos remixes e samplers. Não importa se sou Beyoncé ou Lady Gaga. O negócio é que qualquer mistura aqui é bem-vinda”, diz a cantora, para quem a originalidade também é feita de cópias bem elaboradas.

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