O abre-alas moderno

Instalação de Oskar Metsavaht no MAC Niterói relaciona arquitetura moderna brasileira à construção do Cristo Redentor

Da Redação

Publicado em: 27/11/2021

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Detalhe da instalação 90 I 25 - Ícones e Arquétipos, de Oskar Metsavaht (Foto: Divulgação)

O fato de o Cristo Redentor e o MAC Niterói, os dois grandes símbolos das cidades vizinhas Rio e Niterói, terem completado, respectivamente, 90 e 25 voltas ao Sol em 2021, não configuraria motivo suficiente para aproxima-los em uma exposição. Mas um paralelo conceitual e estético entre os dois monumentos começa a fazer sentido se considerarmos sua mesma técnica construtiva, o concreto armado. “Minha tese é demonstrar como a construção do monumento do Cristo Redentor foi significativa para o modernismo brasileiro”, diz o designer e artista Oskar Metsavaht sobre a instalação 90 / 25 – Ícones e Arquétipos, em cartaz no MAC Niterói até o próximo domingo 5/12.

Ancorado em anos de pesquisa sobre o Redentor (sintetizada inicialmente na série e no livro Divina Geometria, 2016-2019), Metsavaht sustenta que o concreto armado, base da arquitetura moderna brasileira, chegou ao Brasil pelas mãos de engenheiros italianos convocados a encontrar uma solução para sustentação dos famosos braços abertos sobre a Guanabara.

Detalhe da instalação 90 / 25 – Ícones e Arquétipos, de Oskar Metsavaht (Foto: Divulgação)

O salto conceitual que alinhava o edifício do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, um monumento da arquitetura moderna (embora construído já em tempos pós modernos, entre 1991 e 1996) com a estátua protomoderna (embora construída no auge do modernismo, entre 1926 e 1931) se efetiva na instalação de Metsavaht na sala central do edifício de Oscar Niemeyer.

“Editadas” em conjuntos de três a nove imagens P&B, em dimensões e formatos variáveis, as fotografias dialogam franca e diretamente com as curvas sinuosas do museu. A montagem favorece um olhar cíclico sobre a mostra. Repetidos e alternados nas quatro paredes da sala redonda, os dois arquétipos ganham novas camadas de leitura a cada volta.

Vista da sala redonda do MAC Niterói (Foto: Divulgação)

De solução a cicatriz ambiental

Esse exercício de visitação circular da mostra possibilita o rebatimento dos conjuntos fotográficos uns sobre outros, gerando sinapses sugestivas. Por exemplo, na relação entre a “pele” do Redentor e da arquitetura moderna: o conjunto de macro enquadramentos do rosto da escultura – revestimento em mosaico de pedra sabão que, segundo o artista, é uma homenagem a Aleijadinho – pode ser relacionado com os rasgos e rachaduras em superfície de concreto, fotografados em detalhe. Ao enfatizar a face danificada das superfícies urbanas brasileiras – o “defeito” do projeto construtivo brasileiro – o artista sugere pensarmos a cicatriz ambiental aberta hoje pelo uso do concreto.

Da série Concreto Armado, de Oskar Metsavaht (Foto: Divulgação)

O uso que 90 / 25 – Ícones e Arquétipos faz do espaço é exemplar e serviu de impulso para as duas outras curadorias assinadas por Marcus de Lontra Costa – A Simbologia da Paisagem, na sala das janelas enviesadas ao mar, e a primorosa 90/ 25 – A Materialização do Invisível, no andar superior –, dois recortes do acervo do museu. “A curadoria buscou a continuidade desses conceitos para a seleção de obras que compõem a coleção do museu, em especial com o conjunto que compõe a coleção João Sattamini”, escreve Lontra no texto curatorial. “O conjunto de obras de Metsavaht atua como um rizoma, comunicando-se com diversas fontes e sugerindo o visitante valorizar as suas próprias descobertas; a curadoria atua apenas como um indutor de sentimentos, permitindo que cada um crie seu próprio caminho, suas histórias e seus encantamentos”.

O Grito (s/d), escultura de concreto de Ivens Machado , na exposição A Materialização do Invisível

90 / 25 – Ícones e Arquétipos

Até 5/12

90/ 25 – A Materialização do Invisível

Longa duração

Simbologia da Paisagem

Até 5/12

MAC Niterói

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