No tremor do mundo, no calor da hora

Livro interdisciplinar organizado por Luisa Duarte e Victor Gorgulho reúne ensaios e entrevistas sobre a complexidade do mundo pandêmico

Leandro Muniz

Publicado em: ANO 10, Nº 49, Jan/Fev/Mar 2021

Categoria: Crítica, Destaque, Review

No Tremor do Mundo (Foto: Divulgação)

Pouco tempo depois de oficializada a pandemia da Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde, a compilação Sopa de Wuhan reunia textos escritos por autores como Paul B. Preciado e Giorgio Agamben entre fevereiro e março de 2020. Com projeto editorial do Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio (Aspo), o PDF circula desde abril com análises, discussões filosóficas e prospecções sobre os impactos da pandemia na vida. Entre acertos e erros, eram projeções feitas no calor da hora.

No Tremor do Mundo (Foto: Divulgação)

Entre abril e outubro de 2020, os curadores Luisa Duarte e Victor Gorgulho trabalharam nessa mesma chave, produzindo uma compilação de ensaios de autores brasileiros de diversos campos do conhecimento, do jornalismo à filosofia. Apenas um estrangeiro integra o projeto – Franco “Bifo” Berardi, entrevistado pelos curadores. Os sete meses de construção do livro são perceptíveis nos textos produzidos em diferentes momentos da pandemia, imprimindo o crescimento do número de mortes, de adoecimento psíquico e de escândalos políticos.

Nesse sentido, o avanço de No Tremor do Mundo em relação a Sopa de Wuhan é justamente o processamento de experiências concretas de lida com a pandemia depois do assombro inicial, assimilando iniciativas de combate e prevenção ao vírus e, especialmente, de organização social. As discussões sobre problemas específicos surgidos no contexto pandêmico – como o aumento da violência doméstica, concentração econômica, o debate sobre renda básica etc. – carregam muito mais vitalidade do que aqueles ensaios em que os autores repetem e aplicam seus próprios conceitos, ainda em uma dimensão abstrata.

A entrevista com Eliana Sousa Silva, fundadora e diretora da Associação Redes de Desenvolvimento da Maré, mostra as ações concretas daquela comunidade, desamparada pelo Estado. A partir desse caso específico, é possível compreender problemas estruturais de desigualdade, falta de acesso à informação, racismo, violência e descaso político que vivemos hoje no Brasil.

No ensaio A Política como Show de Celebridades – Desafios do Jornalismo em um Brasil Pandêmico, a jornalista Fabiana Moraes questiona o fato de o jornalismo, em sua suposta neutralidade, não ter nomeado as atrocidades de Bolsonaro durante a campanha eleitoral, colocando-o apenas como “polêmico” ou “controverso”. A partir disso, Moraes analisa os impactos concretos da atividade presidencial em relação à pandemia, bem como problemas estruturais da produção e da circulação da informação no período.

Também se sobressaem como preocupações centrais o fim do capitalismo e do mundo, os limites de nossa imaginação política e os impactos da internet – além do contexto atual em si. “É como se a pandemia do novo coronavírus estivesse sendo acompanhada por outra pandemia, espero que benéfica, de textos sobre o novo coronavírus”, escreve o professor Pedro Duarte em sua análise da produção filosófica sobre o assunto.

O fim do livro surpreende, mostrando como as intervenções poéticas e literárias podem aliviar a tensão, dando vasão às sensações. Marcio Abreu tematiza as conversas de Zoom e WhatsApp em um texto híbrido e sincopado e Noemi Jaffe fala da quarentena infinita, comparando-a com a que sua mãe viveu na Europa, 75 anos atrás. Um texto dialético, que em sua sobriedade e franqueza busca uma elaboração do luto. Experiência que todos estamos vivendo.

Praça fechada pela pandemia da Covid-19 (Foto: Creative Commons)

O trânsito entre análises sociológicas, textos jornalísticos, históricos, literários e filosóficos mostra como as diversas abordagens metodológicas refletem a complexidade do momento. Mas chama atenção a pouca presença de textos psicanalíticos – embora um conceito ou outro seja usado de forma instrumental pelos autores, apenas Christian Dunker comparece com Uma Memória do Futuro Anterior – e a limitada contribuição de artistas e outros agentes desse campo. Especialmente tratando-se de um livro organizado por curadores especializados na produção de exposições e pesquisas em arte. Uma questão editorial? Um reflexo de como a arte tem reagido ao problema da pandemia? Provavelmente, os dois.

Claro que não se trata de exigir um imediatismo na formulação de respostas. Talvez os efeitos da experiência do isolamento social e do luto coletivo – pelos mortos da Covid, pela democracia em colapso, pelo fortalecimento de dinâmicas neoliberais e o consequente enfraquecimento do espaço público – só sejam percebidos nas obras a posteriori, lançando luz sobre pontos que talvez ainda não possamos ver hoje.

No Tremor do Mundo pode ser visto como um sismógrafo. Junto a outras iniciativas como Pandemia Crítica, Dossiê Coronavírus e o próprio Sopa de Wuhan, compõe uma história não apenas da pandemia, mas também do pensamento produzido a partir dessa tragédia.

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