Novos protagonismos: Esbell na coleção do Pompidou

Museu adquire duas obras de Jaider Esbell, indicação de Paulo Miyada como curador adjunto da América Latina, cargo comissionado por Beatriz Yunes Guarita

Paula Alzugaray

Publicado em: 24/10/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Notícias Quentes

Detalhe de Carta ao Velho Mundo (2018-19), de Jaider Esbell

Carta ao Velho Mundo (2018-2019) e Na Terra Sem Males (2021), do artista indígena contemporâneo Jaider Esbell, de origem Macuxi, são as duas novíssimas aquisições do Centre Georges Pompidou, em Paris. As obras indicadas por Paulo Miyada, que desde junho último ocupa o cargo de curador adjunto para a América Latina, foram inicialmente aprovadas pelo comitê curatorial do museu e, na sexta feira 22/10, pelo Círculo de Patronos da América Latina, que é responsável pelo fundo anual que viabiliza a aquisição.

Capa de Carta ao Velho Mundo (2018-19), de Jaider Esbell

A obra Carta ao Velho Mundo, atualmente em exibição na 34ª Bienal de São Paulo, foi produzida quando Esbell se preparava para uma viagem à Europa. É composta por intervenções a caneta e marcadores sobre as 396 páginas do primeiro volume do livro Galeria delta da Pintura Universal, uma enciclopédia ilustrada da história da arte ocidental. “É no livro que fica claro que existe uma perspectiva revertida, de uma mirada que não só é tratada como arte contemporânea, mas que enquanto arte indígena contemporânea, revê o cânone da história da arte e faz sua própria leitura, sua própria intervenção, insere suas agendas com ironia, com humor, com protesto”, diz Paulo Miyada para seLecT. “É uma obra fundamental, que dá sentido não só para a obra do Jaider como para esse primeiro gesto da curadoria de repensar como pode atuar um museu”.

Na Terra Sem Males (2021) é uma pintura que expressa as mesmas qualidades formais da série A Guerra dos Kanaimés, também em exibição na Bienal, composta por uma sobreposição de camadas de desenhos, pinturas em cores brilhantes, texturas e transparências sobre fundo preto, que dá materialidade à compreensão Macuxi de temporalidades sobrepostas. “A pintura faz uma complementação porque é também uma obra bastante icônica da capacidade do Jaider de combinar muitos mundos; essa relação pictórica que cada vez que você olha você percebe um símbolo novo, uma narrativa nova, um outro modo espacial, então é um modo muito único de pensar a imagem e a representação”.

Na Terra Sem Males (2021), de Jaider Esbell

A argumentação de Miyada em defesa da importância da aquisição de Jaider Esbell, passa por sua atuação múltipla – como artista, escritor, curador, galerista, ativista, pensador e performer – na promoção da Arte Indígena Contemporânea (AIC), que o curador define como “um sistema de alianças multi-etnicas com objetivos culturais e políticos”.

Jaider Esbell, artista e ativista da Arte Indígena Contemporânea

A reunião do Círculo de Patronos da América Latina aconteceu na sexta-feira 22/10, na casa da colecionadora Beatriz Yunes Guarita, em Paris, na presença de Xavier Rey, diretor do Centre Pompidou desde julho de 2021. Integrante do Conselho Administrativo do museu há 8 anos e também do Círculo, Yunes é a responsável pelo comissionamento de Paulo Miyada para o cargo. “Eu realmente consegui, por indicação minha, pessoal, colocar vários artistas no acervo do museu”, diz Beatriz à seLecT. “Mas é completamente diferente isso vir de um pesquisador como o Paulo, que está o dia inteiro em contato com uma gama muito mais ampla de artistas. A equipe está bem animada com essa possibilidade de ter um curador de América Latina, porque o Fréderic Paul é o curador responsável pelo olhar sobre todas as Américas”.

