Nona Faustine: a América também é aqui

Artista do Brooklyn questiona a história de NY, a omissão de artistas afro-americanas na arte e o branqueamento imposto ao corpo negro pelo patriarcado

Claudia Calirman, de Nova York
Like A Pregnant Corpse The Ship Expelled Her Into The Patriarchy (2012), de Nona Faustine (Fotos: Cortesia da Artista)

Não é nenhum segredo que os nova-iorquinos veem o resto da América com desprezo. O Estado sempre foi democrata, orgulha-se por detestar Donald Trump e seus residentes consideram que vivem em Nova York e nāo nos Estados Unidos. Apesar da fama de ser um caldeirão cultural, com uma população diversa e cosmopolita, as fotografias da norte-americana Nona Faustine apontam para uma Nova York desconhecida pela maior parte de seus habitantes: um lugar que se desenvolveu economicamente graças ao trabalho escravo no período colonial.

Nascida no Brooklyn no fim dos anos 1970, Faustine concluiu o mestrado em artes em 2013 no prestigiado Centro Internacional de Fotografia (International Center for Photography) do Bard College. Um ano antes de se graduar, ela começou a série de fotografias White Shoes (Sapatos Brancos) em que confronta uma história esquecida de Nova York, colocando em evidência lugares que, apesar de não terem nenhum sinal aparente, são marcados por um passado escravocrata. A partir de uma intensa pesquisa que resulta em autorretratos, Faustine questiona a história da cidade, além do branqueamento imposto ao corpo negro pelo patriarcado e a omissão de artistas afro-americanas na arte.

Por meio de uma elaborada construção de imagens, Faustine posa nua em seus autorretratos, em geral apenas calçando sapatos de salto alto brancos. Apesar de sucinta, a iconografia das fotos é extremamente potente. A nudez é uma alusão à forma como os escravos eram expostos, despidos de dignidade. “O que os escravos tinham para oferecer? O corpo como mercadoria de trabalho”, diz a artista à seLecT.

O sapato branco sugere a imagem da mulher sensual desejada, em referência ao poder patriarcal sobre o corpo feminino. A cor simboliza a dominação e a colonização forçada nos corpos dos negros e a consequente internalização do processo de branqueamento, um tema abordado pela feminista e ativista afro-americana bell hooks (que prefere ter seu pseudônimo escrito em letras minúsculas).

Over My Dead Body (2013), de Nona Faustine

 

De acordo com hooks, a cultura visual traz um bombardeio constante de imagens que reforçam e reinscrevem a supremacia branca. “Nossas mentes precisam ser descolonizadas para podermos falar de nossas experiências. Sem poder dar nome à nossa dor, também não podemos nomear o nosso prazer”, afirma hooks, no livro Black Looks: Race and Representation (1992). Para a escritora, a luta pela liberação dos negros requer a reconfiguração da representação dos mesmos, apontando para uma das questões centrais do trabalho de Faustine.

Crítica ao colonialismo
Nona Faustine reivindica a inclusão do corpo da mulher negra na história da arte não como objeto sexual, exótico ou marginal, mas como uma forma de repensar relações de poder. Ela confronta o público com o estigma atrelado ao corpo feminino fora dos padrões convencionais da cultura hegemônica ocidental, causando choque e desconforto. Desde os tempos clássicos, o corpo feminino ideal foi atrelado à imagem da mulher branca e jovem, através de figuras alegóricas como a santa Madonna ou a Vênus divina. O historiador da arte Kenneth Clark faz uma distinção sutil, mas significante, entre o “nu” (nude) e o “pelado” (naked). Segundo Clark, o “nu” é um conceito produzido pela cultura através da arte, enquanto o “pelado” é apenas um corpo despido de roupas. Enquanto o pelado é visto como vulgar, o nu artístico sempre foi associado à noção do belo. O nu gera comentários de apreciação estética, enquanto o pelado provoca vergonha e constrangimento.

Venus of Vlacke Bos (2012), de Nona Faustine

Faustine ironiza as regras da beleza ideal ao afirmar e celebrar seu corpo nu (e não pelado). No autorretrato Venus of Vlacke Bos (Vênus de Vlacke Bos) (2012), da série White Shoes, ela posa nua olhando diretamente para a câmera, sentada em um banco coberto por um pano de cetim azul-royal apenas vestindo luvas, sapatos brancos e uma tiara de princesa, em uma crítica mordaz ao colonialismo. Faustine não vê seu trabalho como performance, mas como uma autobiografia fotográfica. Ela trabalha na intersecionalidade de sua condição como mulher de ascendência afro-americana, usando um termo cunhado pela teórica Kimberlé Crenshaw, em 1989, para argumentar que uma pessoa sujeita a diversos níveis de subordinação é oprimida múltiplas vezes. Em Demarginalizing the Intersection of Race and Sex (1989), Crenshaw alega que diferentes formas de discriminação (seja racismo, sexismo, sexualidade ou classe) acarretam uma vivência de dominação multidimensional. Em outras palavras, em se tratando de formas cumulativas de opressão, o todo é sempre maior do que a soma das partes.

