O ambíguo novo cinema argentino

Jorge La Ferla, de Buenos Aires

Publicado em: 07/11/2011

Categoria: Colunas Móveis, Reportagem

A cinematografia da Argentina vive a situação paradoxal de ser independente de uma indústria inexistente

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Cena de Las Puertas y las Ventanas, de Milagros Mumenthaler

O cinema argentino renova, há quase três décadas, sua presença de destaque nos âmbitos nacional, regional e internacional. Os longa- metragens são tantos que não conseguem ser todos exibidos, mesmo que as estréias superem um filme por semana durante todo o ano. Esta produção ganha visibilidade com o que vem acontecendo no glamuroso mundo dos festivais internacionais de cinema.

O fato de ter obtido o segundo Oscar da academia de Hollywood, em 2010, para o Segredo de Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos), de Juan José Campanella, a Câmera de Ouro do Festival de Cannes deste ano para Las Acacias, de Pablo Giorgelli, e o grande Leopardo de Ouro do Festival de Locarno para Abrir las Puertas y Ventanas, de Milagros Mumenthaler, fomentam o habitual ufanismo argentino.

Trata-se de uma história recente ligada ao fim da ditadura militar, às políticas públicas de incentivo à produção e exibição, afetada, porém, pela paulatina redução das salas e pela substituição do equipamento analógico por digital. Esses são fatores determinantes para garantir a existência de um cinema argentino que já não é economicamente rentável. Dentro do ideal de um cinema considerado independente e de uma indústria inexistente, encontra-se a ambígua categoria do Novo Cinema Argentino. Vaga e relativa, essa denominação não responde a nenhum conceito específico. Mas é Lucrecia Martel que surge como grande protagonista, a partir de seus três longas- metragens, em que se expressa a ética de uma criadora sutil. Martel ainda acaba de realizar alguns curtas experimentais, entre eles Muta, para a grife Miu Miu.

Buenos Aires é uma das cidades do mundo que concentram, proporcionalmente, uma das maiores quantidades de escolas e diretores de cinema. Completando duas décadas este ano, a Fundación Universidad del Cine (FUC) exerce um papel de destaque na formação de realizadores. Lisandro Alonso, María Paz Encina, Daniela Goggi, Mariano Llinás e Pablo Trapero integram uma longa lista de diretores de carreira já estabelecida. Outros ex-alunos, como Sebastián Díaz Morales e Andrés Denegri, estão posicionados no âmbito da arte contemporânea, com obras em videoarte, cinema experimental e instalação. Atente-se ainda para a considerável presença de estudantes brasileiros.

O desenvolvimento contínuo do cinema, do teatro e da ópera nos fala de um projeto cultural argentino passadista, em consonância com um país que retoma seu destino histórico exportador de matérias-primas. Distanciado, porém, da tendência brasileira, industrial, futurista, onde prevalecem o cyberentusiasmo e o fomento de uma práxis que integra arte, ciência e novas tecnologias. Esses são dois projetos, de ideologias diversas, que integrados poderiam sinalizar uma colaboração dinâmica para a região.

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Cena do filme Cena do curta metragem Muta, de Lucrecia Martel.

Jorge Laferla é professor titular da Universidade de Buenos Aires, pesquisador e autor de mais de 25 livros sobre cinema.

Publicado originalmente na edição impressa, seLeCt #2.

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