O boom das editoras 2.0

Juliana Monachesi

Publicado em: 16/12/2011

Categoria: cultura digital, Reportagem

No futuro, o e-book deve substituir a brochura e apenas edições luxuosas serão impressas para um minúsculo nicho de adoradores do objeto livro

Cresh

Crésh, livro de Caco Galhardo relançado este anos em verão interativa para e-readers, tablets e smartphones.

Elas anunciam seus livros em trailers no YouTube ou promovem sessões de autógrafo acompanhadas de pocket shows para apresentar a trilha sonora de um e-book ou app-book. Criam versões diferentes para iPad, Kindle e smartphones. Investigam, com apoio de equipes multimídia, qual comportamento vai substituir nosso hábito de virar páginas ou de ler em silêncio, retirados do mundo. Buscam até novas maneiras de entregar livros impressos, como a publicação on demand. E olham com especial atenção para o nicho de mercado dos jovens leitores, os leitores do futuro. Bem-vindo ao admirável mundo novo das editoras 2.0!

“A função do editor está na interseção de três saberes fundamentais: o intelectual, o comercial e o industrial. Na época do famoso editor Aldo Manuzio, o saber industrial tinha a ver com os tipos móveis (blocos de metal fundido usados nas prensas mecânicas). Se agora os tipos são, além de móveis, voláteis e onipresentes, há que ter editores preparados para isso, não é mesmo?”, pergunta Renata Farhat Borges, da Editora Peirópolis. Desde 2003, a editora paulistana produz livros eletrônicos, que eram, na época, comercializados em PDF para visualização na tela do computador. A partir de então, acompanha de perto as soluções e modelos de negócio possíveis para o livro que transborda do papel e ocupa outros suportes e plataformas.

Dois lançamentos da era dos tablets e appstores evidenciam quão antenada a Peirópolis está em relação a estes novos modelos: Crésh!, de Caco Galhardo, e Meu Tio Lobisomem, de Manu Maltez. O primeiro retrata a realidade familiar em uma reunião de quadrinho e conteúdo interativo. O segundo, lançado este ano, aposta em interatividade e no aproveitamento da interface dos dispositivos móveis, como as opções de áudio: a história narrada pelo autor, trilha musical ou efeitos sonoros.

“Hoje, quando contratamos ou desenvolvemos um projeto, imaginamos desde o princípio para que suportes e linguagens aquele conteúdo será preparado, e envolvemos, para as histórias que migram para o digital, uma equipe multitalentos. Estamos muito envolvidos na investigação de como o meio digital pode interagir com o papel na valorização da leitura compartilhada e intergeracional”, diz ela.

Para Peter Hunt, crítico literário e professor emérito de literatura infantil da Cardiff University, na Inglaterra, a natureza das histórias mudou. “Existe toda uma geração para quem e-books e apps são, e vão ser cada vez mais, a norma. Eu acredito que seja importante distinguir entre o ‘método de entrega’ – os tablets, iPhones etc. – e as maneiras como as crianças entendem as narrativas e histórias. A geração pré-eletrônica tendia a pensar linearmente e a criar histórias com começo, meio e fim, de fato, a estruturar o mundo linearmente. As narrativas eram então empacotadas em livros, que possuem uma estrutura linear imutável: o final é sempre o mesmo (ainda que, em leituras recorrentes, possamos vê-lo de maneira diferente)”, afirma Hunt em entrevista a seLecT.

A geração eletrônica (crianças e, progressivamente, qualquer um menor de 25 ou 30 anos, define Hunt) está habituada a pensar de uma forma bem diferente: “Computadores, iPhones e internet significam que usuários podem acessar informação mais rapidamente do que antes, e de uma forma não linear. Narrativas – jeitos de entender o mundo – são agora construídas a partir de fragmentos não lineares”. No passado, o livro fornecia a história e o leitor fornecia as imagens em sua cabeça; agora, os aparelhos eletrônicos fornecem as imagens e o “leitor” pode manipular a história – mudar o desfecho, adicionar coisas: “Antes da era eletrônica, o livro era o começo e o fim da narrativa. Hoje, narrativas são apenas uma parte da experiência multimídia – você pode aderir a domínios multiusuários e jogar as narrativas. Não se trata apenas de as crianças terem a mente mais aberta para as mídias digitais, mas sim do que elas conhecem – ou seja, elas têm a mente mais fechada para outras mídias”, conclui.

O tipo de interação entre texto, imagem e conteúdo dinâmico que a migração do livro para os suportes digitais demanda é, na opinião de Renata Farhat Borges, um mundo de possibilidades a ser explorado. “Parece, no entanto, que o mercado brasileiro ainda acredita que e-books são PDFs e ePubs (abreviação para publicação eletrônica, formato de arquivo digital-padrão para e-books, sem layout fixo) e que livros interativos para iPad são pequenos games e tabuletas de atividades. Acredito que os novos autores dialogarão muito com a linguagem cinematográfica e com o cinema de animação”, afirma a editora.

Pioneira no lançamento de literatura infanto-juvenil em e-books e app-books no Brasil, a Peirópolis tem companhia internacional de peso na percepção de que as crianças são o tipo ideal de leitor para os novos formatos: a norte-americana HarperCollins, por exemplo, tem canal no YouTube, o HarperKid’s Channel, para anunciar livros e todos os extras que as versões digitais trazem. O vídeo promocional do livro 13 Words, de Lemony Snicket e Maira Kalman, é uma pequena obra-prima desta nova modalidade híbrida de literatura.

Peter Hunt aposta em um declínio da narrativa impressa no decorrer do tempo. Ainda que se cultive ainda por muito tempo a leitura de livros impressos, a tendência é que editoras busquem alternativas mais baratas de impressão, como a do livro on demand. O e-book deve, segundo ele, substituir a brochura, e serão impressas apenas edições luxuosas para o pequeno nicho de adoradores do objeto livro, uma minoria, hoje, que seguirá pequena, porque a leitura é uma atividade de poucos. “Mas a questão acerca da sobrevivência da forma impressa é mais profunda, porque, se existe uma geração que concebe de forma diferente a narrativa (multimídia, flexível e multidirecional), então a narrativa impressa vai gradualmente desaparecer”, opina o crítico.

Para Renata Borges, o que nos resta é pensar em como favorecer, com as linguagens digitais, novas formas de leitura: a leitura compartilhada, a leitura em voz alta, a leitura em grupos. “A evolução no formato do livro ao longo da história sempre revelou novas formas de leitura. A leitura silenciosa, particular, nasceu apenas quando o livro ficou pequeno o bastante para se tornar um objeto possível de se ter em mãos, em posse de um dono único. Se o leitor jovem deve encontrar a literatura nos smartphones – e muito proximamente serão os tablets escolares –, poderá usufruir dela. Se encontrar apenas jogos e brincadeiras, terá sido um grande pecado dos editores literários”, diz.

Hunt prevê mudanças profundas também no papel da crítica literária. “No passado, nós podíamos analisar e criticar um texto que estava fixado e completo – e podíamos analisá-lo sabendo que nossos leitores estariam pensando basicamente da mesma forma que nós, entendendo o texto da mesma maneira que nós. No futuro, textos serão (e alguns já são) flexíveis, mudando continuamente – e então a crítica terá de, por assim dizer, se juntar à dança, em vez de assistir da lateral. Terá de ser uma intervenção, em vez de um julgamento”, afirma ele.

*Publicado originalmente na edição impressa #3

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