Novo MIS-RJ quer impressionar (mas não se responsabiliza por conservação)

O Museu Carmen Miranda será fechado, o velho MIS vai perder a sede da Praça XV e o novo MIS de Copacabana não terá reserva técnica

Márion Strecker
Carmen Miranda, Aurora Miranda e o Bando da Lua em cena do filme Alô, Alô Carnaval (1936), de Adhemar Gonzaga (Fotos: MIS RJ)

Pioneiro entre instituições do gênero, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro foi fundado em 1965 e abriga 31 coleções particulares, doadas ou compradas ao longo de 50 anos. São mais de 300 mil itens, entre fotografias, filmes, partituras, discos, fitas de áudio, livros e objetos, como roupas e instrumentos musicais. Entre as coleções preservadas pela equipe de 43 funcionários estão as de Almirante, Augusto Malta, Jacob do Bandolim, Elizeth Cardoso, Rádio Nacional, Nara Leão e Sérgio Cabral. Mais recentemente, as coleções de Dorival Caymmi, Herivelto Martins, João Araújo (pai de Cazuza), Nelson Motta e Paulinho Tapajós foram incorporadas.

Pela escassez de funcionários, nem todas as coleções foram computadas ainda. Por falta de verba, novos acervos não têm sido comprados. Se ainda aceitam algumas doações (“Há coisas que não podemos desperdiçar”, diz a vice-presidente da Fundação MIS, Rachel Valença), recusam sistematicamente coleções particulares que não sejam de músicos, artistas ou personalidades, pela dificuldade prática de selecionar o que interessaria para a instituição.

Vista da Praia de Copacabana em fotografia de Guilherme Santos

Vista da Praia de Copacabana em fotografia de Guilherme Santos

Pouco do acervo, porém, estará fisicamente na sede do novo MIS, já erguida mas ainda não finalizada na paisagem deslumbrante de Copacabana. O projeto do novo museu é fazer uso intensivo de computadores, projeções e instalações espetaculares para festejar a cultura carioca bem na frente da praia mais famosa do Brasil. A prioridade é, obviamente, oferecer diversão e informação para o público local e os turistas que passam no calçadão, e não criar um local para guardar comme il faut o acervo da instituição, fundamental para os pesquisadores da cultura brasileira.

O governo do estado do Rio de Janeiro confiou o projeto do novo MIS à Fundação Roberto Marinho, em parceria com o então existente Ministério da Cultura, por meio de lei de incentivo, e financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os patronos são TV Globo, Itaú e Natura. Os patrocinadores são Vale, AmBev, Light e IBM. Um lindo novo prédio de 9,8 mil metros quadrados em frente à praia foi projetado pelo escritório nova-iorquino Diller Scofidio + Renfro, escolhido em concurso em 2009. No endereço antes funcionava a boate Help, conhecida internacionalmente pelas prostitutas que batiam ponto ali. O projeto ficou conhecido pelo sugestivo nome de Help MIS. Entretanto, tudo indica que o “help” será bastante parcial, já que a conservação do riquíssimo acervo do velho MIS não faz parte do escopo do projeto, a não ser em casos pontuais, como algum vestuário e adereços de Carmen Miranda, que podem vir a ser expostos no original ou em réplica.

A obra civil, inicialmente orçada em R$ 70 milhões, está bem adiantada, mas está parada há meses. Faltam acabamentos, instalações e esquadrias. O contrato com a empreiteira responsável por instalações e acabamentos foi rescindido em fevereiro pelo governo, por não cumprimento. O valor total do investimento atualizado corresponde a R$ 274 milhões. Já foram gastos R$ 75,7 milhões do governo do estado, R$ 40,1 milhões de recursos do BID e R$ 113 milhões de recursos privados captados pela FRM. A ideia inicial era inaugurar o novo espaço em 2012, mas nem para as Olimpíadas ele estará pronto. O governo do estado vive gravíssima crise financeira e administrativa. A Secretaria de Estado de Cultura estima hoje que a inauguração do novo MIS será em 2017.

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Pessoas em trajes de banho saltam ao mar, em fotografia de Augusto Malta

“Vamos inaugurar dez meses depois que a obra for retomada”, informa o responsável pelo conteúdo do novo MIS, o jornalista Hugo Sukman, da Fundação Roberto Marinho. A expografia está sendo feita pelos cenógrafos Daniela Thomas e Felipe Tassara, ela também cineasta e ele diretor de arte. Como aconteceu com outros projetos museológicos da FRM, notadamente o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e o Museu do Amanhã, no Rio, haverá instalações multimídia. Mas, uma vez pronto, a Fundação Roberto Marinho não vai administrar o museu. “A FRM não gere nenhum museu. Faz parte dos conselhos. Capta os recursos, inclusive do Estado. Cria, desenvolve, implementa. Cria modelos de gestão. Entrega o museu na inauguração”, esclarece Sukman.

Contrastes
No térreo do novo edifício haverá bar, livraria e uma banca virtual de notícias relacionadas ao conteúdo do museu. No subsolo, boate para 80 pessoas e auditório de 280 lugares. No primeiro andar, a exaltação do “espírito carioca”, com “salões virtuais” de comediantes e humoristas e uma “experiência totalmente imersiva” no Carnaval da cidade.

