Novos protagonismos em Inhotim 

Contornando os modismos institucionais, Inhotim dá espaço a outras vozes e narrativas que colocam a representatividade em pauta

Luana Rosiello

Publicado em: 30/05/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Reportagem

Documentos de Segundo Ato: Dramas para Negros e Prólogo para Brancos [Foto: Brendon Campos]

Dando continuidade à parceria entre o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) e Inhotim, está em cartaz, no instituto mineiro, o segundo ato da série de quatro mostras dedicadas a vida e obra do poeta, escritor, dramaturgo, artista visual, curador, panamefricanista Abdias Nascimento (1914-2011). Depois de conhecermos melhor a relação profissional e pessoal entre Abdias e Tunga na primeira exposição do projeto, Dramas para Negros e Prólogo para Brancos abarca, sob o signo de Oxóssi, guardião das matas e Orixá do trono do conhecimento, o período marcado pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), iniciativa que deu origem ao Museu de Arte Negra e consolidou a atuação de Nascimento centrada  na representatividade afrobrasileira e sua relação com outras experiências diaspóricas. Criado durante o 1º Congresso do Negro Brasileiro, em 1944, o TEN tinha como propósito central conquistar espaço para pessoas negras nas artes cênicas pela conscientização racial, crítica ao etnocentrismo europeu e valorização da herança cultural africana. 

  • Vistas de Segundo Ato: Dramas para Negros e Prólogo para Brancos [Foto: Brendon Campos]

Exibida na Galeria Mata, a mostra é dividida em oito núcleos temporais (1941 – Viagem América Latina / 1943 – Teatro do Sentenciado / 1944 – Teatro Experimental do Negro / 1950 – 1º Congresso do Negro Brasileiro / 1955 – Cristo Negro / 1968 – MAN no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro / 1966 – Festival Mundial das Artes Negras, Dacar –  Senegal / 1968 – Exílio), definidos a partir de uma ampla pesquisa documental que propõe um novo olhar sobre a coleção do MAN. “A mostra evoca uma relação epistêmica com o orixá, tem a ver com a história do conhecimento, que circula por todo o espaço expositivo. Dessa forma, os núcleos se contaminam, fazendo a experiência do teatro atravessar o visitante”, conta Deri Andrade, fundador da plataforma Projeto Afro e curador-assistente de Inhotim. “O foco é a importância da coleção enquanto ferramenta para a valorização e o reconhecimento dos valores  ancestrais africanos na sociedade brasileira”, completa Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias e cofundadora do IPEAFRO.

Documentos sobre o espetáculo Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, interpretado por atores do Teatro Experimental do Negro

Além de diversos documentos sobre a trajetória do TEN, o segundo ato apresenta trabalhos de Anna Bella Geiger, Heitor dos Prazeres, Iara Rosa, José Heitor da Silva, Sebastião Januário, Octávio Araújo e Yêdamaria, que integram a coleção do museu do IPEAFRO. Ao propor o diálogo entre documentos, pinturas de Abdias Nascimento e obras pertencentes ao MAN, é evidenciada a dimensão política da arte e da abordagem curatorial propostas e realizadas pelo artista em seus projetos, integrando as relações humanas e suas interações com o ambiente, o planeta e o cosmos.“Para esse artista e seu povo, a arte é parte integral da sociedade e se relaciona profundamente com o cotidiano, a vida e o amor”, afirma Julio Menezes, coordenador do projeto Museu de Arte Negra do IPEAFRO.

TERREIRO DE CONHECIMENTOS
O programa Território Específico, eixo de pesquisa que norteia a programação do Instituto em 2021 e 2022, propõe debater e refletir a função da arte nos territórios nos níveis local e global, além da relação com seu entorno, mirando os desdobramentos de uma configuração institucional que integra museu e jardim botânico.   

Ocupação Inhotim: Biblioteca, do artista Jaime Lauriano, inaugura o projeto  Inhotim Biblioteca, que convida, anualmente, artistas-pesquisadores a produzirem obras em diálogo com a biblioteca do instituto. A instalação estabelece relação direta com o Segundo Ato do projeto, propondo a curadoria de uma bibliografia que contemple, em sua maioria, autores negros e negras.

  • Ocupação Inhotim: Biblioteca, de Jamie Lauriano [Foto: Brendon Campos]
  • Ocupação Inhotim: Biblioteca, de Jamie Lauriano [Foto: Brendon Campos]

“Como ativar uma biblioteca? Foi esse o questionamento que permeou minha pesquisa”, explica Lauriano. “A instalação é inspirada nos terreiros de candomblé, onde o conhecimento se dá em roda, e no quilombismo, que defende a desierarquização do conhecimento e a troca de saberes.” A biblioteca foge da racionalidade eurocêntrica do conhecimento, dispensando a verticalidade de estantes e prateleiras, que pressupõem um lugar sagrado e de inacessibilidade, para posicionar os livros em cima de móveis tradicionais dos rituais de Candomblé e permitir que o visitante utilize o espaço como bem desejar. A intenção é tirar o conhecimento do lugar elitizado e abrir um canal de diálogo direto com a sociedade, tornando a biblioteca um lugar de encontro, troca e aprendizado com o outro. Para o artista, os resultados do projeto só serão visíveis no final, em 2023, quando se poderá perceber as marcas, dobras, manchas e anotações nos livros da biblioteca.