Em Over My Dead Body (Sobre o Meu Cadáver) (2013), uma das imagens mais contundentes da série White Shoes, Faustine posa nua, apenas com os sapatos brancos, segurando um par de correntes na mão esquerda. Ela está de costas para a câmera subindo a escadaria do Tweed Courthouse (o antigo Fórum de Justiça de Nova York), ao sul de Manhattan. O palácio foi construído em cima do maior cemitério de descendentes africanos que existiu durante o período colonial nos Estados Unidos. O cemitério funcionou entre 1630 e 1795 e estima-se que mais de 15 mil descendentes de africanos foram enterrados ali. As ossadas só foram descobertas durante escavações arqueológicas feitas no local em 1991.

From Her Body Sprang Their Greatest Wealth (2013), de Nona Faustine

 

Em Like a Pregnant Corpse The Ship Expelled Her Into The Patriarchy (Como o Cadáver de uma Grávida o Navio a Expeliu para Dentro do Patriarcado) (2012), Faustine está deitada nua sobre pedras na costa marítima do Brooklyn, como se tivesse sido expelida de um dos navios negreiros que desembarcavam no mesmo local durante a travessia transatlântica de escravos. A imagem remete ao corpo da mulher negra sexualmente violentada e abandonada por seus donos.

Na linha de fogo
Na exposição Histórias Afro-Atlânticas, no Instituto Tomie Ohtake e no Museu de Arte de São Paulo (Masp), com curadoria de Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz e outros, Faustine apresenta o autorretrato intitulado From Her Body Sprang Their Greatest Wealth (De Seu Corpo Saiu a Maior Riqueza Deles) (2013). Nele, a artista posa novamente nua com os sapatos brancos, de frente para a câmera, de pé em cima de uma caixa de madeira em Wall Street, onde durante a era colonial existiu um mercado de escravos. Ao fundo se vê um táxi amarelo, um ícone de Manhattan. As mãos dela estão entrelaçadas em frente ao corpo, abaixo dos seios com correntes atreladas aos pulsos. O corpo de Faustine descoberto, sozinho e vulnerável no centro do maior símbolo do poder financeiro internacional causa estranhamento. A ação tem de ser rápida, uma vez que ficar completamente nu em lugar público em Nova York é proibido por ser considerado ato de desobediência civil. “É preciso se arriscar, colocar o próprio corpo na linha de fogo, senão as cicatrizes são facilmente esquecidas”, afirma a artista. A foto de Faustine nos obriga a lembrar que a parede de Wall Street foi construída por escravos para proteger a cidade contra possíveis invasões.

Lobbying the Gods for A Miracle (2016), de Nona Faustine

 

Na foto Lobbying the Gods for A Miracle (Apelando aos Deuses por um Milagre), parte de um tríptico (2016), Nona Faustine assume o papel de uma escrava fugitiva da Lefferts House, uma casa colonial no Brooklyn construída por holandeses em 1783. Hoje um museu, o lugar pertenceu a um dos maiores donos de escravos da região. Na neve, segurando uma arma na māo, Faustine apoia-se em uma árvore, esperando a chegada de seus captores. Diferente dos outros autorretratos da série White Shoes, nessa foto ela veste uma saia branca longa. A adição da peça de vestuário é uma forma de devolver dignidade aos escravos. Os sapatos brancos infantis, amarrados na cintura, simbolizam as crianças que eram geradas para ser vendidas.

Desafiadores e corajosos, os autorretratos de Faustine são uma manifestação política contra a violência racial, o patriarcado e a exclusão de corpos dissidentes, como o dela, da narrativa hegemônica da história da arte. As fotografias se sobressaem pela ousadia da forma como questionam políticas identitárias e raciais. Diante do processo de globalização, onde cada vez mais a arte se apresenta com uma linguagem homogênea, é sempre estimulante encontrar os trabalhos de Faustine. As imagens poderosas da artista saltam aos olhos, impossibilitando uma contemplação letárgica sobre elas. 

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