O segundo andar será dedicado à música. Ali será possível ouvir dezenas de horas da programação dos tempos áureos da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, assistir a programas de auditório de estrelas da rádio, documentário sobre a origem do samba no Rio, animação sobre o choro e uma história da canção. Está prevista ainda uma instalação com instrumentos do acervo do MIS, como a batuta de Villa-Lobos, o piano de Ernesto Nazareth, o saxofone de Pixinguinha e o bandolim de Jacob. Outros destaques serão uma área para a televisão brasileira e outra para a Pequena Notável, com algumas peças (ou réplicas) do atual Museu Carmen Miranda, que deve ser extinto pelo governo e ter o acervo absorvido pelo MIS.

Material de divulgação do filme O Homem Que Sabia Demais (1955), de Alfred Hitchcock, da coleção de Salvyano Cavalcanti

Material de divulgação do filme O Homem Que Sabia Demais (1955), de Alfred Hitchcock, da coleção de Salvyano Cavalcanti

Augusto Malta (1864-1957), principal fotógrafo da evolução urbana do Rio de Janeiro na primeira metade do século 20, terá imagens panorâmicas ampliadas. Fotos do seu contemporâneo Guilherme Santos (1871-1966) serão transformadas em 3D. Outra área será dedicada ao Rio no cinema, como personagens ou cenários de filmes. Restaurante panorâmico e terraço a céu aberto completam o projeto.

O projeto do novo MIS contrasta com as condições em que sobrevive o velho MIS. Enquanto tecnologia não faltará no novo prédio, o acervo do MIS passa os dias e as noites com o ar-condicionado desligado. Foi a maneira que a equipe encontrou de evitar variações bruscas de temperatura. A Secretaria de Cultura alega que os prédios não têm infraestrutura para manter a climatização 24 horas por dia.

O acervo divide-se, hoje, em duas sedes. A primeira é um prédio imponente de 1922, na Praça XV, no Centro da cidade, recentemente prometido ao Tribunal de Justiça do Rio. Ali ficam as fotografias, vídeos, cinema, sala de consulta, parte da hemeroteca, das partituras, alguns instrumentos musicais e o auditório, onde são gravados, desde 1966, os Depoimentos para a Posteridade, que já somam mais de 1,1 mil. A segunda sede, bem mais modesta, fica no bairro boêmio da Lapa e concentra, desde 1990, o acervo musical, com discos e vídeos, entre outros itens. Uma preocupação grande da equipe técnica do MIS é o destino do enorme acervo que está na Praça XV, delicadíssimo, com dezenas de milhares de negativos fotográficos e positivos de vidro. A Secretaria de Cultura acha que, “com algumas obras de adaptação”, o prédio da Lapa poderia comportá-lo. O novo edifício em Copacabana simplesmente não terá reserva técnica.

Escola de samba (não identificada), em fotografia da coleção de Sérgio Cabral

Escola de samba (não identificada), em fotografia da coleção de Sérgio Cabral

Museus virtuais
“A perda do prédio da Praça XV é um dos nossos pesadelos. A instituição vive um momento de grande expectativa”, reconhece Rachel Valença, do MIS, para seLecT. “Aprendi a não sofrer por antecipação. O principal é não perder o foco da vida normal e fazer o nosso trabalho. Nossa responsabilidade é muito grande.”

Conforme o último balanço, dos 300.354 itens do acervo contados até 2015, 95,49% estão catalogados, 89,48% acondicionados e 88,54 já estão digitalizados. Esses números não incluem o precioso acervo do Museu Carmen Miranda, que será fechado, terá sua modesta sede do Aterro do Flamengo desativada e cuja coleção será incorporada ao MIS, sabe-se lá quando.

Capa da partitura de Aquarela Brasileira (que depois se chamou Aquarela do Brasil), de Ary Barroso, com carimbo de Almirante

Capa da partitura de Aquarela Brasileira (que depois se chamou Aquarela do Brasil), de Ary Barroso, com carimbo de Almirante

O jornalista e escritor Ruy Castro, ele mesmo um colecionador compulsivo, fez para o novo museu os textos sobre Carmen Miranda, a mais famosa cantora e atriz que o Brasil já teve, da qual é biógrafo. “Ela vai estar bem acolhida lá”, espera Ruy, que tem uma “relação emocional” com o MIS. Uma exposição sobre Noel Rosa, em 1967, rendeu-lhe a primeira matéria assinada da sua profícua carreira. Ele assistiu e cobriu jornalisticamente muitos dos Depoimentos para a Posteridade do MIS, que recentemente ajudou a selecionar, como consultor.

Ruy considera o projeto do novo MIS “interessante”, embora “tudo digital”. Ele confidencia ter se sentido “um intruso”, por não ter encontrado um único livro em exposição no Museu da Língua Portuguesa, que sofreu um incêndio em São Paulo, em dezembro passado, e ainda está sem data para reabrir. Por ser 100% virtual, o conteúdo do museu não deve ter se perdido. Se existe uma vantagem em museus virtuais, deve ser essa.

Colaborou Luciana Pareja Norbiato

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