O barro e o mito

Nadam Guerra abre exposição no Paço Imperial em diálogo com a cultura popular nordestina e a obra de Mestre Vitalino

Felipe Stoffa

Publicado em: 24/06/2016

Categoria: Da Hora, Notícias Quentes

Trabalho de Nadam Guerra que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Vitalino Pereira dos Santos (1909 – 1963) nasceu na vila de Ribeira dos Campos, próxima à cidade de Caruaru, em Pernambuco. Seu pai era lavrador e sua mãe produzia panelas de barro para vender nas cidades próximas. Foi com ela que aprendeu a modelar o barro e, juntando as sobras que sua mãe deixava, esculpia pequenos bonecos de cerâmica para vender nas feiras da região.

Foi a partir de 1930 que passou a produzir peças maiores, inspiradas em modelos humanos. E continuava a vender seu trabalho, principalmente na feira de artesanato de Caruaru que, se hoje é conhecida por muitos turistas que frequentam o local, deve-se ao sucesso do jovem mestre. Seu reconhecimento veio ainda em vida e foi apelidado como Mestre Vitalino, um dos maiores artistas populares da região. Chamou atenção de colecionadores e críticos de arte, inaugurando em 1947 uma exposição individual no Rio de Janeiro. Mesmo após a sua morte, a cidade de Caruaru ainda é procurada pelas peças de artesanato e arte popular que se encontram nas feiras do bairro Alto do Moura, que também abriga um museu em homenagem a Vitalino.

Encontros com o Mestre e discípulos

Em diálogo com a produção do Mestre, o artista Nadam Guerra apresenta sua individual no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, com trabalhos que retomam a memória do famoso artesão. Com curadoria de Raphael Fonseca, a mostra reúne peças em cerâmica, vídeos e o livro Os Doze Passos da Virgem do Alto do Moura, resultado da pesquisa iniciada em 2014, durante a residência nos ateliês de discípulos de Vitalino, na cidade de Caruaru.

O título da exposição, A Virgem do Auto do Moura, deriva da recente publicação do artista. As peças de cerâmica são baseadas na boneca modelada por Vitalino que ganhou releitura a partir das mãos de Nadam Guerra. É a Nossa Senhora do Alto do Moura, personagem fictícia, que foi escolhida para percorrer o mundo em busca de outras culturas, procurando unificar conhecimentos e devolver ao homem seu estado de natureza.

Trabalho de Nadam Guerra que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Trabalho de Nadam Guerra que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Segundo Raphael Fonseca, “A obra de Nadam Guerra transcende a contemplação, e discute o hibridismo cultural de nossa civilização. Estimula, ainda, o imaginário ao realizar conexões entre culturas, arte, imagens, poesia, literatura e história. Promove o debate sobre arte e literatura, mesclando a arte popular de Mestre Vitalino à arte contemporânea. Há também neste trabalho o desejo de refletir a relação entre documento e ficção”.

A exposição alcança a narrativa já iniciada com as bonecas de Mestre Vitalino, percorrendo todas as peças expostas, e nos lança para outra dimensão, misturando tradições populares do nordeste e história do Brasil. O artista ainda nos apresenta situações, tempos históricos e personagens reais ou fictícios, tudo ao mesmo tempo, transformando sua obra em uma nova mitologia contemporânea.

Trabalho de Nadam Guerra que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Trabalho de Nadam Guerra que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Nadam Guerra é carioca e conhece as técnicas da cerâmica desde os cinco anos de idade. Seu trabalho, entretanto, não é voltado somente a um único material. Possui uma produção multimídia e comumente desenvolve projetos relacionados à poesia, histórias coletivas, temáticas populares e até misticismo. Junto com o poeta e artista visual Domingos Guimaraens criou o grupo UM, e foi também um dos fundadores da Ecovila Terra Una, centro educacional de integração urbana-rural, localizado na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais.

Trabalho de Nadam Guerra que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Trabalho de Nadam Guerra que integra a exposição (Foto: Divulgação)

Serviço
A Virgem do Auto do Moura
Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48, Centro, Rio de Janeiro
Até 31/7
De terça-feira a domingo, das 12h às 19h
Tel.: (21) 2215 2093

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