Jaime Lauriano na Ocupação Inhotim: Biblioteca

A presença e protagonismo do IPEAFRO em Inhotim demonstra uma possibilidade de luta social dentro das estruturas coloniais segregadoras, abrindo portas para que o modismo de anos recentes de expor arte negra, indígena ou de mulheres passe a ser um costume. “Depois de muito esforço e luta, a iniciativa privada entendeu que não dá mais para ficar nesse lugar passivo de somente contar histórias, é necessário fazê-las. Essas inaugurações são importantes para evidenciar a outras grandes instituições no Brasil que não se pode mais só mostrar os trabalhos ditos disruptivos e identitários, precisamos promover mudanças. Isso é um chamamento, principalmente, para os museus de São Paulo”, afirma Lauriano à seLecT.

ARTE NA NATUREZA
O Acervo em Movimento, programa criado para compartilhar com o público as obras recém-integradas à coleção, tem inauguração concomitante,  com trabalhos dos artistas Arjan Martins e Laura Belém, ambos instalados na área externa do Instituto.

  • Birutas (2021), de Arjan Martins, em Inhotim

A obra Birutas (2021), do artista carioca, é composta por aparelhos destinados a indicar a direção dos ventos, que se fundem às bandeiras marítimas e seus códigos internacionais para transmitir mensagens entre embarcações e portos. “Esse trabalho começou em 2004. Inicialmente, eram 100 birutas confeccionadas em papel de seda, material pouco resistente às ações do tempo. Para Inhotim, apresento um desdobramento deste trabalho. Produzi 5 novas birutas com um material náutico mais resistentes, próprio para coexistir com a intempérie”, conta Arjan Martins. São latentes nas obras do artista conceitos sobre migrações e outros deslocamentos de corpos e sobre presenças entre espaços de luta e poder, além da temática das diásporas e movimentos coloniais que se deram em territórios afro-atlânticos. “Oriunda de pesquisas urbanas em desenho, Birutas é sobre a ideia de uma arte que transcende o espaço institucional e museológico. Um artista afro-brasileiro tem incumbências com a arte e eu queria trazer essa ideia de transformação do trabalho e pesquisa a partir de outras matérias,desafiando a área externa”, afirma.

Exposta pela primeira vez em 2004 na lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, e no ano seguinte na 51ª Bienal de Veneza, Enamorados (2004), instalação de Laura Belém, é composta de dois barcos a remo equipados com holofotes que se iluminam mutuamente, frente a frente, na água. As luzes de um dos barcos se acendem, enquanto as do outro permanecem apagadas. Após 20 segundos, eles invertem: o que estava aceso agora se apaga, e o que estava apagado se acende.

  • Enamorados (2004), de Laura Belém, em Inhotim

O trabalho desafia o espaço tradicional da arte para explorar as possibilidades de ocupação. “Minha vivência no Instituto Museu Giramundo, em Belo Horizonte, me leva a uma pesquisa sobre teatro de objetos e sobre a possibilidade de dar vida a um corpo. Depois, tive experiências com dança contemporânea, que influenciaram minha percepção sobre a dimensão espacial. Enamorados é sobre o corpo habitando o espaço, e o espaço afetado pelo corpo”, revela Belém. Como um diálogo silencioso, a instalação proporciona uma ampla gama de interpretações, exigindo uma pausa pelo visitante para mergulhar nesse recorte de realidade, que transita entre o real e a ficção. 

REPRESENTATIVIDADE, POESIA E IMAGEM
A teatralidade se estende até a Galeria Praça, onde está a emblemática instalação do artista britânico Isaac Julien. Entre poesia e imagem, Looking for Langston (1989) parte de uma investigação lírica do mundo privado do poeta, ativista social, romancista, dramaturgo e colunista afro-estadunidense Langston Hughes (1902-1967) e seus colegas artistas e escritores negros que formaram o Renascimento do Harlem — movimento cultural baseado nas expressões culturais afro-estadunidenses que ocorreu ao longo da década de 1920. A investigação sobre personalidades proeminentes do século 20, como Langston, é uma constante na obra de Julien, que se debruça sobre a vida destas figuras a fim de revisitar as narrativas históricas oficiais.

Looking for Langston (1989), de Isaac Julien

“Em 1954, Langston Hughes trocou correspondências com Abdias Nascimento, autorizando o Teatro Experimental do Negro a encenar suas peças. Nesse sentido, tanto Hughes, Abdias e Isaac Julien, cada um à sua época, buscavam representatividade e reconhecimento da produção artística e intelectual negra”, afirma Julieta González, diretora artística do Inhotim. A obra foi dirigida por Julien na época em que era membro da Sankofa Film and Video Collective, e contou com assistência do crítico de cinema e curador Mark Nash, que trabalhou no arquivo original e pesquisa cinematográfica.  Hoje, é considerado um trabalho fundamental para estudos afro-americanos e, nos últimos 30 anos, tem sido amplamente apresentado em universidades, faculdades e escolas de arte norte-americanas.

Julieta González, diretora artística de Inhotim, em frente a obra de Isaac Julien

SERVIÇO
Inaugurações Maio 2022
Instituto Inhotim, Brumandinho
R$ 44

Tags: , , , , , , ,

Nota de esclarecimento: A Três Comércio de Publicações Ltda., empresa responsável pela comercialização das revistas da Três Editorial, informa aos seus consumidores que não realiza cobranças e que também não oferece o cancelamento do contrato de assinatura mediante o pagamento de qualquer valor, tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A empresa não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças.