Notas para a reconstrução de um elo perdido

Os fios que conectam o Balé Literal de Laura Lima com o Bailado do Deus Morto de Flávio de Carvalho

Paula Alzugaray
Bailado do Deus Morto, peça de Flavio de Carvalho encenada pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, na abertura da exposição Flávio de Carvalho: O Antropófago Ideal (Foto: Denise Andrade)

O Teatro da Experiência pode ser lido na chave das Experiências (nº 2, nº 3 e nº 4) formatadas por Flávio de Carvalho entre os anos 1930 e 1950, para investigar aspectos da evolução humana e social. Definido (em texto publicado pelo autor na Folha da Noite de 11/11/33) como “um centro de observação e de pesquisas para criar coisas novas”, o Teatro da Experiência foi inaugurado em 15 de novembro de 1933 com a peça O Bailado do Deus Morto, escrita e dirigida pelo artista. O Bailado e o Teatro se confundem, podendo ser lidos como uma entidade única, que se pretendia livre e revolucionária, buscando não a representação da vida, mas uma intervenção literal no mundo. “Queremos demolir os velhos deuses, construindo uma nova estrutura idealística”, escreveu Flávio de Carvalho.

Ainda segundo o texto, o Bailado localiza a origem animal da ideia de Deus em um monstro mitológico que pastava entre as feras do mato. A peça teve trecho reencenado pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, na inauguração da exposição O Antropófago Ideal, curadoria de Kiki Mazzuccheli na Galeria Almeida e Dale, em São Paulo, em 17/8.

O protagonista, com inevitável associação ao Minotauro, é um homem com cabeça de touro, cercado por um coro de mulheres. Todos mascarados com capacetes de metal, construídos pelo artista. Em uma vertiginosa arremetida espaço-temporal, os fios do labirinto desse Minotauro do mato paulista vieram projetar-se nos cabos da traquitana analógica que movimentou a encruzilhada de ruas onde a artista Laura Lima encenou seu Balé Literal, em 29/6, no Rio. 

  • Balé Literal (2019), de Laura Lima (Foto: Cortesia A Gentil Carioca)
  • Balé Literal (2019), de Laura Lima (Foto: Cortesia A Gentil Carioca)
  • Balé Literal (2019), de Laura Lima (Foto: Cortesia A Gentil Carioca)
  • Balé Literal (2019), de Laura Lima (Foto: Cortesia A Gentil Carioca)

As aproximações entre o Balé e o Bailado são fecundas. Ambos constroem “estruturas idealísticas”, nas quais o palco e os elementos cênicos são tão ativos quanto os atores. Ambos almejam a integração total entre o teatro e o mundo. Ambos foram encenados, originalmente, uma só vez, em uma só noite. O Bailado foi interditado pela polícia após o primeiro espetáculo. O Balé foi a forma elegida por Laura Lima para montar, ao vivo e coletivamente, as obras que integrariam sua individual na Galeria A Gentil Carioca.

Mas talvez o elemento de maior confluência esteja no ápice dramático de ambas as performances. No Bailado, ele acontece quando a mulher vestida de vermelho e salto alto (descrita pelo autor como “mulher inferior”) entra em cena com um facão e corta o falo dourado do deus. Nada mais feminista. Na montagem de Zé Celso, a cena acontece em ritmo de funk carioca, com a sedutora vermelha cantando “Sou mulher do deus, sou mulher do deus”. Já o ápice do arco dramático do Balé de Laura Lima era o momento da “defenestração”, quando as obras – que desceram da janela do 1º andar de um dos edifícios da Gentil, enganchadas em cabo de aço – alcançavam o chão. O ciclo de transmutação dos objetos em “obras” se completava quando eles alcançavam o espaço expositivo, lá permanecendo suspensos por cabos durante todo o período da exposição.

O presente artigo apropria-se e manipula o título da série de textos publicados por Flávio de Carvalho no Diário de São Paulo, “Notas para reconstrução de um mundo perdido” (1957-58), buscando com isso reconstituir os elos entre dois artistas performáticos interessados na demolição de velhos deuses. Sem falar nas investigações de ambos sobre o que estaria implicado em uma modernidade tropical. Mas esses são outros quinhentos. A continuar.

Bailado do Deus Morto, peça de Flavio de Carvalho encenada pelo Teatro Oficina Uzyna Uzona, na abertura da exposição Flávio de Carvalho: O Antropófago Ideal (Foto: Denise Andrade)


Serviço
Bailado do Deus Morto, Teatro Oficina Uzyna Uzona
7/9 às 13h, inscreva-se em 11-3887 7130
Flávio de Carvalho: O Antropófago ideal
até 19/10
Galeria Almeida e Dale
Rua Caconde, 152 – São Paulo
almeidaedale.com.br

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