Miyada entra com um projeto de reconhecimento de novos protagonismos – tanto entre jovens emergentes e atuantes, quanto em revisões históricas – de artistas que foram sub-discutidos, sub-historicizados e sub-valorizados. “É logico que um museu dessa envergadura tem sempre lacunas muito evidentes de artistas que são fundamentais na história da arte contemporânea e moderna e que por inúmeros fatores não estão ainda bem representados no acervo”, continua Miyada. “Mas a minha sugestão pro Círculo de América Latina, pro Fréderic e pro museu foi a intenção justamente de que, no trabalho constante de atualização, faça-se isso pensando na responsabilidade que o museu pode ter em participar dos processos de legitimação de vozes, poéticas e produções que estão em processo de reinvindicar ou de conquistar essa legitimação”.

Paulo Miyada, curador-adjunto para a América Latina, do Centre Pompidou, e co-curador da 34ª Bienal de São Paulo

Parcerias público-privada

O cargo de Miyada é focado em aquisições e doações, que no Centre Pompidou são hoje viabilizadas pelos círculos contributivos – um círculo internacional e outros regionais –, que geram um fundo anual para a viabilização de aquisições para a coleção. Já a contratação de Miyada, possibilitada por um colecionador parceiro, foi a primeira na história do Centre Pompidou. O formato foi sugerido por Beatriz Yunes Guarita e Catherine Petigas, que também integra o Conselho Administrativo do museu. “Esse formato de co-curadoria é um projeto piloto e, a partir dele, abriu-se no Pompidou o espaço para mais dois co-curadores para a Europa do Leste e da Ásia”, diz Beatriz. “Uma das coisas mais bacanas é dar exemplo para que novas atitudes como essa sejam seguidas”.

Beatriz Yunes Guarita, colecionadora membro do Conselho Administrativo do Centre Pompidou

“Na Europa expandida, a Tate tem o modelo mais similar ao que eu ocupo agora no Pompidou, que é a de curador-adjunto focado em América Latina e viabilizado pelos patronos que tem algum vinculo com a região”, diz Miyada. O cargo da Tate Modern já foi ocupado por Cuauhtemoc Medina e Jose Roca. “No MoMA, são cargos de pessoas que vão trabalhar dentro do museu. O cargo da Tate é mais parecido com o nosso porque o conceito é ter curadores que vivem e atuam da região em questão e trabalham sugerindo aquisições e doações. A ideia é que o co-curador seja uma espécie de emissário do museu”, completa.

Em nome da Coleção Ivani e Jorge Yunes, da qual é diretora, Beatriz também comissiona a curadora Horrana de Kássia Santoz para a Pinacoteca do Estado de São Paulo, tendo como um precedente um fundo criado pela colecionadora Estrellita Brodsky para viabilizar no MoMA NY o cargo de curador de América Latina, que já foi ocupado por Paulo Herkenhoff e Luis Perez-Oramas.

Horrana assumiu em janeiro de 2021 a vaga de curadora-pesquisadora para criar diálogos entre as obras da Pinacoteca e a coleção IJY, durante dois anos. “Já no processo seletivo, coloquei que uma das questões que eu gostaria de tensionar são as discussões sobre a modernidade, considerando que em 2022 é a efeméride da Semana de 22, a celebração do bicentenário da Independência, as eleições, tudo isso vai concatenar um cenário importante de discussão política e histórica”, diz Horrana à seLecT. Ao longo do ano, a curadora trará cinco artistas e curadores contemporâneos para intervir nas duas coleções. São eles Mitsy Queiroz, Castiel Vitorino, Luciara Ribeiro, Olinda Tupinambá e Charlene Bicalho.

Horrana de Kássia Santoz, curadora-pesquisadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo

 Além de Jaider Esbell, o Círculo da América Latina do Centre Pompidou corrige uma lacuna histórica ao aprovar a aquisição de três obras de Luis Camnitzer, artista uruguaio residente em Nova York, absolutamente fundamental para a arte conceitual latino-americana, que não estava representado na coleção. Entre elas, This is a Mirror, You Are a Written Sentence (1968). Segundo Miyada, a indicação já vinha sendo trabalhada há mais de um ano pelo curador Fréderic Paul. “Se não fosse preenchido agora, daqui a 20 anos provavelmente ninguém mais conseguiria, com a realidade dos valores que os museus podem pagar”, diz.

 

 

 

 

 

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